Um walshiano “não foi à bola”, a outra walshiana até foi, mas o “pingue-pongue” é intenso não entre walshianos mas sim entre estes e o novo filme de Josh Safdie, o primeiro realizado sem a companhia (preciosa?) de seu irmão, Ben. Andamos às turras com o discurso político (ou a falta dele) e exploramos caminhos, uns mais arrojados do que outros, para se chegar a uma conclusão talvez surpreendente: o filme de Josh, um quiçá surpreendente “nomeado a vários Óscares”, é um dos títulos mais judeus da história recente do cinema americano, mas, pergunta espinhosa, será também vagamente MAGA? Venha a jogo nesta mais recente crítica epistolar, entre o “pingue” de Susana e o “pongue” de Luís.

Luís, olá!
Como estás?
Espero que esteja tudo bem por aí. Eu ainda estou sem internet em casa por causa da tempestade que em muito me fez reviver a orquestração daquele caos operático de Marty Supreme (2025) que sei que também viste recentemente. O granizo que batia contra a nossa janela de entrada, normalmente tão contemplativa (lugar perfeito para ver as noites estreladas), levou-me de volta àquela sequência no motel com Abel Ferrara e o seu cão na banheira: “Oh não, o braço, e o cão, o cão!” A sala de cinema esgotada a ajudar a fortalecer a tensão. Vi-me a gritar para o ecrã demasiadas vezes. Felizmente a janela não tombou.
Voltando à sala, era notório como ninguém parecia saber ao que ia. Digo isto porque era perceptível…ouvia-se o silêncio daquele que está prestes a deparar-se com o desconhecido. Muitos daqueles espectadores estavam certamente ali em fim-de-semana de estreia levados pela expectativa que a época de prémios e uma muita ambiciosa campanha de marketing, alimentada pelo próprio Timothée Chalamet, também produtor do filme, tem vindo a criar há vários meses. Cinema lives. Tendo visto todos os filmes que os irmãos Safdie já fizeram, eu tinha uma ideia do que me esperava. E foi correspondida. Ainda sinto o frenetismo nas pontas dos dedos do saltitar das bolas de ténis de mesa. O mesmo poderá ser dito do filme, que vive dessa potência da possibilidade. Pena como esta se esmorece no último acto e o filme acaba por perder o seu vapor…
Por isso mesmo, queria começar a indagar sobre o filme partindo do desfecho, que na sessão a que fui despoletou uma conversa com uma senhora idosa que tinha ido ver o filme com o marido: “É disto que se fazem os maus pais”, ouvimos. De cabeças viradas, sorrimos-lhe, enquanto a senhora continuava a discorrer um discurso desagradado. Primeiro a criança já graúda (não era suposto ser prematura?). E depois aquele choro colectivo (os bebés recém-nascidos juntam-se a Marty), que distancia o espectador da história a que se prendeu durante 2h30min. Ao sair do cinema e após um momento de despedida entre nós e o casal que parecia falar sobre si mesmo, sobre os sonhos abdicados e a perda da independência, abro a página digital da New Yorker e leio o início da crítica de Richard Brody onde este enfatiza o final de Marty Supreme enquanto “feliz”. Tem que ser um engano, penso. O que é que há de feliz ali? Na minha cabeça ecoava a voz literária de Rachel Cusk, no seu livro de ensaios Coventry: “(…) parenthood is the opposite of art.” Como é que aquele personagem teria uma reviravolta tão imediata? E é considerado feliz apenas porque ele assumiu a responsabilidade? Porque fecha a narrativa de forma redonda (do óvulo a ser conquistado ao bebé que Marty terá que conquistar mas não saberá como, e/ou um paralelismo qualquer entre o ovo e a bola de ténis de mesa)?
Num filme que é sobre um lugar no tempo (a identidade judaica no pós-guerra e o capitalismo americano), este final irritou-me. Digamos a verdade: resta-lhe o filho e, sem outros caminhos pela frente, é o único a escolher. Talvez esta leitura diga mais de mim do que do filme. Não duvido. Ainda assim, pergunto: porque é que um personagem tão excessivamente individualista, que poderia ser resumido por uma corrida desenfreada (corre mais rapidamente do que alguém o quer apanhar) deixaria a sua ferocidade ser abatida daquela forma? Dream big não é só um mote. É uma filosofia. Eu conheço estas pessoas, os hustlers scallywag nas cidades, sem qualidades redentoras, que pintam casas de dia e fazem filmes à noite. Estão dispostos a tudo para sustentar a sua independência, e nunca nenhum deixaria que o fogo se apagasse. Já para não dizer também que ter um filho é algo muito diferente. Ser progenitor passa por aceitar e aprender a libertar um ser com quem partilhamos código genético, mas que pertence apenas e só a si mesmo. Não é nosso como é a conquista de um percurso profissional.
