“Plaisir d’amour ne dure qu’un moment, chagrin d’amour dure toute une vie”
Jean-Pierre Claris de Florian
O melodrama, à semelhança da ópera, é um género de extremos: ou se ama com devoção absoluta, ou se rejeita sem apelo nem agravo. Amar o melodrama é entregar-se a ele por inteiro – acolher os seus arrebatamentos, as suas improbabilidades e a sua intensidade exaltada – mas é também saber manter o olhar atento aos seus gestos mais subtis: um toque fugaz, uma inflexão do rosto, uma palavra dita no instante exacto.
An Affair to Remember (O Grande Amor da Minha Vida, 1957) é, sem dúvida, um dos grandes títulos do género, embora talvez seja mais citado e invocado do que efectivamente visto. O seu poder icónico (para recorrer a um termo usado e abusado por estes dias, nem sempre com propriedade) é tal que serviu de ponto de partida a uma das comédias românticas de maior êxito da década de 1990, Sleepless in Seattle (Sintonia do Amor, 1993). São vários os elementos que os aproximam: desde o topo do Empire State Building como lugar de encontro e consagração amorosa, até à ideia de uma “última oportunidade” para encontrar o amor de uma vida. An Affair to Remember é, aliás, explicitamente referido e citado no filme de Nora Ephron, com as suas deixas a enfeitiçarem a vida de Annie (Meg Ryan), a ponto de esta se surpreender a citar directamente o filme — “and all I could say was ‘hello’!”.

De resto, Annie não é a única personagem a viver sob o encanto desse clássico. Suzy (Rita Wilson) encarna na perfeição a figura do devoto do melodrama: descreve apaixonadamente o enredo do filme (não é difícil adivinhar que o terá visto inúmeras vezes), abandona-se às lágrimas, apenas para ser alvo da troça paternalista dos dois homens que com ela partilham a mesa.
An Affair to Remember não é um objecto tão arquetípico quanto à primeira vista possa parecer. Com maior rigor, poder-se-ia descrevê-lo como um melodrama-comédia ou, indo ainda mais longe, como uma melodramédia a namoriscar o musical.
O genérico inicial de An Affair to Remember não deixa margem para dúvidas quanto ao território que aqui se pisa: créditos elegantemente desenhados em cor-de-rosa, um tema musical assumidamente romântico, uma abertura que poderia, sem esforço, pertencer a um melodrama sirkiano. E, no entanto, An Affair to Remember não é um objecto tão arquetípico quanto à primeira vista possa parecer. Com maior rigor, poder-se-ia descrevê-lo como um melodrama-comédia ou, indo ainda mais longe, como uma melodramédia a namoriscar o musical.
A introdução dos elementos de comédia vem perturbar e baralhar os códigos tradicionais do melodrama, servindo de estratégia deliberada: por um lado, sublinhar que a futilidade das duas personagens é apenas aparente; por outro, mascarar – ou adiar a revelação de – uma natureza mais profunda e autêntica, que só mais tarde se deixará plenamente entrever. E não é a vida um misto perverso de melodrama e comédia?
Os apontamentos musicais figuram aqui como herança directa da sua versão original, Love Affair (Ele e Ela, 1939), que tinha como protagonista feminina Irene Dunne (ao lado de Charles Boyer), criando assim uma forma de a actriz exibir os seus dotes musicais, nomeadamente interpretando o célebre tema “Plaisir d’amour”, de Jean-Paul-Égide Martini – “Plaisir d’amour ne dure qu’un moment, chagrin d’amour dure toute une vie”.
Colocando em contraponto as duas versões, Love Affair e An Affair to Remember, é curioso constatar como Leo McCarey opta por introduzir poucas alterações ao enredo e diálogos da obra original. O que se altera verdadeiramente é, afinal, a aura própria que os actores trazem para o filme, sendo conhecida a margem que Leo McCarey concedia aos actores para alguma improvisação, emprestando um cunho pessoal mais acentuado às personagens de Nickie Ferrante e Terry McKay.

