Depois de anos a construir uma nova fase da sua carreira enquanto herói de acção, Liam Neeson decidiu brincar consigo próprio. O pretexto foi uma “sequela de legado”, tendência muito em voga na Hollywood contemporânea, de The Naked Gun (Aonde é Que Pára a Polícia, 1988). Sem o envolvimento dos autores originais (o trio ZAZ, composto pelos irmãos David e Jerry Zucker e Jim Abrahams – falecido no ano passado) e sem a estrela da trilogia original destes spoofs (Leslie Nielsen), este novo filme apontou para o futuro sem esquecer o passado, com Neeson a ser o filho da personagem de Nielsen – a semelhança entre os apelidos será por aqui mencionada mais à frente.
Será que fez rir os dois walshianos que o viram? Talvez… mas entre algumas gargalhadas, ficaram mais coisas para pensar no fim do visionamento. A troca de ideias entre Ricardo Vieira Lisboa e Rui Alves de Sousa passou pela(s) memórias dos filmes dos ZAZ (e não só desta saga com o polícia Frank Drebin), e o que é isto da nostalgia por um certo tempo em que a comédia tinha um espaço considerável nos cinemas – e nas receitas de bilheteira.

Viva, Ricardo. Como estás?
Escrevo-te sabendo como nutres um apreço especial por Liam Neeson. Depois de uma série de filmes que lhe deu uma segunda vida no ecrã como “action hero”, chegou agora o momento do actor brincar com essa persona através de The Naked Gun. Calculo que estejas ansioso para ver este regresso da saga com um sentido de humor irresistivelmente estúpido, e gostava de trocar contigo alguns cromos sobre este novo tomo. Deixo-te para já umas ideias que me assaltaram o espírito depois do visionamento.
Uma parte significativa da campanha promocional deste novo The Naked Gun foi construída a partir de uma simples constatação: a ausência de comédias nas salas de cinema norte-americanas. É estranho que o género cinematográfico que mais dependa da reacção do público (de preferência numa sala cheia) tenha ficado cada vez mais reduzido à experiência caseira. Sublinho o aspecto geográfico porque me parece que o mesmo não acontece no velho continente, com muitas comédias a povoarem as salas de vários países e algumas, até, a terem sucesso fora do seu território de origem – basta só dizer que por cá já estamos na época em que aparece “a comédia francesa deste Verão” e outras que tais que prometem sempre “barrigadas de riso” ou, até, que vamos “rir à grande e à francesa”.
Mas um dos spots criados para promover The Naked Gun é mais direccionado a essa ideia de escassez da comédia: parece que estamos a ver um daqueles anúncios institucionais a favor de uma grande causa, com Neeson a falar da fraca oferta de comédias cinematográficas com uma gravidade semelhante à de quem quer alertar para o aquecimento global ou o flagelo da droga.
É uma ideia engraçada. Mais até do que a maioria das piadas que são disparadas em 85 minutos de filme. Mas o que se terá passado para a comédia deixar de reinar em Hollywood, pelo menos nas salas? (Por estes dias estreou-se na Netflix a sequela do Happy Gilmore (O Maluco do Golfe, 1996) com Adam Sandler e li há pouco que se tornou rapidamente num dos filmes mais vistos da plataforma.) Porque preferem os americanos rir sozinhos em casa (no pun intended)? Entre todas as comédias que amo e que descobri na televisão, todas ficaram melhores na revisão em sala.
E já agora, um aparte: que raio de fenómeno é este das comédias francesas burras e estereotipadas, invariavelmente protagonizadas pelo Christian Clavier, que continuam a chegar cá a um ritmo alucinante – e que muito desonram o património cómico do cinema desse país?
A palavra “património” leva-me a outra ideia que queria partilhar contigo nesta primeira carta. Este novo The Naked Gun não é uma vulgar sequela, nem sequer um reboot. É uma legacy sequel, um dos conceitos mais estranhos inventados por Hollywood, que vê nas suas propriedades intelectuais uma importância digna de um daqueles monumentos que ganharam o selo da UNESCO.