Dito isto, tem que ficar assente que, embora admire estes anti-heróis incansavelmente, são criaturas difíceis de amar. Luís Miguel Oliveira escreve na sua crítica ao filme no Público que Marty Supreme é um filme irmão de The Smashing Machine (The Smashing Machine: Coração de Lutador, 2025), de Benny Safdie. Tematicamente é, certamente. Eis dois filmes sobre homens que procuram o seu lugar na ribalta dentro de mundos desportistas de nicho. Mas a sensibilidade de Benny, a forma como deixa o filme assentar, tinha dado um certo valor sentimental a Marty Supreme, que em retrospectiva, está envolto numa plasticidade caricaturesca, mais vezes que não a correr por correr. Nunca é, no entanto, superficial. E o mesmo já não poderá ser dito de The Smashing Machine que sofre do problema crónico do vazio simpático…não é possível fazer muito com ele.
No meio de controvérsia e uma separação entre os irmãos que juntos caminharam até ao reconhecimento mundial – não seria mentira dizer que o cinema independente nova-iorquino se renovou com o seu radicalismo vérité, muito DIY-pirata (sem as licenças necessárias), cada sequência a ser filmada como se estivesse a ser roubada -, é de notar uma arrogância pueril em Marty Supreme, reminiscente de Paul Thomas Anderson, necessária para a construção de uma carreira. O filme pode não ser biográfico, mas é pessoal. Josh parece estar a escrever sobre ele mesmo! E este é quem ele é: parte descaramento ardiloso parte luta para chegar ao grande ecrã. Os não-actores com que enche o filme (de ex-reclusos a escritores – I see you Naomi Fry!) representam uma Nova Iorque com pulso, onde ao dobrar de mais um dia cresce a oportunidade de sonhar em grande. O filme poderia fazer-se de crítica, já que não é uma peça motivacional, mas foi isso também que me agradou tanto nele! Não é uma coisa nem outra.
E, de repente, o filme e todos os seus intervenientes estão nomeados para os prémios mais notórios da indústria! Coincidência? Não me parece. A forma como aquele vigor cinético sai fora do ecrã e provoca proezas como Chalamet no topo da Vegas Sphere ou a colaboração com o rapper britânico EsDeeKid! Tudo isto se trata, como Brody escreveu, de uma “honey story”. Não tem como não nos atrair. Acabamos apanhados.
Em retrospectiva, poderemos realmente detestar pessoas que não desistem? Falo por mim, quero-as por perto.
E já me alonguei tanto mas tanto. Perdoa-me.
Diz-me tu, o que achaste do filme?
Um abraço,
Su

Olá Susana,
Começas por uma sequência importante para mim – talvez não importante no filme mas importante na história da minha relação com este filme. Quando a banheira cai (até me fez pensar num gag repetitivo do Family Guy envolvendo o vizinho e amigo Cleveland), eu disse para os meus botões: “É agora! É agora que vai começar o ‘Safdie movie'”. Só que não. Quer dizer, acho que Mary Supreme nunca começa, nunca arranca de facto. E uma das razões tem que ver com o que dizes, de maneira bem interessante e perspicaz, relativamente àquilo que se perdeu entretanto: o irmão Ben. Acho que falta esse amortecedor sentimental para que, apesar de tudo, a saga deste jogador de pingue-pongue ensimesmadíssimo, de uma ambição quase insolente (e muito americana), seja habitável; para que, enfim, nos sintamos a correr a seu lado, torcendo para que ele leve a melhor no fim.
