É a epítome do que é entendido como ‘filme de Natal’. E mesmo para quem não lhe conhece o nome, o rosto de Kevin McCallister (Macaulay Culkin) situa as coisas. Em celebração do seu 35º aniversário, três walshianos (Rui Alves de Sousa, Inês N. Lourenço e Susana Bessa) debruçam-se sobre o filme que pertence ao imaginário colectivo, e pelo caminho exploram as suas relações individuais não só com ele, mas também com a quadra natalícia.

Olá!
Antes de mais, tenho de vos agradecer por participarem numa troca de correspondência sobre o filme que é ainda (pelo menos em Portugal) o mais bombardeado… desculpem, transmitido!, pelos canais de televisão na quadra natalícia.
Creio que não será errado dizer que Home Alone (Sozinho em Casa, 1990) está para o Natal como as canções com as vozes de Mariah Carey ou dos Wham: mesmo que não queiramos, sabemos que nos vamos deparar com estes objectos ao longo dos dias que antecedem o nascimento do menino.
Ou seja: porquê pegar num filme sobejamente conhecido que serve de “comida confortável” para muitos na noite de Natal, talvez para animar o jantar familiar ou, até, para desviar as hipotéticas tensões e uma discussão eminente?
Será possível avaliar um objecto destes apenas pelo que é, um filme? Ou há títulos tão populares e presentes que apenas estamos a analisar o contexto, em vez do que as imagens nos propõem? E será que as pessoas gostam mesmo do filme, ou da memória que têm dele?
Por isso mesmo: filmes como Home Alone parecem ter uma presença peculiar no nosso imaginário. Eu, que não o via na íntegra desde há 15 ou mais anos, senti uma enorme familiaridade com aquelas imagens. É verdade que apanhei bocados na televisão nos anos seguintes, mas este é daqueles marcos populares que se entranhou na minha cabeça sem eu gostar particularmente dele… será que vocês, ou quem nos lê, se identifica com a minha experiência?
E quantas pessoas é que, na noite de Natal, estão mesmo a ver o Home Alone? Será que a televisão serve apenas para estar ali a dar qualquer coisa, tal como quando os McCallister estão em Paris, naquele impasse para perceber como estará o pequeno Kevin, e vemos It’s a Wonderful Life (Do Céu Caiu Uma Estrela, 1946) num pequeníssimo ecrã? E ainda por cima dobrado em francês. “The horror”…
Revi então Home Alone tentando não pensar nisto tudo. Será possível avaliar um objecto destes apenas pelo que é, um filme? Ou há títulos tão populares e presentes que apenas estamos a analisar o contexto, em vez do que as imagens nos propõem? E será que as pessoas gostam mesmo do filme, ou da memória que têm dele?
(isto faz-me lembrar o período de estreia d’O Pátio das Cantigas (2015), em que várias pessoas me disseram que adoravam o filme original e de como se tinha aguentado muito bem… rapidamente percebia que as lembranças relatadas diziam respeito a elementos de dez ou quinze minutos… de uma comédia com duas horas)
Mais questões que varri para debaixo do tapete assim que os créditos iniciais começaram, com as notas musicais inconfundíveis do tema de abertura de John Williams. Teve produção e argumento de John Hughes, nome que desconhecia na infância e que hoje me fascina. Mas a realização ficou a cargo de Chris Columbus, que também deu uns retoques ao argumento – toda a história com o misterioso vizinho barbudo terá sido ideia dele, e é das coisas que continua a funcionar bem. Apesar de Hughes ter demonstrado grandes qualidades enquanto retratista das relações humanas (revi muito recentemente Planes, Trains and Automobiles [Antes Só Que Mal Acompanhado, 1987] e continua óptimo), aqui estava mais interessado nas componentes do “filme de família”.
No entanto, a impressão dada pela revisão é que o primeiro Home Alone é mais sóbrio e menos histérico do que pensava. O confronto com os ladrões, que eu considero a parte menos interessante, é na verdade uma pequeníssima porção do filme (mais ou menos 15 minutos). Mas parece ser sempre o que vem à baila quando nos lembramos do pequeno Kevin. E eu gosto muito de slapstick, mas o que é proposto aqui é tão feliz consigo próprio que acaba por se arrastar e – erro crasso – não ter graça. Lembro-me que, daquela última vez, rodeado pela família, essa sequência não arrancou risos a ninguém. Será que hoje funcionaria em cinema?
Não quero deixar tudo para esta primeira carta, mas diria que Home Alone revelou-se para mim um filme-electrocardiograma: se fosse uma pessoa estava óptimo, com tudo no sítio, as pulsações certas, o coração saudável. Mas não tem nenhum momento realmente entusiasmante… e por outro lado, não tem nada realmente repulsivo. Vê-se agradavelmente, com algumas coisas dignas de nota. Apreciei mais as dinâmicas familiares – admirável a execução das cenas com todos os elementos dos McCallister, e a cada momento aparece mais um miúdo que não tínhamos visto. O melhor que fica do filme é o humanismo, aquele lado sentimentalóide que, como alguns críticos apontaram na altura da estreia, parece ter sido premeditado para forçar a entrada de Home Alone no cânone dos clássicos natalícios.