Não deixa de ser um sintoma de uma maneira de olhar para o passado fílmico com respeitinho e cautela, e já com provas dadas de que funciona financeiramente (a sequela de Beetlejuice [Os Fantasmas Divertem-se, 1988] foi um êxito tremendo nos EUA, e li ontem que um quarto Gremlins pode vir mesmo a acontecer, etc.). Os anos 80 já foram há 40 anos, as crianças desse tempo estão na casa dos 50 e as suas saudades da infância ou de uma certa dinâmica do cinema, bem como o conteúdo das suas carteiras, tem motivado estas jogadas pouco criativas da parte dos estúdios. Por vezes com resultados brilhantes (o regresso de Tim Burton com Beetlejuice Beetlejuice [2024] é um deles, sendo o único filme que vi e revi no cinema num espaço de dois dias entre a primeira e a segunda sessão), e noutros menos (como é o caso deste The Naked Gun, mas gostava de saber a tua opinião como ‘Neesonista’ com provas dadas para essa reputação). Mas é estranho isto de uma legacy sequel, principalmente por estarmos a falar de uns filmes muito divertidos e que não se levam a sério, como se fosse digno “respeitar” o requinte do disparate de (pelo menos) o primeiro The Naked Gun e de outros filmes do trio ZAZ, junção de Jim Abrahams e dos irmãos Zucker (Top Secret! [Ultra Secreto, 1984] é o meu favorito).
Não deixa de ser curioso como, em 2025, a aposta numa comédia por um grande estúdio de Hollywood só se concretize assim, com este recuperar de uma ideia antiga que estava assente numa pessoa: o actor-protagonista Leslie Nielsen. Neeson é, neste quatro The Naked Gun, o filho do original Frank Derbin, querendo estar sempre à altura do pai, mas ao mesmo tempo distanciando-se com as suas próprias ideias e originalidade. É o que o próprio aponta no filme, num de vários momentos de quebra de quarta parede em que nos obrigam a confrontar com o tal “legado”.
Espero continuar a conversa, mas para já agradeço a este novo The Naked Gun a vontade que me deu de voltar aos filmes dos ZAZ – e que bom seria revê-los no cinema, para perceber como tudo funcionaria. Também fiquei com saudades de Police Squad, a série que deu origem a The Naked Gun. Mas já me estiquei! Fico a aguardar as tuas ideias.
Um abraço,
Rui

Alô Rui, por aqui tudo bem!
Desculpa a demora na resposta, mas como percebeste, este e-mail andou perdido. Foi parar a uma antiga conta que já não uso há que tempos. Este acidente tem qualquer coisa de significativo: tentar estabelecer um diálogo com uma linha de comunicação velha e abandonada e, simplesmente, não obter resposta. Esse é um dos aspectos mais desarmantes deste novo The Naked Gun, tentar conversar com os mortos. Começo, então, justamente pela última ideia da tua mensagem, a do legacy sequel e, em particular, da cena em que Liam Neeson se ajoelha diante da fotografia de Leslie Nielson e lhe dedica esta obra e o gesto de homenagem. Como disseste, esse momento tem a força de um manifesto, “ser exatamente como tu” mas, ao mesmo tempo, “ser totalmente original e diferente”. É, como dizes, uma “metodologia” para uma série de “reaproveitamentos” que tanto têm caracterizado as decisões dos estúdios de Hollywood contemporâneos, pejados que estamos de sequelas, prequelas, remakes, reboots, sequelas de reboots, prequelas de remakes e todas as outras possíveis combinações. O que este The Naked Gun tem de especial é a vontade de repetir, de se aproximar de um certo tom, de uma certa graça, de um certo estilo.