Acho que o choro final é isso: o de uma personagem comovida consigo mesma (como o Trump e os seus prémios FIFA?). Não há felicidade nenhuma ali, mas um misto estranho de auto-comiseração e insolência. Uma espécie de “dou-me ao luxo, agora, e por momentos, de ser… humano”. É isto que seduz, mas também horroriza, a personagem da actriz interpretada por Gwyneth Paltrow, algo que fica evidente quando esta lhe pergunta: “como é que tencionas almoçar hoje? Onde é que tencionas dormir logo à noite?” Marty Surpreme não é vítima das circunstâncias, ele está sempre acima delas. Ele é a arrogância em pessoa. E, repito, isso é extraordinariamente americano. Josh, que decerto maldosamente já foi conotado com a direita “MAGA”, gosta dessa arrogância, sente-se atraído por ela. De facto, ter o inenarrável “Mr. Wonderful” (Kevin O’Leary) em compita com o protagonista é sintomático, a meu ver, desta vontade de se fazer aqui qualquer coisa como um “Rocky da era Trump”…
Ora, o meu problema começa e acaba aí, nessas lágrimas. Não se trata do célebre ou famigerado “pavor das lágrimas falsas”, como dizia Zizek em relação ao cineasta polaco, Krzysztof Kieślowski, mas do facto de eu achar que a câmara se co-move muitíssimo com tudo isto; que acredita, e de facto, backs up, este way of life onde vale tudo menos arrancar olhos – às vezes, arrancar olhos… why not? – para se ser alguém na vida. Timothée Chalamet é o actor certo para este trabalho. Ele é uma espécie de pós-Tom Cruise: vive e excede-se nessa vivência relativamente àquilo que a personagem é e àquilo que ela representa – sinto-a, enfim, como uma autêntica “personagem-bandeira” para ser incessantemente agitada, cena sim, cena sim. As intervenções públicas de Chalamet só podem ser encaradas como políticas e, de facto, assemelham-se a verdadeiros comícios de delirante e flamejante auto-engrandecimento (força do eu contra o mundo).
Há qualquer coisa profundamente desagradável na personagem, no seu périplo e ideologia maximalista, que me leva a ficar (de) fora. Aliás, diria mais: a reagir contra. No final, estou com o jogador de pingue-pongue japonês, esse sim uma vítima da megalomania – feita bandeira – encarnada por esta personagem estrepitosamente cínica e desinteressante.
Compará-lo com outros filmes dos Safdie é apercebermo-nos que antes havia gente que errava, que se perdia numa errância qualquer. E, por isso, por serem personagens que duvidavam do seu lugar no mundo, acho que nos era possível alinhar no seu jogo (mesmo nas suas tropelias) e, depois, podíamos apreciar devidamente toda a arrojada “maquinaria” que os irmãos haviam preparado para nós.
Por exemplo, isso existia em Uncut Gems (2019) e em Good Time (2017). Eram filmes em que, desde logo, era possível estar com as personagens – em Marty Supreme a personagem reduz-se a um modo de vida e o modo de vida a um gesto de “propaganda do eu” perfeitamente irritante, para usar uma palavra que usas para qualificar a cena final.
E para ti, o que se salvou para lá de eventuais irritações?
Beijinhos,
Luís Mendonça

Luís, olá!
Como se costuma dizer, colocaste os pontos nos is. Lembro que escrevo de memória, muitos dias depois de ter visto o filme. Com isto, quero dizer que concordo com muito que dizes, e sem dúvida que me fizeste reorganizar as minhas ideias sobre o filme. Ainda assim, começo por salientar duas coisas. A primeira é o facto de que eu não me senti a torcer pela personagem, e foi isso que me fez ganhar um carinho imediato pelo filme. Senti-o preso naquela corrida desenfreada, muito Safdiana, a roda de hamster ao contrário, a forma que o personagem tem de contrariar o que é certo, o que será o seu fim. No centro dessa corrida, literal e metafórica, está um jovem rapaz magricelas que não consegue conformar-se com o que existe. Tudo aquilo é, para ele, insuportável. Por baixo de toda aquela arrogância, encontro o rapaz que sabe disso. Sabe disso bem demais até. Eu senti essas camadas na performance de Chalamet. A vulnerabilidade a começar a borbulhar e ele continuamente a recalcá-la com mais ego, mais ambição, mais insolência, como tu disseste.