Encontramos aqui duas figuras que habitam o mundo da futilidade e da high society internacional, nomes que circulam nos faits divers que encerram os noticiários. Nickie Ferrante (Cary Grant) é o homem do momento, o playboy de quem todos falam, prestes a dar o nó com uma milionária americana. A sua presença provoca um verdadeiro alvoroço no transatlântico em que embarca, acossado por passageiros curiosos e intrusivos, ainda perseguido pelas mais recentes relações amorosas deixadas em terra. Para se ter plena noção da comoção causada pela sua presença a bordo, basta, na verdade, substituir o nome “Nickie Ferrante” por Cary Grant.
O encontro entre Nickie com Terry McKay (Deborah Kerr) dá-se no terreno da comédia: ela diverte-se com a aura de galã do playboy e com o alvoroço que este provoca a bordo do navio; ele embaraça-se quando os seus avanços não alcançam, junto de Terry, o efeito esperado. Ambos conhecem bem os códigos da sedução e dominam-nos com mestria. É, contudo, a partir deste jogo inicial que começam a aproximar-se, a conhecer-se verdadeiramente e a deixar cair a máscara que os protegia do mundo e lhes permitia, até então, ir apenas vivendo: sem pensar demasiado, sem sofrer em excesso. Uma existência inebriada de pink champagne, feita de objectos elegantes e roupas luxuosas – luxe, calme et volupté.
Mas, no micromundo que é o navio, e por mais que tentem evitar-se, a relação entre Terry e Nickie vai-se estreitando, as conversas prolongam-se, a intimidade cresce. Numa das escalas, em Villefranche-sur-Mer, Nickie convida Terry a acompanhá-lo numa visita – uma visita a uma mulher, mas não do género que Terry esperaria. Trata-se da casa da sua avó, Janou (Cathleen Nesbitt), que ali vive há muitos anos, isolada, na companhia quase exclusiva das suas memórias. Terry deixa-se encantar pela beleza e tranquilidade daquele lugar, mas Janou contrapõe de imediato: Terry é ainda demasiado jovem para ali viver. Precisa, antes, de criar as suas próprias memórias. Só depois se pode escolher um lugar assim, apartado do mundo.
“Winter must be cold for those with no warm memories, and we’ve already missed the spring!” – dirá a própria Terry mais tarde. Daí a urgência do amor que começa a nascer entre ambos. Nickie e Terry sabem que este é um momento de “agora ou nunca”, a derradeira oportunidade de escaparem a uma vida à deriva e de tentarem, enfim, agarrar a felicidade. É ali, na casa de Janou, que se apaixonam verdadeiramente, que os seus rostos ganham um semblante mais grave, mais carregado de consciência.
Em Love Affair, a cena que se desenrola na capela da casa de Janou (que nesta primeira versão vive na Madeira) assume uma dimensão quase religiosa, sublinhada pelo jogo de luz e sombra e pela forma como os olhares de ambos se evitam. Michel contempla o vulto de Terry recortado em contraluz, os olhos marejados como que a pedir uma bênção. É nesse instante que ele reconhece a profundidade dos sentimentos dela – e, por arrastamento, a dos seus próprios sentimentos.

Fora do tempo febril da viagem, nesse intervalo suspenso que é Villefranche-sur-Mer, os artifícios dissipam-se. Tudo ali é sóbrio, sereno, grave, honesto – e, ao mesmo tempo, leve e luminoso. Janou traz consigo a ideia do fim, evoca a proximidade da morte (morte que é também partida, razão pela qual o seu rosto se comove ao ouvir o assobio do navio). Mas encarna igualmente a urgência de uma vida vivida com verdade, a urgência do amor face à pressão inexorável do tempo.
Se neles o passado pesa (as escolhas feitas, os erros cometidos), nasce também a vontade de criar memórias, de conquistar o direito a viver, um dia, num lugar tão idílico quanto aquele.
Se a nota essencial do melodrama é o seu lado emocional, não deixa de ser curioso constatar até que ponto estas personagens vivem, não na emoção, mas no intelecto, remoendo erros e memórias, de semblante carregado, numa ilha de silêncio.
A bordo do navio, porém, tudo conspira contra essa intimidade nascente. Todos parecem querer boicotar, explorar ou capitalizar a sua proximidade: intrometem-se, impõem-se, zombam deles – em particular quando acabam sentados costas com costas, numa situação que evoca The Shop Around the Corner (A Loja da Esquina, 1940), depois de terem pedido mesas separadas. Perante essa pressão constante, Nickie e Terry acabam por se esconder, por se isolar, como se estivessem sós no mundo, conferindo-lhes esse isolamento uma aura borzagiana [pense-se em History Is Made at Night (Um Ladrão na Noite, 1937)]. É nesse recolhimento que ocorre o primeiro beijo, escondido, fora de campo – maravilhoso e apaixonado precisamente porque não o vemos.