Ao contrário de muitas outras “remastigações” de propriedade intelectual, que têm como objetivo “atualizar” a matéria de origem, torná-la mais próximas das “sensibilidades contemporâneas”, enfim, fazer o seu repackaging, este mais recente The Naked Gun tem o propósito inverso: replicar, mimetizar e, nalguns pontos, macaquear. Daí que o realizador que “assina” este filme, Akiva Schaffer (realizador de inúmeros episódios do Saturday Night Live, muitos telediscos e de duas longas-metragens que nunca vi, The Watch [Patrulha de Bairro, 2012] com Ben Stiller, Vince Vaughn, Joanah Hill e Richard Ayoade e Hot Rod [Rod Radical, 2007] com Andy Samberg – aliás, Schaffer pertence ao grupinho de Samberg que renovou a equipa do SNL no início dos anos 2000, tornando-a “Youtube friendly” e procurando fazer de cada sketch um vídeo viral), seja um mero tarefeiro, cuja função é apagar-se perante o “legado”. Uma das graças deste filme está no modo como, de repente, e sem que se torne imediatamente visível (ou risível), se reconstitui o tempo dos filmes dos ZAZ (e sim, acho que o Top Secret! é talvez o meu preferido, mas é uma escolha difícil entre esse e o Airplane! [Aeroplano!, 1980]).
A secura de algumas piadas, aviadas em catadupa, consegue – por momentos – replicar um certo estilo muito próprio dos ZAZ. Penso, em especial, em toda a sequência do engate entre Neeson e Pamela Anderson com as réplicas a serem entendidas literalmente, numa sucessão absurda de enganos: um humor totalmente linguístico e tão rápido que é difícil de acompanhar (e de legendar!). Aí, nessa torrente de mal-entendidos, o filme começa a ecoar os títulos originais. Mas os filmes de ZAZ, apesar de tudo, não eram só humor linguístico. Muitos dos seus melhores gags são visuais e correspondem a pormenores de cenário, de objetos de decoração, na colocação da câmara, na dramaturgia e na disposição dos atores em campo – isto é, no cinema. O novo filme nunca chega perto de conseguir replicar a mesma avalanche de piadas que os primeiros filmes do grupo carregavam (em certos momentos, está mais próximo de Austin Powers do que The Naked Gun – o que não é, de todo, mau, mas acaba por ser o derivado do derivado).
É que, para ser sincero, esse tom, esse tempo e esse estilo aparecem no filme de 1988 (cujo título completo é The Naked Gun: From the Files of Police Squad!) já numa versão diluída. A tripla Zucker, Abrahams e Zucker chega à trilogia protagonizada por Leslie Nielson já em perda. E nota-se. Revi, no fim de semana passado, a trilogia original e, sinceramente, sem ser o primeiro filme, trata-se já um conjunto de filmes bastante derivativo, construído de uma forma reativa em vez de generativa. No segundo e terceiro tomo anuncia-se já o “cancro” que infectaria a comédia popular americana a partir da década de 90 e inícios de 2000, a (auto)referencialidade. Penso, claro, nos Scary Movies e quejandos – nos quais Leslie Nielson ainda chegou a participar em versão confrangedoramente decadente. De facto, The Naked Gun 2 1/2 e 33 1/3 estão pejados de referências, citações e reencenações de filmes populares dos anos 1980 e desse arranque dos anos 1990, respetivamente um gag falhado a partir de Ghost (Espírito do Amor, 1990), e outro particularmente inteligente, a partir de The Untouchables (Os Intocáveis, 1987). A força da cena de abertura do 33 1/3, que replica a sequência das escadas do filme de Brian de Palma, está, justamente, no modo como o filme de Brian de Palma, por sua vez, referencia a famosa sequência das escadas de Bronenosets Potyomkin (O Couraçado Potemkine, 1925), de Sergei Eisenstein. Essa matrioska de referências é a razão de ser da série The Naked Gun (nos seus melhores e piores momentos), mais não seja porque os filmes se constroem – narrativamente – como films noir com a omnipresente narração exterior do detetive e a presença pontual da femme fatale.