A segunda é o facto de que eu não detestei a personagem. Achei-a apenas difícil de amar, mas há vestígios ali de realidade aos quais me agarrei. Aliás, acho Marty dos personagens mais carismáticos de Josh, porque há uma qualidade muito pateta nele. E na própria premissa do filme também! Nunca assenta em algo sério, sério o suficiente para que nela acreditemos completamente. Permanece alucinado, a roçar o rocambulesco psicotrópico. Retirei muito prazer nisso. É um filme errático também porque é disparatado. Há um elemento de quase kid’s play ali. O perigo vem dessa falta de sensatez. É profundamente imaturo. Como escrevia o crítico Odie Henderson no Boston Globe, “It’s a 150-minute tribute to the idiot plot; this type of movie would be over in 15 minutes if almost everyone in it didn’t act like an idiot.” (Risos) Não há maior verdade.
A acrescentar a isto, pensei no que o filme deixou em mim e definitivamente compreendo quando me dizem que só há vazio no seu rescaldo. É verdade. Este é o cinema feito do mecanismo carrossel, é escapismo momentâneo. Josh quer que vivamos o filme intensamente e que o abandonemos à saída, como um cão se limpa abanando o corpo. É um filme que vive dos pretos e castanhos na Nova Iorque neo-noir de Scorsese (especialmente naqueles pool halls) mas com o sentimento trash de Harmony Korine. E voltei por isso mesmo ao Uncut Gems que tu mencionas. E encontrei na tua apreciação de Marty o Howard de Adam Sandler. De todos os filmes dos Safdie, nunca eu consegui entrar completamente no mundo de Uncut Gems…é demasiado repelente, virulento até. Acho curioso como mencionas o filme enquanto um filme que pareces ter conseguido habitar. Eu já o vi várias vezes e nunca fui capaz. “This is how I win (…) It’s about fucking winning”, ouço agora mesmo a ecoar na minha cabeça. E a minha reacção imediata é de distanciamento. São os óculos escuros e os dentes postiços, a cadência do sotaque. E depois o vício do jogo, a vida dupla. Não consigo entrar. Há uma porta que se fecha para mim logo de início. E com Marty Supreme isso não aconteceu. Também não consigo habitar o filme como em Heaven Knows What (2014) ou, melhor ainda, Good Time. Encontrei feixes de luz nesses filmes, uma crueza que vive em conflito consigo mesma. São organismos vivos, em movimento. O facto de que estes dois filmes são filmados pelo director de fotografia Sean Price Williams, que lhes dá um toque desbotado, quase adoentado, diz muito de quão nauseantes são, mas isso não calca a possível experiência imersiva. Muito pelo contrário.
Encontrei também, ao rever Uncut Gems, um paralelismo com Marty Supreme que não tinha registado. Se em Marty Supreme, o conflito faz-se entre a bola de pingue-pongue e o óvulo fecundado, em Uncut Gems é o negócio de sangue da Opala Negra e o possível “cancro” de Howard (a vida vs a morte). E depois o diálogo a fazer-se entre a pedra vinda da Etiópia em Uncut Gems e o pedaço da pirâmide do Egipto que Marty traz consigo para dar à mãe como lembrança. São dois filmes profundamente enraizados na mesma realidade judaica. Marty Supreme é feito do mesmo tecido. É um filme que se passa na década de 1950, mas que nos fala da América na Era Trump, como tu também mencionaste. É um filme que, colocado no contexto actual do fim dos tempos, ganha ainda mais força.
Tanto Howard como Marty são produtos da sua sociedade, sim, com Marty a querer afastar-se da sua família e mais tarde vemos exactamente porquê. É uma família empobrecida, e com isto não falo de falta de dinheiro. Howard é só um dirtbag. A ambição dele é motivada pela espiral contínua do vício. É parasítica. E ele acaba por cair, por isso mesmo. Por sua vez, Marty quer sair do buraco. A câmara filma-o como um bully, mas ele revê-se na fraqueza do papel de underdog. De underdog a bully há uma linha muito ténue. Nessa linha encontramos não só Marty como Rachel (Odessa A’zion), com o seu comportamento execrável. Ela é, no entanto, a maior vítima no filme. E se existe complexidade, começa e acaba com esta personagem que merece que mais seja escrito sobre ela.