Não falei daquilo que mais gostei de reencontrar, e que me fez mesmo soltar umas valentes gargalhadas: a inclusão do filme fictício “Angels With Dirty Souls”. Mas já me estiquei muito, fica para uma próxima carta.
Um abraço
Rui

Olá Rui, olá Susana!
Este convite tem um lado muito interessante, que é forçar-me a pensar no Home Alone como um filme com princípio, meio e fim. Tal como tu, Rui, que foste “apanhando bocados na televisão”, ao longo dos anos, de um filme que se “entranhou na cabeça sem gostares particularmente”, também eu sinto que esta holiday comedy do Chris Columbus habita a minha memória como os sonhos de abóbora que certamente estarão na mesa dos doces na véspera e dia de Natal, sem precisarem de frigorífico.
Isto para dizer que, de facto, o Home Alone tornou-se uma experiência de filme análoga à lógica dispersa das plataformas, com a diferença de que ninguém se dá ao trabalho de puxar para trás e vê-lo ou revê-lo por inteiro. Umas trinquinhas basta.
Não o fui (ainda) rever, por falta de tempo e porque, para já, prefiro pisar um pouco esta manta de retalhos que é a memória imagética. Por exemplo: ia jurar a pés juntos que a minha sequência preferida do filme é a da senhora dos pombos em Central Park (que, por sua vez, me recorda aquela outra com o belíssimo tema Feed the Birds em Mary Poppins [1964]), mas depois, pesquisando, percebi que essa imagem calorosa que guardo na retina pertencia ao Home Alone 2: Lost in New York (Sozinho em Casa 2: Perdido em Nova Iorque, 1992)!
Isto para dizer que, de facto, o Home Alone tornou-se uma experiência de filme análoga à lógica dispersa das plataformas, com a diferença de que ninguém se dá ao trabalho de puxar para trás e vê-lo ou revê-lo por inteiro. Umas trinquinhas basta. E acho que isso foi uma consequência da repetição televisiva: tornou-se bibelô de Natal e foi perdendo o valor de reunião no sofá; aquele momento em que tendemos a baixar as luzes da sala e realmente criar um compromisso com o filme que estamos a ver, em vez de o espreitar pelo canto do olho enquanto abrimos presentes, rindo de uma ou outra traquinice.
Hei-de rever o Home Alone ainda em tempo útil, mas começo por deixar estas divagações.
Abraços

Olá aos dois de terras de sua majestade,
Escrevo-vos de um cantinho quente no Barbican. São apenas 15h mas já está a anoitecer. Estou entre amigos e cafés quentes. E, no meio de todo este abraço, estou a pensar sobre o Home Alone. Confesso que fiquei ainda mais entusiasmada para este desafio quando li a tua carta Rui, e agora a tua Inês, porque me apercebi que a minha relação com o filme é ligeiramente diferente. Eu vejo-o de uma ponta à outra todos os anos. Agora se estou a ver o filme enquanto filme que é, certamente que não. Acho que nunca o vi desse prisma. Nunca me foi permitido. Quando o vi pela primeira vez, já vinha “poluído”. Vê-lo já era viver o Natal e os padrões ritualistas que o confirmam.
Não sei como será o Natal nas vossas casas, mas em casa dos meus pais, we go all out! O meu pai era um verdadeiro amante do Natal, e agora fazemos tudo outra vez, todos os anos, a pensar nele. A casa é mergulhada em pontos de luz, dentro e fora, todas as centenas de objectos relativos à quadra são expostos, e a árvore é colocada na sala ainda em Novembro. E normalmente todos os anos, os meus pais vinham a Londres comprar mais coisas para nela colocarem. Arrisco-me a dizer que nenhuma outra cidade é mais obcecada com o Natal do que esta. Nem mesmo Nova Iorque! O Natal é londrino. Há quem fale do aspecto capitalista da época, há quem se refira ao paganismo da população, há quem fale da influência ainda presente de Príncipe Albert (marido alemão de Rainha Victoria), ou de como a magia Dickensiana verteu para a realidade. Mas confesso que as razões não interessam. Há uma energia no ar, palpável, assim que se pisa as ruas da cidade. E essa energia replica uma vontade contagiante em viver! Tudo é encantatório até com os ventos gélidos, as constipações, e a falta de luz diária. O Natal é, mais do que tudo, a possibilidade de nos sentirmos embrulhados num bálsamo intensificador de esperança. Basta isso para continuar em frente, não?