Isto para dizer que, nesta nova versão, o que se está a procurar replicar é já uma quarta ou quinta iteração de meta-referências, em versão auto-consciente. Se os The Naked Gun eram, em certa medida, filmes barrocos, este é uma espécie de rococó do humor parvo. Ou seja, os primeiros oferecem caos exuberante e sumptuoso, ao passo que este é, mais que tudo, um filme que propõe um caos elegante e palaciano. Se o primeiro The Naked Gun era a revisão pulp do próprio estilo dos ZAZ (em versão cansada), e os dois tomos seguintes o prolongamento extenuado e derivativo desse ponto de partida, o atual filme é a revisitação elegíaca de tudo isso. Parece daquelas casos em que uma peça de teatro dá origem a um filme que, por sua vez, é adaptado como musical da Broadway e, depois, transformado em filme musical que, pelo seu sucesso, tem um spin-off televisivo – e nós estamos, no fim da linha de produção, a ver o divertido (mas algo inconsequente) sketch paródico feito pelo SNL.
Com tudo isto não falei do Liam Neeson e da Pamela Anderson, que são o que anima esta espécie de zombie meta-referencial cinéfilo. Mas fico a aguardar a tua resposta. Por exemplo, cheira-me que terás algo a dizer sobre o P.L.O.T. Device (o falso-verdadeiro-falso motor da ação).
Até já,
Ricardo

Olá novamente, Ricardo!
Deixa-me começar por dizer que achei particularmente engenhosa a forma como o meu e-mail enviado ao engano para o teu antigo endereço te serviu para tecer algumas considerações sobre este novo The Naked Gun. Essa conversa com os mortos dá alguns momentos realmente engraçados (e o culminar dessa cena do Frank Derbin filho a falar com a fotografia do pai é uma delas). Mas esses objetivos do filme (como dizes e bem, “replicar, mimetizar e, nalguns pontos, macaquear”) acabam por se construir, em grande parte das cenas, sem a energia dos melhores momentos dos ZAZ.
Dizendo de outra forma, creio que a comédia é o género mais fácil de avaliar, a uma primeira impressão: basta que nos faça rir. Para depois ficam outras considerações – no caso de um filme, os aspectos técnicos e estilísticos que possam dar ao objecto mais elementos do que apenas a graça (que já é um desafio muito difícil de concretizar!). Não sei se será justo designar Akiva Schaffer de tarefeiro – preciso de conhecer mais capítulos da sua obra para ter uma opinião mais sólida, ou ele precisa de outras oportunidades para singrar no cinema –, mas acho que este The Naked Gun até poderia sair-se melhor se realmente replicasse, com toda a minúcia de monge copista, o método dos ZAZ. Poderia não entusiasmar mais do que este resultado que ambos vimos, mas talvez fosse mais interessante em jeito de “homenagem” a um certo tempo da comédia americana do qual tanta gente tem saudades (e voltamos ao marketing que referi na carta anterior) que, sim, deu origem a incontáveis cancros que povoaram as décadas seguintes (e a involução de Leslie Nielsen, do palhaço sério dos tempos dos ZAZ para o palhaço muitas vezes grotesco que me lembro de ver em incontáveis spoofs medíocres do início deste século que passavam incontáveis vezes nas televisões, merecia ser estudada).
Há essa tentativa de replicar as piadas em catadupa, demasiado rápidas para as conseguirmos apanhar todas de uma assentada, mas tens razão quando afirmas que o humor dos ZAZ é mais do que trocadilhos e brincadeiras com frases feitas e expressões muitas vezes intraduzíveis.
(por falar em tarefas infernais para o pessoal da legendagem, lembrei-me de um cartoon do Tex Avery, Symphony in Slang, todo ele feito à base de confusões linguísticas. Vale a pena ver, e rever, e rever).