Relativamente a tudo que me falas sobre the real life characters daqueles rapazes e das conspirações que circulam, até sobre a rodagem deste filme (!), não duvido da veracidade delas. Mas quanto ao ‘engrandecimento do eu’, creio ser estratégia de marketing. Tudo aponta para isso. Chalamet na rádio francesa a fazer da ficção realidade, durante a promotional tour do filme, dizendo que é a pessoa mais disciplinada e trabalhadora que ele já conheceu. Há qualquer coisa aqui tb sobre a ideia do autêntico ser avaliado pela audácia daquele que o comanda. Sinto por isso mesmo a necessidade de perguntar, estarão as personagens deste filme, e aqui incluo o próprio Chalamet, que há muito plays a part, a sair da anonimidade ou a recuar e a voltar para dentro dela? Pensando bem, eu vejo esta força do ‘eu contra o mundo’ quase como uma forma que eles têm de se proteger, proteger a sua intimidade. O filme tem origem efectivamente na história pessoal de Safdie (que teve um filho entretanto).
Com isto, volto ao que dizes do filme nunca arrancar. Ele sem stock de sapatos a tentar vender o número mais apertado naquela sequência inicial (a primeira hora do filme que se seguirá é, para mim, o filme inteiro; o resto não se segura tão bem em pé)…Podemos retirar muito daí. Se o filme arranca, já tinha arrancado antes, antes de estarmos sentados nos nossos lugares. E com isto, pergunto onde é que tudo começa afinal? Onde é que começa a personagem de Marty? Terá ele sempre sido assim? E onde acaba, se é que acaba? Tenho pensado muito nesse lado do filme. O resto do tempo estive a deambular por aquele mundo construído por Jack Fisk. Diverti-me!
Pensando agora no início do filme, este é, de imediato, encardido, mas encontro beleza nele. Conseguimos cheirar a cidade. Ela é real. Não é um cenário. E penso que, em parte, se deve à presença de Ronald Bronstein como co-escritor. Bronstein é como que a âncora à independência, ao cinema urbano, “roubado” às ruas da cidade e que em muito faz pandã com If I Had Legs, I’d Kick You (Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé, 2025), filme produzido por Bronstein e realizado pela esposa Mary, realizadora de cinema e actriz. Ambos medem o ritmo da vida que passa (tanto Marty como Linda querem abdicar da vida como a conhecem). Ambos filmes são peregrinações. Mas enquanto que If I Had Legs, I’d Kick You nos fala da realidade, e é sintoma do que permanece invisível para muitos (lá, o tecto da casa também vai abaixo de forma literal), penso que Marty Supreme tenta desconstruir a ideia de sonho. Falta-lhe é a ironia para o fazer melhor. Como o seu protagonista, a câmara em Marty Supreme avança antes de ter certeza. It’s so eager! Diria que é essa fome que me faz querer voltar à sala para o reviver.
Há ainda muito pano para mangas aqui! Mas pergunto, antes de mais, o que achaste tu da personagem de Rachel? De todas as conversas que já tive sobre o filme até agora, ela divide mais que o próprio Marty.
Um beijinho,
Su

Obrigado pela resposta. E tão completa!
De facto, tocas em vários pontos que me dizem muito. O problema de habitar o filme mas não a personagem, quer dizer, mas não estarmos necessariamente com a personagem, é algo que me remete para outro filme do co-argumentista e também actor dos Safdie, Ronald Bronstein. Falo de Frownland (2007). Revi-o curiosamente há pouco tempo e, em certa medida, tem tudo aquilo que critiquei na primeira missiva a propósito deste Marty Supreme, ainda que com a nuance de não só a personagem principal ser bastante pouco “empática”, como o mundo à volta dela ou todas as personagens que partilham os mesmos espaços com ela serem ainda piores. É um filme sem saídas, num mundo onde respirar um pouquito – e ser-se humano por breves instantes – é um luxo. É, por isso, e também, uma obra absolutamente implacável.
Uma implacabilidade que não encontro em Marty Supreme: acho que esse auto-engrandecimento (e engrandecimento a que o filme se presta, a meu ver) leva a que sinta menos a personagem e mais a actuação, menos o mundo e mais a construção – o bulir – da acção. Quer dizer, não me senti “lá”, o que não quer dizer que o filme esteja “mal feito” ou que aquela Nova Iorque esteja “mal reconstituída”. Acredito e percebo que tenha tido esse efeito em ti e que a diversão também tenha resultado disso, mas eu senti tudo muito calculado. As próprias “chavetas” narrativas – e elas abundam, aqui como nos outros Safdie – me soaram a “coisa plantada”. É um filme “acted out”, intenso quanto baste, mas no final muito escravo dessa mecânica bem polida. Como se Safdie pegasse no Good Time e dissesse a alguém: faça com que isto vá aos Óscares (refiro isto ciente de que estou a ser redutor e talvez até injusto, mas foi o que senti, de facto).
