entre lo vivido y lo contado,
entre la historia y la memoria.
Jesús J. Alonso Carballés
Os objectos não morrem.
Até certo ponto, o seu percurso neste mundo físico é paralelo
à trajectória dos seres humanos a quem pertencem.
Yiyun Li
It is to be shaped, however indirectly, by traumatic fragments
of events that still defy narrative reconstruction and exceed comprehension.
Marianne Hirsch
Tudo começa pela pergunta. Era isso que fazia naquela manhã no atelier da artista visual, performer e agora também realizadora de cinema Ana Pérez-Quiroga. E a resposta estaria ali, algures naquele lugar, talvez numa das estantes, com tantos objectos organizados por caixas devidamente identificadas. Acima de uma caixa de madeira com a etiqueta “Así me gusta” e outra “No te vayas!”, lia-se “Presente presente presente”. Percebi muito cedo que ali dentro estaria o que precisava de saber. Entre fazer chá e ligar o aquecimento, Ana começa por me explicar que tudo o que se encontra naquele espaço (e que iniciou, entretanto, uma relação comigo assim que entrei) foi concebido e desenhado por ela. O sofá, os candeeiros, os bancos. Até um vaso grande foi por ela decorado. “Aquele grande Guernica, lembras-te? Foi feito aqui. Estão ali meses de trabalho.” É um espaço farto em materiais (neles vivem muitas horas de atenção, tempo e generosidade), mas esteticamente limpo. “Não gosto de ambientes cheios de ruído”, refere duas vezes ao longo da manhã.

Como é que se chega ao cinema então, a partir de um mundo tão háptico? “Porque me aproximo. Eu venho da escola da obsessão visual. Os enquadramentos são ao milímetro. E tive a sorte de ter o Paulo (Menezes) comigo. O Paulo é meticuloso. Éramos os dois obsessivos a encontrar os melhores enquadramentos.” Com o sol a aquecer-nos naquela fria manhã, abrimo-nos juntas à corrente da história pessoal da mãe de Ana, que eventualmente, com a idade, lhe concedeu que usasse e investigasse o passado através dos objectos primeiro, e só muito depois com a câmara à frente, para eternizar um testemunho sobre como o passado tem o seu efeito mais duradouro no presente. Esta é uma história de pertença colectiva que caminha, corajosamente, em direcção ao desconhecido.
Angelita Perez é o seu nome. Afastada da família com apenas quatro anos, Angelita e a sua irmã foram duas de 2895 crianças que rumaram com professores para a URSS em finais da década de 1930 para fugir às atrocidades da Guerra Civil Espanhola. Lá, Angelita viveu num colégio interno russo até concluir os estudos de medicina e regressar ao país de origem aproximadamente duas décadas depois. Pelo caminho, assistiu-se à invasão alemã da URSS durante a Segunda Guerra Mundial. Angelita passou demasiados anos sem saber que idade tinha durante este período, descobrindo só depois de acabar o 10.º ano de escolaridade a data exacta de nascimento. “Espanha ainda não sabe como lidar com isto tudo”, diz-me Ana com a mesma eloquência que percorre o filme, narrado por ela, e ao qual volto de repente, especificamente àquele momento inicial com o lápis de cor vermelho afiado a passar pela superfície irregular de uma parede onde se lê “mamã”. Com as aparas do lápis ao seu lado no chão, Ana preenche de vermelho-sangue os espaços em branco que faltam à palavra que usa para reconhecer a umbilicalidade entre a relação de uma mãe e da sua filha.
¿De qué casa eres? é um filme-receptáculo. Dentro dele, cabe um mundo inteiro de coisas. Muitas delas ainda por definir. É cinema processoal, acção e o que dela resulta. A sua linguagem é paradoxal. É um contar contido e preciso do mundo real ficcionado. Mas depois escapa a qualquer categorização. Não há como o abarcar. É muito livre. Tudo o que no mundo marca presença, Ana re-atribui significado.
“Tudo isto começou em 2017”, diz, ano em que Angelita deixou que a filha começasse a contar a sua história, um objecto de cada vez. Com os primeiros objectos, ganhou o criatório na cidade do Porto. “Depois fui à União Soviética, à Rússia.” Quando regressa, a sua exposição fez-se de cinco instalações e uma performance em seis espaços pela cidade. Há muito que a artista parte para a investigação do quotidiano a partir dos seus objectos e da relação que desenvolvem – importantes marcadores de tempo e espaço. Ao acto dessa materialização artística poderá dar-se o mapeamento da história pessoal daquele a quem pertencem, como uma luz que se acende sobre a relação de paralelismo entre tudo o que existiu numa outra altura, numa outra vida, num outro país, trazido de volta para o presente, no qual ainda se pode tocar, cheirar, sentir; em suma, como quem reergue um edifício há muito esquecido.