Nesta legacy sequel falta o apuro, o polimento que advém de muito tempo de criação e preparação. Talvez o cinema contemporâneo já não esteja preparado para os gags visuais do Top Secret!, que revelam uma atenção ao detalhe que é puramente cinematográfica: basta distrairmo-nos por uns segundos e perdemos a brincadeira com a perspectiva e os ângulos de câmara com aquele telefone gigante, por exemplo. Mesmo a série Police Squad, que deu origem a The Naked Gun (e que continua muito eficaz e, principalmente, hilariante) é uma experiência completamente diferente se não estivermos a olhar com atenção para o ecrã (e essa foi uma das razões para ter sido cancelada ao fim de seis episódios, o que contraria algumas críticas que tenho lido à volta do filme que deu origem a esta nossa troca de correspondências, que assumem o humor dos ZAZ como tendo uma “matriz televisiva”). É um humor que leva muito tempo a fazer. Será que o ritmo contemporâneo dos estúdios permite esse tempo?
Pela sobrecarga da narrativa (e uma comédia destas não pode dar demasiada atenção à historieta) e um menor foco na construção cómica, o The Naked Gun de 2025 acaba por se arrastar interminavelmente – acredito que mais por culpa do envolvimento de Seth MacFarlane nesta produção (e nota-se a sua marca) do que numa inspiração nos filmes dos ZAZ. Não sei se a comparação com Austin Powers é justa porque, entre todos os aspectos rebuscados e marotos dos filmes dessa trilogia… há muita coisa engraçada.
Enquanto os filmes dos ZAZ, no seu melhor, tinham uma junção de gags curtos que deram muito trabalho a pensar e, muitas vezes, a concretizar (algumas ideias muito parvas mas complicadíssimas de pôr em prática, em que muito tempo de produção foi consumido para um ou dois segundos de tempo de ecrã), The Naked Gun em 2025 faz-se, em boa parte da sua duração, de piadas mais preguiçosas que duram demasiado tempo. Perdeu-se, de certa forma, nos entretantos, um labor criativo e cénico para o humor, aqui orgulhoso de si próprio, e por isso a roçar o insuportável, que já pontua muitos dos projetos televisivos criados por MacFarlane (Family Guy é uma série divertida nas piadas curtas, mas aborrecidíssima quando se acha com muita graça).
Filmes como Airplane! ou Top Secret!, ou o The Naked Gun de 88 (não fui rever as duas primeiras sequelas, mas compreendo o que apontas) assentam num ritmo imparável de piadas, muitas delas rebuscadas ou de um nível mais “baixo”, mas que fazem sentido por permanecerem tão pouco tempo “no ar”. Ou seja, o total disparate é permitido nessas comédias por ser sempre curto e grosso (salvo seja), nas palavras ou nas imagens. No novo The Naked Gun, há vários momentos em que se “carrega na farinheira”, como a sequência do boneco de neve ou dos antigos gravadores TiVO (além de ser um gag mais compreensível para o público dos states, ela perde rapidamente a graça).
Infelizmente, a curta duração do filme (85 minutos) não é um sinal de uma comédia eficaz e memorável (todo o produto humorístico, como vários especialistas na matéria afirmaram ao longo das décadas, tem de ter a duração certa: a mais curta possível). Para mim, pelo menos, não foram 85 minutos que se justificassem – mas na sessão em que estive ouvi gargalhadas constantes de vários membros do público. E parece-me acertada a expressão “rococó do humor parvo” (é mais engraçada que boa parte dos gags do filme) e ser a revisão “em versão cansada” do estilo dos ZAZ. E à tua outra ideia, acrescento: este filme é a versão longa, que ninguém pediu, da paródia do SNL.