Acho que talvez parte do problema tenha que ver com a tua última questão: gosto mais da Paltrow do que da Odessa A’zion, ainda que me pareça que a personagem desta última tinha um potencial enorme que fica por explorar, por ela ser, de facto, a perfeita – quase simétrica – versão feminina do Marty Supreme. Uma “jogadora”, uma “gambler” da vida. Alguém que não se vê a meios para atingir os fins. E o meio pode ser a pura e simples mentira.
Aproveito para suavizar algumas coisas que disse no meu primeiro e-mail: não quero nem quis afirmar taxativamente que Marty Supreme é “o Rocky trumpista”, mas o que quero e quis dizer, ou propor para esta nossa crítica epistolar, é a possibilidade deste filme perder a oportunidade de ser exactamente o contrário disso e, por causa disso, se aproximar perigosamente de ser confundido com isso. Passo a exemplificar o que quero dizer: a sequência da disputa final entre Marty e o grande rival nipónico. Senti que a oportunidade estava ali: Josh podia ter transformado a mais do que previsível “desforra” de Marty numa das vitórias mais humilhantes da história do cinema – o tal “anti-Rocky da era Trump” – mas sinceramente o que sinto é o contrário, uma cedência à “vã glória” de ganhar, não importa como nem quando, nem “para quê”. E acho que o seu protagonista é como que levado aos ombros no final e, por isso, tive algum pavor das lágrimas (falsas) de Chalamet no derradeiro plano do filme. Não me comoveu. No “programa” (que também é político) do protagonista e do filme os sentimentos são joguetes – uma sentimentalidade muito permeável a esta nossa era da pós-verdade. E não me venham dizer que este filme “tem-nos no sítio” politicamente. Ou que também não deixa de ser isso: um filme político do lado daqueles que não se vêem a meios; dos loucos e sonhadores que levam tudo à frente, sem pensarem nas consequências. Acho que o filme se deixa seduzir de maneira fácil e algo “ligeira” – reforço: ligeireza política – por toda esta mundivisão. E que antes as personagens e os filmes dos Safdie viviam mais perigosamente e que a mácula moral e psicológica humanizava-os (as), ao passo que aqui tudo, até a diversão, é friamente calculada. O sentido fun antigo, quase poroso, dos Safdie pode confundir-se agora com cinismo e isso não me agrada.
It’s a wrap ou queres ainda dar uma raquetada final em defesa deste controvertido objecto?
Beijinhos,
LM

Luís, guten tag (já a caminho de Berlim) 🙂
Sem dúvida que Marty Supreme é um filme politicamente ligeiro. Era nisso que pensava quando mencionei a sua qualidade pueril. Fez-me pensar em Paul Thomas Anderson e em One Battle After Another (Uma Batalha Após a Outra, 2025). Mais toque no superficial do que profundidade. Como se distancia do veterano? Em Marty Supreme tudo gira em torno de uma só nota que se repete ao longo do filme, e à qual aludi no início da nossa conversa, um lugar muito específico no tempo: ser judeu no pós-guerra na América. Penso que não estou a reduzir o filme ao dizer que todo ele é sobre a manifestação da vitória, em vez de ser sobre a vitória. Uncut Gems é sobre vencer ou não. Este é sobre o que pode (ou não) levar à vitória. Uma predisposição, uma forma de viver o mundo. O que está em causa não é o mesmo também. Não se trata de vida e ou morte física. Morte da alma? Sim. Especialmente porque o caso de Marty é especial. Ele não é um trapaceiro sem talento. Marty é um atleta dotado, o que eleva o filme. Ele só quer jogar ténis de mesa, este novo desporto que poderá ser o que o retirará daquele labirinto sufocante feito de prédios estreitos e compridos.