Bastam breves momentos para fazer a leitura de que Ana se move por energias; é uma pessoa profundamente sensorial. Tudo o que no mundo marca presença – uns simples têxteis rasgados em cima da sua mesa que me diz, antes de eu sair do atelier ao fim daquela manhã, que servirão, em breve, um outro propósito – “nada se estraga”, Ana re-atribui significado. Enquanto abrigo para a memória e identidade, os objectos ancoram-nos às nossas relações socioculturais, erguendo a ponte com o passado como forma de definir o presente, e abrir mais rapidamente a possibilidade de futuro. Aquando da estreia deste primeiro filme de Ana, ¿De qué casa eres? (2024), no festival de cinema IndieLisboa há um ano, o programador Miguel Valverde tinha escrito no seu texto curatorial como este era “um filme sobre o tempo futuro”. Quando isso surge em conversa, falávamos sobre a obsessão comum ao artista, que não consegue evitar procurar ter controlo sobre a sua criação. “Isso também é uma sabedoria. Saber quando está feito”, afirma com um sorriso, continuando que esta não é uma relação de poder necessariamente. “Eu tenho de saber que aquilo que estou a fazer é mesmo aquilo que pensei. Independentemente do que possa acontecer depois. Eu tenho de me colocar na posição de aceitar ou não. Quero incorporar ou não. Eu decido sempre. O tempo, o frame.”
Relembro-lhe que este seu primeiro filme é sobre a abertura ao espectador, ao encontro com ele, no sentido em que há um pedido para nos juntarmos a esta investigação. O pessoal e o íntimo são esferas partilhadas e atiradas para o abismo, para quem estará, anónimo, do outro lado, pronto a querer fazer parte dessa procura. Pertence a quem quiser pegar nele. E parte muito da noção de democracia. De podermos falar sobre estas coisas livremente. Há que haver interrogação no presente para falarmos do passado e forjarmos o futuro. Dirias que é um filme sobre o futuro então? “Eu sou uma pessoa que vive para o futuro, sabes? Eu estou sempre presente para o futuro. Nunca estou no passado. O passado interessa-me, mas é em projeção. Como comenta. Mas eu estou a trabalhar para o futuro.”, palavras estas que ecoam mais alto quando regresso ao filme outra vez e sinto que preciso que continue, que há mais para contar. Mas ali nos deixa Ana, em frente ao mar, com o nome da mãe escrito desta vez num pedaço de papel e lançado dentro de uma garrafa de vidro, símbolo eterno para outro o descobrir e uma vida vir a mudar.


¿De qué casa eres? é um filme-receptáculo. Dentro dele, cabe um mundo inteiro de coisas. Muitas delas ainda por definir. É cinema processoal, acção e o que dela resulta; tudo ao mesmo tempo. A sua linguagem é paradoxal. É um contar contido e preciso do mundo real ficcionado. Mas depois escapa a qualquer categorização. Não há como o abarcar. É muito livre. Documenta e regista, mas não é um documentário. Conta uma história, mas não é uma narrativa. Tipificá-lo como ‘filme artístico’ é nada mais do que dizer que esbate fronteiras. Não se realiza nele também, como em muitos outros filmes, o típico gesto acumulativo de itens e transições que, no final, ecoam emocionalmente no que continua a ser a vida de alguém. São antes separadas tentativas de reutilizar esse passado, trazendo-o até ao espectador, quem abraça logo de imediato. Há testemunhos orais da mãe, fotografias e cartas e tantos outros objectos, vídeo de arquivo, performance acompanhada de projecção de vídeo, a encenação a dar a mão à recordação, e a semiótica directa das várias imagens-espelho que também são caixas e que percorrem o filme (o vidro sobre a flor é o exemplo mais imediato de como o filme se vai definindo, embora também tenha ficado comigo o desenho de umas costuras coloridas num pedaço de tecido, várias linhas desaguantes no mesmo ponto.)