Não falaste tu, mas remato eu com a dupla de protagonistas. Foi uma revelação ver Pamela Anderson nesta comédia, e parece-me ser quem consegue desempenhar, com mais resultados, a seriedade para o disparate que pontuava os filmes dos ZAZ. Já Neeson tem alguma graça, mas força-a. Não tem a espontaneidade, o sentido dramático de Nielsen que, nos melhores momentos de The Naked Gun e Police Squad, pode parecer muito sério se não estivermos a vê-lo (ou a ouvi-lo) com atenção.
E é peculiar pensar como ambos os actores estão em fases diferentes da sua carreira quando decidem entrar neste registo: Nielsen, que nunca teve grandes oportunidades de brilhar enquanto actor dramático (e por isso nunca tinha captado antes a atenção do público no drama, excepto talvez em Forbidden Planet – mas aí o verdadeiro protagonista era o Robby the Robot), conquistou uma segunda carreira enquanto cómico – algo que, numa entrevista nos anos 80 que me apareceu há dias no YouTube, deixou o próprio espantado porque, na verdade, ele não mudara nada no seu registo – o que se alterou foi o texto, o contexto e a abordagem da “máquina” do cinema à sua persona.
Já Neeson não está no mesmo ponto da carreira. Não tem nada a provar e sempre teve a nossa atenção. É um actor “sério” muito popular, e que vem de uma série de filmes de acção (a maior parte muito pouco interessante – mas creio que discordarás!), e que quer muito, muito, fazer-nos rir… mas o arrastar de vários gags, neste novo The Naked Gun, tornam-no muitas vezes aborrecido. Não há muitas coisas piores do que um tipo a tentar desesperadamente ter graça – eu que o diga, com os meus anos na stand up comedy na memória.
(adoro apartes, aqui vai mais um: é interessante pensar como a desconsideração do grande público pela comédia pode afectar de tal forma a percepção que temos de um actor. Um Daniel Day-Lewis faz papéis dramáticos, e se fizesse agora algo para rir… acho que caía o Carmo e a Trindade. Por outro lado, quando um cómico se aventura no drama, o riso pode ser impossível de conter para os espectadores. Foi o que aconteceu com A Balada da Praia dos Cães [1987] e a primeira vez que Raul Solnado aparece no ecrã, com uma rede no cabelo.)
Vou calar-me, mas não me esqueci desse P.L.O.T Device – que provocou uma das minhas genuínas gargalhadas ao ver o filme, e é uma das poucas boas piadas que não foi incluída nos trailers.
Um abraço… e não me chames Shirley!
Rui

Querida Shirley,
Isto da demora na resposta já se começa a tornar num hábito. Poder-se-ia dizer que na nossa relação por correspondência te estive a dar ghost – como diz a juventude. Ou então, para seguir aquilo que referiste na tua última missiva, ter graça é algo que dá trabalho e pede muito tempo e dedicação. Infelizmente não é por esse motivo que esta carta demorou mais a chegar – tomara –, estive nos últimos dias a escrever um ensaio bem longo sobre cinema de propaganda durante o Estado Novo, ou seja, “barrigadas de riso”.
Por acasos do destino, lia – nas minhas viagens de transportes públicos – o novo livro de António Fernando Cascais, Estar Além – A persona queer de António Variações, onde este, a dada altura, explora as diferenças entre citação, paródia e sátira, a partir do pensamento de Mikhail Bakhtine, primeiro, e Linda Hutcheon, depois. Uma das definições é a de “paródia como repetição transcontextualizada” sendo que “a transcontextualização confere à paródia o carácter de imitação diferenciadora, uma imitação que repete com diferimento” ou seja, “uma imitação caracterizada pela inversão irónica”. Por sua vez, a sátira é “moral e social no seu enfoque e no seu propósito melhorador, que se encontra ausente da paródia. O ethos da paródia pode mudar, mas o seu alvo é sempre intramuros (…), ao passo que a sátira é extramuros”. Achei que estas breves reflexões/definições ajudam um pouco a dar forma a este pensamento que temos vindo a desenvolver sobre a natureza deste estranho objeto – mais interessante como meio de reflexão do que como objeto cinematográfico (ou, se quer, como objeto de entretenimento). Esta ideia de ser “exatamente como tu, mas nada como tu” está na génese da ideia de paródia. Mas não se pode exatamente dizer que The Naked Gun de 2025 seja uma “paródia” do de 1988. Mas, em certa medida, acaba por sê-lo. E é essa “perturbação” que o torna, senão misterioso, pelo menos intrigante. Este desejo de réplica e mimesis transformam o novo filme numa espécie de ensaio sobre o próprio gesto que procura encenar. Não tem piada nenhuma – por si – mas é surpreendente que um filme desta natureza se dê a este tipo de desvios (auto)reflexivos.
