Este objecto voador não identificado tinha de vir do país de Marshall McLuhan e David Cronenberg. Sobrevoou a paisagem mediática em 2008 com uma passagem menos do que discreta pelo nosso país – creio que a sua exibição no MOTELX é a única que se regista em território nacional. Apareceu tão rapidamente quanto desapareceu e, contudo, trata-se de uma das mais brilhantes alegorias políticas que o cinema de horror produziu em todo o século XXI. Na altura, quando a vi, ficou gravado na minha memória o seu delirante texto semiótico, que basicamente traduz a possibilidade de o apocalipse zombie atacar, como o peixe, “pela boca”, quer dizer, qual pesadelo wittgensteiniano sem remissão, do fim da nossa espécie ter como princípio o verbo. Definitivamente, este foi – e não lhe conheço sucedâneos à altura – o grande filme-catástrofe do seu tempo, numa altura em que os filmes de fim do mundo ainda facturavam no boxoffice, com Roland Emmerich como principal timoneiro.

O canadiano Bruce McDonald gozava de algum reconhecimento no círculo cinéfilo devido ao sucesso do filme de culto The Tracey Fragments (Os Fragmentos de Tracey, 2007), obra que decisivamente catapultou o nome de Elliot Page (à época, Ellen Page) como nova estrela de um emergente cinema independente de expressão anglófona. Filme hiper-estilizado, ainda em diálogo com uma certa estética saturada de efeitos vinda dos anos 90, representada por nomes tais como Mike Figgis e Darren Aronofsky, The Tracey Fragments revelava um realizador aberto a uma certa experimentação formal em registo “multimédia”. Pontypool é um filme que inverte a ordem das coisas: se neste filme de cerco a linguagem era a fonte do horror, então isso significava que MacDonald iria virar o bico ao prego e adoptar uma postura clássica na encenação deste zombie apocalypse quase puramente linguístico.
O jogo semiótico é complexo, mas o filme não se perde na complexidade que lhe subjaz, que lhe corre no sangue, digamos assim. Antes pelo contrário, e é aqui que apetece citar Cronenberg, McDonald concentra a acção numa estação de rádio e nunca perde de vista as suas personagens, na sua dinâmica comunicacional própria, entre a exasperação, o flirt ou a secreta admiração. Há qualquer coisa de um filme de Howard Hawks na relação estabelecida entre o locutor de rádio cowboy, Grant Mazzy, interpretado pelo ultra-carismático Stephen McHattiem, e a sua colega Sydney Briar, encarnada por Lisa Houle. Antes da eclosão dessa verdadeira tempestade sintagmática, que os vai unir em face da morte iminente (e do fim do mundo as we knew it), eles combatem como qualquer ser humano sabe fazer: com palavras.
A ideia de uma “nova língua” como panaceia, que nos liberta da “má língua”, entidade virulenta, tem tanto de terapêutica como de maximamente redentora.
O que o locutor diz na estação – o entretenimento proposto pelo seu tom escarninho – vai muito além daquilo que ela imaginou para o programa: dar as notícias, a meteorologia e pouco mais. Mazzy “pinta a manta” enquanto tenta cumprir, sem grande dedicação, com o mínimo exigido num programa de rádio madrugador. Podiam ser personagens de Cronenberg ou, melhor, de um John Carpenter, sendo fácil de comparar Pontypool com The Fog (O Nevoeiro, 1980). Quando o Dr. Mendez se refugia na estação de rádio e conclui que algo de maligno torna as pessoas em autómatos programados para atacar quem ainda não foi dominado pelo “vírus” indecifrável, parece preparar-se para dizer que essa coisa maligna anda aí, “está no ar”. A brincadeira com o “on air” da rádio é inevitável neste jogo de linguagem que é e está no filme, mas a verdade é que o grande twist fica reservado para a conclusão do dito médico, pois não é “no ar” que o vírus circula, mas – apetece também dizer “pior ainda” – é na língua propriamente dita. Chegarão as personagens à conclusão, mais à frente, que só o idioma de Shakespeare foi alvo do ataque de origem incerta (um castigo divino ou diabólico? Uma maldição from outer space? Não sabemos porque é que o inglês se mostra permeável à infecção…). A verdade é que não é bem a língua inglesa que se revela território tóxico, antes certas palavras que uma vez devidamente entendidas podem accionar a terrível virose.

No princípio era o verbo? A história da palavra desenha um círculo perfeito (ouroboro infernal), pois agora, em Pontypool, título que remete para o lugar algo recôndito do Canadá, um país cindido linguisticamente, o verbo será o nosso mais terrível fim. O filme aborda a comunicação como um modo de contaminação irresistível: as duas personagens, também falantes de francês, não conseguem deixar de pronunciar palavras, nomeadamente em inglês. Mazzy, que citara Roland Barthes no programa antes de o caos se abater sobre a pequena localidade canadiana, mostra-se à altura das circunstâncias e começa a estudar o fenómeno. Comunicador de profissão, Mazzy procura improvisar uma cura – uma vacina vocabular, digamos – para a pandemia em curso. O filme vai-se tornando incongruente não de maneira ostensiva, nomeadamente no modo como as personagens se viram umas contras as outras ou cedem a uma atracção amorosa que outrora era apenas flirt. O que se propõe aqui é um jogo de esconde-esconde não tanto com certos processos linguísticos ou concretamente certas palavras especialmente contaminadas (como “kill” ou “sample”) mas acontecendo nelas, desviando-as, re-significando-as e, enfim, implodindo-as.
Se a linguagem (a língua posta em acção, performaticamente) é vírus, pois então que se dinamite aquilo que a torna coesa, nomeadamente se “baralhe para distribuir de novo” o que liga certo significado a certo significante. Se “kill” é uma palavra contaminada, que se diga “kiss” no seu lugar. O grau de invenção aqui é extraordinário, porque sentimos o desespero das personagens como bem real – todos nós vivemos imersos em processos comunicacionais, muitos deles absolutamente estéreis, mas todos sentidos como necessários (não resistimos a uma permanente “comichão linguística”). A ideia de uma “nova língua” como panaceia, que nos liberta da “má língua”, entidade virulenta, tem tanto de terapêutica como de maximamente redentora. Era Wittgenstein quem escrevia que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”, ora, repensar esses limites, reformular o jogo da língua, significa imaginar um mundo novo. Pontypool faz-nos fantasiar com essa possibilidade. E este delírio semiótico e epistémico acontece à guisa de uma desesperante fuga ou salvação de último minuto, quando, como parte desta nossa espécie cativa do seu código linguístico, apressadamente o protagonista improvisa um outro código, cracking the code of the virus. Uma espécie de “no reinício era o verbo”, a nova palavra, feita carne e sangue, que o ending sela com um beijo: kiss is kill, indeed.