Encontramos Terry no seu camarote, enquanto lá fora se forma uma tempestade de chuva, sinal da confusão de sentimentos que a atravessa e do tempo de decisões difíceis que se aproxima. Como poderão tentar construir uma vida a dois, duas pessoas habituadas aos maiores luxos, daí em diante com fontes de rendimento limitadas? Há, nesse dilema, um lado pragmático: o amor, por si só, não basta. Cada um terá de retomar as ocupações deixadas no passado – ela voltará a cantar, ele voltará a pintar.
Eles deixam o navio com uma promessa: encontrarem-se daí a seis meses, no topo do Empire State Building – o lugar mais próximo do céu. Até lá, irão tentar construir uma vida real, independente de terceiros (leia-se, do dinheiro alheio) e com menos pink champagne. Tornam-se agora guerreiros do amor, mas totalmente desarmados, obrigados a redescobrir como é viver no mundo real. Para ambos, trata-se de uma oportunidade de “regeneração”, abandonando a sua condição de kept woman e kept man.
A despedida funciona como um ponto de ruptura no filme – deixamos o primeiro capítulo, o filme do navio, para entrar no segundo, que acompanha as vidas separadas de Terry e Nickie, até ao reencontro final.
Se não vemos aquele primeiro beijo, há, contudo, um gesto que podemos observar, se estivermos atentos, quando abandonam o navio. Terry está acompanhada de Kenneth (Richard Denning), abraçados, e Nickie deposita um beijo da sua mão na mão enluvada dela. Ela leva ardentemente a mão à boca, sorvendo aquele gesto, alimento para o desejo de um novo encontro. Tudo se passa em silêncio, sem que isso diminua a intensidade desta troca de afectos. É um instante brevíssimo que transforma a poesia em vida, e a vida em poesia.

A tempestade regressa para assombrar a espera de Cary Grant, naquele lugar mais próximo do céu, quando ele aguarda Terry na data marcada, alheio à tragédia que a impediu de comparecer. Ignorando a verdadeira razão da ausência, ele mergulha na melancolia e na amargura. Não há retorno ao Nickie Ferrante que fora outrora. Regressa, então, à casa de Janou, à procura das memórias aí criadas, tocado pela ausência, acariciando objectos carregados de significado. De forma absolutamente credível, Cary Grant transita da jovialidade inicial para uma severidade melancólica, uma nova forma de se separar do mundo, ferido porque este lhe roubou a sua última cartada.
Se a nota essencial do melodrama é o seu lado emocional, não deixa de ser curioso constatar até que ponto estas personagens vivem, não na emoção, mas no intelecto, remoendo erros e memórias, de semblante carregado, numa ilha de silêncio.
Mesmo com o apelo directo ao lado emocional do espectador, a personagem habita sobretudo a sua cabeça: sente a urgência da decisão, confronta os obstáculos à concretização do amor, enfrenta os fantasmas que a assombram, revê os erros do passado, rememora e arrepende-se. Um cárcere do pensamento que contrasta com a liberdade emocional de quem observa.
Um verdadeiro milagre natalício, onde a poesia e a vida se encontram de forma perfeita.
No fundo, a personagem do melodrama sacrifica-se ao seu lado intelectual para que o espectador possa viver, em plenitude, o lado emocional – até às lágrimas. Estas lágrimas funcionam como um banho turco da alma, expulsando fantasmas interiores, tal como o corpo elimina calorias sob o vapor.
São, portanto, uma dádiva para quem assiste, tal como as lágrimas partilhadas por Cary Grant e Deborah Kerr naquela noite de Natal, quando Nickie finalmente conhece a verdade sobre o motivo que levou Terry a falhar o encontro no topo do Empire State Building. A conversa entre os dois inicia-se de forma desconfortável: uma dança ao redor da sala, com Terry imóvel, numa tentativa de conhecer a verdade sem ferir o orgulho. É Janou, de forma indirecta, quem os reúne novamente, conduzindo-os à memória daquela tarde na capela da sua casa – uma memória perpetuada no retrato pintado por Nickie. “If you can paint, I can walk!”

E é assim, nesse reencontro, que o filme se fecha: o amor, sobrevivente das provações da distância, do sofrimento e do tempo, encontra finalmente a sua concretização. Entre lágrimas, abraços e olhares carregados de promessa, Nickie e Terry celebram a capacidade de a paixão vencer as barreiras da vida real – um verdadeiro milagre natalício, onde a poesia e a vida se encontram de forma perfeita.
An Affair to Remember será exibido amanhã, dia 22 de Dezembro, no Cinema Medeia Nimas, às 17h – integra o ciclo “À Volta do Melodrama”.