Em relação a isto, tenho que dizer que este é um dos filmes mais judeus que já vi. A começar pelas personagens e pelos actores que as interpretam (todos judeus, incluindo Chalamet), há tantas referências à Torá, à história de Sansão e Dalila, etc. Não é por nada que Marty leva um pedaço da pirâmide para oferecer à mãe, dizendo algo como ‘isto é nosso’. Está tudo lá. Só precisa de ser interpretado. Em relação a isso e estarei provavelmente a repetir-me (se sim, perdoa-me), eu li o filme enquanto este movimento eléctrico, como um cabo de fibra, o bombear da luta, algo tido como Americano, mas que tem a sua origem antes de mais na cultura judaica através de uma combinação de muita resiliência e uma recusa em adoptar uma mentalidade de vítima, algo que vejo mais na minha cultura, honestamente – esta coisa de manifestar a vitória não existe de todo; também não sei se as noções de vitória e derrota estão presentes, a preocupação continua a ser viver a domesticidade dos dias.
Mais uma vez digo, eu conheço estas pessoas. E não as vejo, nem vi no filme, enquanto “gamblers”, no sentido mais pejorativo da palavra. São pessoas desesperadas que se recusam a desistir de uma ideia qualquer de subir àquela escada que os levará a um lugar diferente, longe do que reconhecem. Foi assim que vi a Rachel de Odessa A’zion. Em comparação, fiquei com pena da actriz de Hollywood, a prisioneira do filme, que vê em Marty uma fome que ela já teve e que perdeu. Ela também luta consigo mesma. Não vejo pior fim para uma mulher como ela acabar casada com um homem vampírico daqueles, mas também a compreendo, claro. Não tem necessariamente a ver só com dinheiro, mas com tudo aquilo que o dinheiro traz consigo.
Isso é outra coisa que gostei em Marty Supreme. A luta acontece só com ele mesmo. As outras pessoas que com ele se cruzam, e nomeadamente, o jogador nipónico, estão só ali enquanto obstáculos. O que importa é Marty, como Marty se mantém motivado (como aceita a humilhação), e tudo existe em função do desenrolar da história dele. Mas o filme peca por isso mesmo também. Dizes que se seduz por algo que é fácil e frágil, politicamente. Não sei se se seduz. Acho que Josh nunca chegou a pensar nisso sequer. Não é um filme intelectualizado pelos seus escritores. Transporta uma só ideia! O simples facto de que está na corrida para os Óscares diz muito dos tempos em que vivemos. Nunca pensei que fosse possível. Não é um filme para isso. A interpretação de Chalamet até acredito que lá fosse parar, mas o filme? Não. E o que é que isso nos diz? As pessoas têm-se deitado na apatia de tal forma que basta uma faísca de ambição para a relação com o filme se tornar uma fonte de calor.
Outra coisa que não posso não mencionar antes de ir. Nunca será ok brincar com o Holocausto. “I’m the ultimate product of Hitler’s defeat”, diz ele. E não fica por aí. Diz que fará com o outro jogador o que Auschwitz não conseguiu. Há limites e isto não tinha que estar no filme. Ainda assim, não posso concordar com o que leio online de o retrato de um judeu Americano tão ambicioso e implacável como ele ser antissemita. É uma representação real da experiência judaica americana, em todas as suas contradições. É, de facto, um filme que, a meu ver, não tem como desiludir a esse nível.
Quanto a tudo o resto, penso que nada melhor para concluir do que dizer que Marty Reisman, o homem em quem Josh e Ronald se basearam, nunca parou de jogar pingue-pongue. Foi um campeão do desporto, vencendo 22 títulos entre 1946 e 2022, e competiu durante mais de seis décadas. Tenho para mim que Marty Mauser não irá parar. Espero que Josh também não parará.
Obrigada por este ténis, Luís. É tão bom pensar os filmes em diálogo.
P.S. Quanto a Frownland, não o tenho presente na cabeça, mas sei exactamente do que falas. Do pouco que me lembro do filme, é efectivamente um filme onde é difícil respirar. If I Had Legs, I’d Kick You vem do mesmo lugar, mas é um filme mais poderoso, empático.
Um abraço,
Su

Não resisto a responder ao epíteto “um dos filmes mais judeus que vi”, respondendo: e não foi realizado pelo Darren Aronofsky! 😉
Pronto, resposta dada. Bola e raquetas recolhidas. Fim do jogo! E quem ganhou foi…
Komm gut an!
LM