Mas agora, que lavei a boca com o Bakhtine (parece o nome de um elixir bocal), vamos então à vaca fria (cold cow para Tex Avery) e ao nosso inevitável dissenso, que fará de nós inimigos figadais até ao fim dos tempos: Liam Neeson. Como ousas tu – meu cómico de stand-up (não consegui pensar em ofensa maior…) – denegrir o santo nome de Liam Neeson!? Pois fica sabendo que foi justamente por causa do nome que Neeson foi escolhido para esta revisitação de The Naked Gun. Segundo explicou o próprio em entrevistas – daquelas que são sempre muito amenas e naturais mas cujas perguntas e respostas se repetem com diferentes interlocutores (e são claramente desenvolvidas em laboratório por “especialistas em comunicação”) –, tudo começou como uma piada, hélas! A consonância entre os nomes Leslie Nielsen e Liam Neeson: as mesmas iniciais, quase as mesmas sílabas, a mesma sonoridade sibilante no apelido, a homofonia em inglês de “sen” e “son”. Parece de propósito. E, em certa medida, anuncia já a ideia de “variação” (ou “derivação”) que o novo The Naked Gun procura trabalhar (“imitação que repete com diferimento”). Segundo o ator, várias vezes ao longo da sua vida foi confundido com Leslie Nielsen, havendo quem lhe dissesse que se tinha fartado de rir com ele em filmes como Airplane! Ao que parece, a vontade de regressar ao filme dos ZAZ teve origem nesta confusão e na graça de escolher um ator com um nome muito parecido com o do ator original. Tanto assim foi que, pelo que consegui perceber, o projeto desta legacy sequel data originalmente de 2009 (tendo demorado mais de quinze anos a conseguirem montá-lo), e desde logo Liam Neeson foi anunciado como o ator que viria ocupar o papel de Frank Drebin – como havia sido profetizado pelas escrituras. Ámen. Há, portanto, uma espécie de razão tão profunda quanto a pele das palavras para que só Liam Neeson pudesse ocupar este papel.
Se em ocasiões anteriores – tomado pelo entusiasmo com que Liam Neeson se reinventou enquanto ator de cinema de ação – defendi que, como o amigo Luís Mendonça lembrou a propósito do elogio que Bazin fez de Bogart, (“Bogart vai trabalhando, de filme para filme, numa espécie de progressiva internalização das ideias de decadência e de morte, como que chamando a si, precisamente, a sua própria decadência e a sua própria morte”), também Neeson fez da sua filmografia um processo de lapidação da sua “persona mítica”. Cada filme participa na construção de uma imagem de si, de uma iconografia própria que atravessa géneros e cineastas, décadas e estilos, numa continuidade absoluta. As personagens mais não são do que eflúvios de uma identidade ficcional transversal, um magma que brota em cada filme, que se expõe e endurece ao ar. Neeson é – ou tornou-se – num ator da própria ideia de si e, por isso mesmo, os melhores realizadores que têm trabalhado com ele são aqueles que compreendem que a figura de Liam Neeson pertence já à ordem do mito e, por isso mesmo, há que limitar-se a navegar em torno do colosso.