Dois importantes momentos de reencenação. A fotografia da mãe a atirar-se da prancha de uma piscina com um biquini em 1954/1955. Ana veste-o no tempo presente, o mesmo, e empoleira-se na prancha alta de uma piscina, na mesma posição que a mãe mantinha naquela fotografia. Num alguidar de zinco, dois peixes recortados a partir de tecido. Ana tinha acabado de expressar uma memória de infância à mãe, ela e o irmão a tomar banho numa banheira daquelas. Com eles, peixes vivos. Ao que Angelita lhe responde: “Foste tu que inventaste.” Os pormenores da narrativa confundem-se e contradizem-se. Como saber o que é verdade? Há tanta ficção que já teve o seu papel em determinar quem somos.


Ana não esconde a importância da fantasia na composição das nossas narrativas. “De forma mais ou menos inconsciente daquilo que projectamos para nós próprios, a realidade é múltipla nem que seja pelo ponto de vista. Tu estás sentada aí e tens um ponto de vista completamente diferente do meu que estou deste lado. Essa realidade já incorpora um lado da fantasia. Para além disso, o nosso pensamento e o nosso sistema cognitivo também é diferente. Mesmo que estivéssemos as duas no mesmo sítio, a compreensão da realidade, o que nós achamos que é a realidade, também tem de ser obviamente diferente. A própria questão da memória é aquilo que preservamos para ser reciclada ou melhorada ou para ser reinterpretada em movimento. As sinapses criam construções todos os dias.”, diz-me. Como é que será que o cinema funciona segundo isto? Sendo um filme um objecto finito, que se conclui, e que vive a partir dessa finalização.
A verticalidade vem de um desejo de entender o que, caso contrário, não tem como ser perscrutado. ¿De qué casa eres? é também, e sobretudo, sobre Ana. Porque nele se faz a hagiografia da casa que a sustém (corpo e alma – sintoma e resultado), que não tem enquanto motor a dor da perda (Angelita continua entre nós).
“Chego ao cinema numa altura fabulosa. Interessa-me muito a expansão de categorias. Como a Agnès Varda, ela é tão canónica, mas também uma rebelde. Criou uma disfunção e ainda bem, porque a partir daí as pessoas já se permitiram fazer outras coisas e eu quero-me permitir a fazer outras coisas que não sejam um documentário canónico.” Não há cabeças falantes em ¿De qué casa eres?. Não é um filme repositório. Também não é só montra metodológica. A verticalidade do filme (de notar, este desencadeia-se a partir do sentimento anti-guerra de um Guernica (1937), de Pablo Picasso, feito em tecido) denota-se em particular no puzzle criado entre um desejo de captar a imagem da realidade – o rio em Sezures, por exemplo – e mostrar ao seu lado a projecção dessa imagem num outro formato (Super 8). Tal como a pintura a óleo de Picasso renasce em tecido. Passa por uma transformação. É reciclado, reinterpretado. Tudo é uma tentativa de estar sensorialmente mais perto do corpo humano, de ganhar a capacidade para a presença. São camadas que se vão descascando sozinhas só para se cobrirem outra vez. Noutras palavras, a ficção tem uma relação de aproximação à realidade mais forte do que a não-ficção.
No final da nossa conversa, concluirá que, na verdade, o foco do seu interesse nem é tanto o cinema, mas antes a sua potencialidade. Por isso mesmo é que o considera uma “arte total”. “Quero continuar a fazer objetos que posso utilizar no filme. Este incorpora uma dimensão de condensação que me interessa. Como é que podes abrir tantas portas, como é que podes dar tantas pistas. Estou a tentar fazer um cruzamento entre o cinema e as artes visuais. Juntar estes dois mundos.” Referencia entretanto o documentarista chileno Patricio Guzmán e diz querer fazer um filme sobre o amor. Nesta altura já eu me tinha esquecido de dar um rumo à nossa conversa. Era esse o meu papel ali, mas Ana tinha deixado de ser uma artista plástica que tinha feito um filme que eu procurava desvendar para ser uma pessoa que eu estava a conhecer.

O pequeno grande filme dela não é tão loquaz. Permanece sério (ainda que sempre doce), em partes relembra Catarina Vasconcelos e os seus tableaux vivants (A Metamorfose dos Pássaros, 2020), agarrado em forma e motivação à âncora pessoal que indica a vontade de fazer um filme. “Por enquanto ainda estou emocionada. Estou super feliz com a minha vida, com a família maravilhosa que tenho.” A verticalidade vem, como no caso de Vasconcelos, de um desejo de entender o que, caso contrário, não tem como ser perscrutado. ¿De qué casa eres? é também, e sobretudo, sobre Ana. Porque nele se faz a hagiografia da casa que a sustém (corpo e alma – sintoma e resultado), que não tem enquanto motor a dor da perda (Angelita continua entre nós), mas antes o conceito da pós-memória, trazido até nós por Marianne Hirsch, em 1959.
