
A reconhecermos o nome de John Irvin (1940–2026), discretamente falecido a 11 de agosto de 2026 — a morte só se tornou pública quase duas semanas depois —, será graças à mítica e ambiciosa série Tinker Tailor Soldier Spy (A Toupeira, 1979), baseada no romance homónimo de John le Carré. A série — contida, lenta, labiríntica — apresenta Alec Guinness num dos seus melhores papéis, o de George Smiley, numa busca pela identificação de um agente infiltrado nos serviços secretos britânicos (the Circus) durante a Guerra Fria. A produção da BBC teve mesmo direito a um episódio passado em Lisboa, no período da pós-Revolução, quando a capital portuguesa ainda podia ser palco de “intriga internacional” — como o fora noutros tempos, durante a II Guerra Mundial. Os múltiplos grafitis da UJC e de apoio à KGB nas ruas de Lisboa fazem da cidade um cenário particularmente apropriado (o infiltrado, sabemo-lo, seria soviético).

Esta é a mais evidente, mas não a única ligação de John Irvin a Portugal. Irvin fora estudante da London School of Film Technique no final dos anos de 1950, entre 1959 e 1960, na mesma altura em que Fernando Lopes frequentava o mesmo curso de cinema na capital inglesa. Ambos terão estagiado nas filmagens conturbadas de The Savage Innocents (Sombras Brancas, 1960) de Nicholas Ray, nos estúdios de Elstree. No mesmo ano, Lopes e Irvin voltariam a cruzar-se num filme “londrino”, The Lonely Ones (1960), assinado por Lopes e com Irvin como assistente de realização. O filme encontra-se, tanto quanto se sabe, perdido; numa altura que pouca sensibilidade e valorização havia na preservação de obras estudantis (Streets of Early Sorrow [Caminhos Para a Angústia, 1963], de Manuel Faria de Almeida e Graham Parker, filme estudantil realizado na mesma London School of Film Technique, constitui uma excepção à regra, uma vez que ganhou prémios internacionais e foi exibido em film societies no Reino Unido).
O percurso de Irvin não passou despercebido, e pouco depois de terminar o curso conseguiu uma bolsa do British Film Institute’s Experimental Film Fund – que operou entre 1952 e 1966, tendo apoiado muitos dos realizadores que viriam a tornar-se referências dentro do Free Cinema (como Tony Richardson e Karel Reisz). Foi com esse apoio que Irvin realizou Gala Day (1963), uma curta-metragem também sob o signo do Free Cinema e do cinema directo, passada numa comunidade mineira de Durham. O filme abriu-lhe as portas não só para o cinema documental, mas também para a indústria televisiva, onde viria a realizar, para muitos, aquela que é considerada a sua obra-prima (Tinker Tailor Soldier Spy). Fala-se muito, no cinema português, da “geração da TV” — a expressão é de Luís de Pina — para designar um grupo de realizadores que, a partir dos anos 60, encontrou na televisão um espaço decisivo de formação e de trabalho. Curiosamente, muitos dos nomes associados a essa geração tinham feito a sua formação no Reino Unido, cujas escolas e contextos profissionais seriam, aparentemente, mais permeáveis a essa relação entre os dois meios. Também o percurso de Irvin (e de Graham Parker, com quem Faria de Almeida trabalhou) mostram isso mesmo.
Irvin voltaria à vida londrina — depois do perdido The Lonely Ones — em Carousella (1966), um documentário sobre a vida de stripteasers filmado em pleno Soho durante os swinging sixties e ainda com alguns resquícios do Free Cinema, que por esta altura já fazia uma década. Mas a impressão deste movimento no realizador foi duradoura; e Irvin terá tido contacto com esse cinema precisamente na mesma altura em que realizadores como Fernando Lopes e José de Sá Caetano viviam e estudavam na capital inglesa. O manifesto do Free Cinema, como se sabe, deixou também marcas em Fernando Lopes, que se orgulhava de o ter “introduzido” em Portugal, sem, no entanto, conseguir muitos adeptos em “casa”. Nos anos 60, nada era mais unfashionable do que gostar de cinema inglês, e os cinéfilos portugueses estavam quase exclusivamente divididos entre a Nouvelle Vague e (ainda) o Neorrealismo.
Como muitos — Lopes pós-Belarmino (1964) incluído —, Irvin viria a afastar-se do Free Cinema, mas não necessariamente do cinema documental, passando a maior parte dos anos 70 envolvido em trabalhos para televisão. Foi apenas em 1978 que alcançou maior notoriedade com Tinker Tailor Soldier Spy, que revelou, acima de tudo, uma espantosa direcção de actores (basta pensar que, por essa mesma altura, Alec Guinness era Smiley e, simultaneamente, desempenhava o papel de Obi-Wan Kenobi na saga Star Wars). Dois anos depois da série, Irvin já estava nos Estados Unidos. “Quis sempre ir para Hollywood?”, pergunta-se a si mesmo numa entrevista. “A resposta é um sim retumbante. Para a minha geração, Hollywood era a Meca do cinema. Os filmes de Hollywood foram uma grande parte da minha infância e inspiraram-me a tornar-me realizador”. Na London School of Film Technique mostravam “a Nouvelle Vague e os italianos, mas todos se mediam por Hollywood”.
Foi em action movies, e não no registo de realização de Tinker Tailor Soldier Spy, que Irvin construiu um nome em Hollywood, onde ainda hoje é reconhecido por filmes como Raw Deal (O Massacre, 1986), com Arnold Schwarzenegger, Hamburger Hill (A Colina dos Heróis, 1987) e The Dogs of War (Cães de Guerra, 1980).