Os filmes com Neeson não são dos produtores nem dos realizadores que os assinam, são de Neeson, não são de mais ninguém – a não ser, agora, também de Pamela Anderson. A presença de Neeson condiciona narrativa e formalmente os filmes em que participa de maneira a que, pelo ator, se introduzem nesses filmes temas, obsessões e opções estéticas que o acompanham (que este carrega). Se se pode dizer que Neeson estava “destinado” a fazer este The Naked Gun porque carregava a marca da consonância no seu nome, importa acrescentar que a sua escolha não se resume a uma simples rima. Neeson é convocado para The Naked Gun precisamente pela sua “persona mítica”, por aquilo que representa para o espectador contemporâneo. Ele está ali para nos recordar dos nossos pecados. Desculpa, entusiasmei-me. Mas, em certa medida, sim, ele está ali para nos recordar do mal, o mal que ele tem combatido nos demais filmes “sérios” de ação e violência desmedida. Como argumentei doutras vezes, ao contrário das figuras crísticas que espiam os pecados do mundo, o trágico em Neeson está no facto deste salvar o mundo cometendo os pecados que esse mundo não quer ou pode cometer.
Neste caso, na personagem de Frank Derbin, Liam Neeson anda atrás do P.L.O.T. Device (wink wink) que, não por acaso, é uma máquina que destrói os mecanismos da civilidade, transformando a humanidade numa massa convulsa de homens e mulheres raivosos, agressivos e destrutivos (não por acaso o plano é ativar o aparelho durante um combate de MMA, a forma de animalidade que nós, enquanto sociedade, licenciámos como aceitável). O plot device é a própria maldade, em forma animal, descontrolada e amoral. O mal – ou a sua iminência – faz mover a ação do filme e, por uma vez, a presença de Liam Neeson não serve de catalisador desse mal, antes como forma de o protelar através do erro, da dispersão, da inconsciência, da desatenção, em suma, do caos. Esta inversão “ontológica” da personagem de Neeson só funciona porque acontece como oposição àquilo que a sua figura representa neste caldo cultural a que chamamos cinema popular. Mas por se tratar de uma inversão completa, não deixa de remeter inequivocamente para essa origem. Cada “palhaçada” de Neeson é um lembrete do seu outro. Daí que a sua completa inadequação ao papel de Frank Derbin se constitua, afinal, como uma afirmação daquilo que Liam Neeson representa. E não é uma questão de “trabalho de ator”, é mesmo uma declaração da natureza mitológica que a figura de Neeson ganhou no imaginário mainstream. Não há paródia que abale essa postura.
E não será por acaso que o filme termina com uma suspensão. Durante o genérico final, as personagens de Liam Neeson e Pamela Anderson continuam a movimentar-se por um cenário paradisíaco, mas tudo está imóvel: colegas rindo e gesticulando, gotas de água pingando, objetos pendentes. O casal passeia por este mundo congelado e pasma-se com o feito inédito. É, claro, a literalização de uma força de expressão – freeze – mas tem, creio, uma dimensão metafórica mais profunda que surge como comentário sobre a natureza “transcendente” destes atores (ou das suas personas), a sua libertação do mundo das coisas, a sua afirmação enquanto ideia (ideia de si). E, não por acaso também, o filme conclui-se com um literal “quebrar da quarta parede”, com Neeson a tomar consciência do “lado de lá” e, com o dedo em riste, forçar a membrana, partindo-a. Só que aí, nesse momento culminante, tudo se revela. O dedo não rasga a tela de cinema, ele parte um ecrã de vidro. Afinal nada disto é cinema, é tudo televisão (ou pior, conteúdo de plataformas para ser consumido – consumado – através do eletrodoméstico que tiver mais à mão). Esse final entristeceu-me. Sendo que a cena pós-genérico, com “Weird Al” Yankovic em palco a cantar para uma plateia vazia, seja a assunção de uma derrota.
Um abraço melancólico,
Ricardo