Uma estruturação visual que, abrindo as suas várias camadas ciclicamente, não tem como não se projectar no outro. No final, as mesmas pontas soltas unem-se.
“O meu doutoramento é a minha casa como instalação artística. Precisamente os objectos dentro da casa. Eu cataloguei todos os objectos. É um website. A minha tese é que nós performamos a vida através dos objectos. Quanto eleges um objecto dentro do mundo dos objectos, seja lá qual ele for, este já está a falar por ti. Há uma meta-linguagem que é, no fundo, um auto-retrato. Em cima disso, é sobre este tema que eu trato a pós-memória. ” Pós-memória, o trauma por associação nos descendentes. “Ou às vezes que em nada estão relacionados. É uma questão empática!”, explica. Ao longo de 72 minutos, a ligação ao presente de Ana é mediado, tal como Hirsch descobria há tanto tempo, pelo “investimento imaginativo, projecção e criação”. Ocorre uma transmissão afectiva sem experiência directa, a memória em segunda mão. Angelita, nas vinhas pelas quais é responsável, uma mulher que vive em Portugal mas nunca é portuguesa com o seu sotaque espanhol a determinar uma distância. Também não é espanhola e tampouco russa. Ana sente o desenraizamento como se aquele deslocar das origens lhe tivesse acontecido a ela. Mas está Ana à procura de um abrigo para a mãe? E será que, através dele, encontra o dela?
A resposta a estas questões marca o ponto decisivo na nossa conversa, a partir do qual já eu sabia, na altura, que este texto se anunciava. Ana explica-me como a questão poderá ser pertinente para nós, mas como ao mesmo tempo nunca o seria para a mãe dela. “A minha mãe sente que pertence, é profundamente portuguesa. Acho que este terceiro país foi um país que a salvou. A tua pergunta nem lhe faria sentido, porque eu penso que ela também tem um universo muito mágico.” O filme passa por duas vindimas. Era importante para Ana que a passagem do tempo fosse notória. Angelita foi entrevistada duas vezes também, em momentos distintos. “O tempo cronológico de acontecimentos é um eixo essencial. A ideia de voltar a cultivar as coisas e a apanhá-las…há aqui um processo cíclico da natureza.” Assim é, em poucas palavras, ¿De qué casa eres?. Uma estruturação visual que, abrindo as suas várias camadas ciclicamente, não tem como não se projectar no outro. No final, as mesmas pontas soltas unem-se. Muito é orquestração, mas muito é também fruto de deixar a câmara rodar e observar o mundo a acontecer. Ana tinha um guião de perguntas para a mãe “mas eu estava tão comovida que me esquecia de tantas coisas. A minha mãe falou o que lhe deu na gana.”


No momento mais incandescente do filme, António, o filho de Angelita e irmão de Ana, liga à mãe. O seu relógio toca e esta atende, sacudindo rapidamente a chamada dizendo que Ana lhe está a tirar uma fotografia. “Estamos no cinema.”, conclui. O espectador, seja ele oriundo de que mundo, não conseguirá evitar um sorriso de cruzeta. Ana quer viver no mundo onde é possível viver-se dentro das coisas. Falava eu antes da primeira longa-metragem de Catarina Vasconcelos. Ambas permanecem afectadas pelo que as rodeia. Como enquadrar o que dificilmente caberá no frame? Tentam e fazem-no com muita destreza. Tanto pulso. Mas enquanto Vasconcelos permanece agarrada às superfícies, literárias e estéticas, Ana deixa o seu pequeno grande filme voar, dando-lhe uma segunda vida. Como me dizia no início da inspiradora conversa, “é uma sabedoria, saber quando está feito.”
Ainda sentada no mesmo sofá, com o sol a aquecer-me a nuca, anotações em cima das minhas pernas, tiramos uma fotografia para comemorar este encontro, esta abertura da intimidade de cada uma na vida da outra (a diferença sendo que eu não cheguei a filmar a minha avó e não tenho como reconstruir a narrativa; tenho que me ficar pelas pontas soltas). Ao transcrever mais tarde as suas palavras, ouço que perguntei antes da foto ser tirada se este filme se trata de mais um objecto na casa que tem vindo a catalogar ao longo dos anos, ou se marcará antes o começo de uma outra. “Este é um começo de uma nova casa, definitivamente”. Da evocação à partilha, a casa é o que dela fazemos.
★★★☆☆