Dissemos que Irvin tirou de Guinness um dos seus melhores papéis — não seria difícil, poderá argumentar-se. Porém, o mesmo pode ser dito de Christopher Walken em The Dogs of War, um filme de guerra repleto de impressionantes explosões, descolagens, espingardas fictícias — uma delas inspirada numa Manville gun, não muito diferente da que veremos em Terminator 2: Judgment Day (Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento, 1991) de James Cameron — filmadas até ao enjoo. Mas tudo isso coexiste com uma crítica feroz à corrupção na guerra, ao mundo sujo dos mercenários implacáveis que, pasme-se, revelam menos desvios de carácter do que aqueles que os pagam. E coexiste, sobretudo, com o par de olhos azuis mais triste e desapontado do mundo: o de Christopher Walken. Por esse olhar, já valeu a pena.
Filmes como estes fizeram de Irvin uma espécie de alpha male type filmmaker, descrição com a qual não se identificava completamente. As suas origens estavam num cinema “livre”, na sensibilidade subtil e por vezes romântica do documentarismo inglês e nos dramas “psicológicos” de que Tinker Tailor Soldier Spy é exemplo. Numa tentativa de experimentar todos os «géneros», Irvin realizou o estranhíssimo — e, diga-se, pouco conseguido — Ghost Story (Fantasma do Passado, 1981), um filme de “horror” sobrenatural com um elenco tão luxuoso quanto bizarro: Fred Astaire, Melvyn Douglas e Douglas Fairbanks Jr., todos já em idade geriátrica. Irvin poderá não ser um alpha male type director, mas é um cineasta de homens: homens que se reúnem em torno de mesas, discutem, conspiram, tomam decisões, põem em exercício a arte anglo-saxónica do double-guessing. Em Tinker Tailor Soldier Spy, são várias as reuniões dos agentes do Circus; em Ghost Story, um grupo de quatro idosos reúne-se para contar histórias de terror, entre copos de Porto ou de xerez; e mesmo nos filmes de guerra, como o The Dogs of War, esse elemento de reunião masculina em torno de uma mesa está presente (embora os licores sejam substituídos pela cerveja). As mulheres, por sua vez — quase sempre inglesas, mesmo nos filmes americanos —, parecem pertencer a uma linhagem que traz à mente um verso de Emily Dickinson: “tell all the truth but tell it slant”. São inglesas.

Experimentalismo, documentário, drama, acção, terror — mas também comédia e romance. Foi num desses “géneros” que Irvin trabalhou com Harold Pinter, em Turtle Diary (Ele, Ela e a Tartaruga, 1985), um filme invisível, nunca lançado em DVD (apesar de Glenda Jackson, apesar de Ben Kingsley, apesar de Pinter…), um filme engavetado que “ainda não vimos e queremos ver”.
Irvin morreu aos 86 anos, vítima de cancro. Trabalhou com Harold Pinter, Arnold Schwarzenegger, Fred Astaire, Fernando Lopes. No “velho continente”, merece uma descoberta. Long overdue.
Nas plataformas de streaming em Portugal, alguns dos seus filmes – como Raw Deal, The Dogs of War ou Ghost Story – vão aparecendo e desaparecendo dos catálogos, numa lógica um tanto ou quanto incompreensível. Presentemente, Tinker Tailor Soldier Spy e Ghost Story podem ser vistos na Amazon Prime.