Isto tudo para dizer que eu vejo o Home Alone todos os anos, sem perder um único diálogo, sentada no sofá com toda a família. Normalmente não vemos a transmissão televisiva, porque senão o filme fica reduzido a pedaços e a minha mãe também tem tendência a ficar nervosa quando o filme não passa à mesma hora todos os anos. Durante muito tempo, sabíamos que podíamos contar com ele e quando. Mas com os anos, começou a diferir. Até haver um ano em que só passaram o Home Alone 2. E desde aí mudamos de estratégia. Agora, vemos em DVD e depois do almoço de dia 25, que é quando estamos mesmo todos juntos. Há quem adormeça e não o veja todo. Há quem esteja a ler ou a conversar. O meu pai nunca o via completamente, mas ouvia-o todo. O cadeirão onde se costumava sentar estava virado para a lareira, que está no lado oposto da sala. Então ele ia virando a cabeça nas partes que achava mais bonitas, como aquele momento na igreja em que Kevin diz ao “Old Man” Marley para “ligar as luzes na cave” da vida dele e falar com o filho.
Há que dizer que Home Alone é um caso muito particular porque é de todos, como muitos poucos filmes são. Foi feito para isso, não foi? Para ser de todos. Ou seja não poderá nunca ser de alguém. Mas se isso reduz o filme também o exacerba. Porque ao ser de todos, pertence a um sentimento unificador, e por isso mesmo natalício.
Enquanto aqui, tenho esbarrado com o Home Alone em todo o lado. A casa onde Kevin vive está em muitas lojas de legos (entrei em 4, encontrei-a sempre). Há blu-rays do filme na Fopp. A banda sonora de John Williams pode ser comprada em vinil na Rough Trade. Há puzzles com a cara de Macaulay Culkin à venda em mercados aleatórios. Há sessões diárias do filme nos cinemas. Do Prince Charles Cinema, ao Everyman em várias localizações pela cidade, aos multiplexes Vue e Cineworld…e até no cinema do Selfridges (!) há sessões diárias de Home Alone! Mas a real surpresa foi encontrar, na montra de uma loja de streetwear em Soho, 6 ecrãs com a cara de Kevin McCallister a exibirem todos ao mesmo tempo o Home Alone 2. Seria de esperar que o tom do filme destoasse daquela loja em particular. É o tipo de loja onde se podem comprar calças baggy e gorros para serem usados a cair, num misto entre rapper de Harlem e pintor que vive em Shoreditch. Mas não. É ali exibido com orgulho. Faz parte do tecido nostálgico desta altura do ano. Num esforço que é verdadeiramente colectivo, todos os pubs, off-licenses, restaurantes, cafés, lojas unem-se para decorar a cidade. É o Natal enquanto movimento, em vez da habitual paragem e olhar sobre o passado.
Outra coisa que preciso de mencionar antes de ir, vocês falam os dois de memória imagética. O filme enquanto memória, em vez de ser filme primeiro. Será que os filmes são melhores quando passam a ser nossos, e/ou se formam dessa forma em nós, ou será que é o contrário? Quando escrevo, penso muito nisto. Como se desenvolve a relação com um filme. Quando escrevemos sobre um filme visto num visionamento de imprensa ou num festival de cinema, estamos a escrever sobre a memória dele, e não realmente sobre ele. Estamos a olhar para trás, a escrever em retrospectiva. Isso tem mudado com o envio de screeners e o acesso absoluto ao filme enquanto sobre ele escrevemos. A percepção pode agora ser uma de detalhada análise (podemos voltar para a frente ou para trás e parar) e aí o filme são as imagens propostas pelo seu autor. Não temos como entrar nele da mesma forma e manchá-lo com o nosso envolvimento. Mas não é melhor não saber onde o filme começa e onde eu acabo?
Há que dizer que Home Alone é um caso muito particular porque é de todos, como muitos poucos filmes são. Foi feito para isso, não foi? Para ser de todos. Ou seja não poderá nunca ser de alguém. Mas se isso reduz o filme também o exacerba. Porque ao ser de todos, pertence a um sentimento unificador, e por isso mesmo natalício.
E já me alonguei tanto…perdoem-me.
More to come later.
Beijinhos grandes,
Su


Olá Inês, olá Susana!
Percebo perfeitamente o que dizes, Inês, quanto à confusão criada pela memória. Na minha cabeça tenho mais presente essa sequela que o primeiro filme, até porque a senhora das pombas é bem mais marcante que o velhote representativo dessa mesma mensagem humanista. O volume 2 das tropelias do pequeno Kevin é um acumular das fórmulas do primeiro filme, mas com acrescentos. Há uma cena idêntica também com o filme fictício, que até tem mais graça (pelo que diz a minha memória) do que no primeiro Home Alone. Um fenómeno semelhante acontece com o Gremlins 2: The New Batch (Gremlins 2: A Nova Geração, 1990), que por ter visto tantas vezes em VHS, nunca percebi como podia haver tanta a gente a preferir o primeiro.
Isto faz-me lembrar que, há uns dias, conversei com um amigo que me dizia ter ficado decepcionado ao revisitar os dois primeiros filmes de Harry Potter. Foi um alerta para mim: mais vale deixar as memórias e não regressar a alguns lugares onde fomos felizes (tenho uma ligação grande apenas a esses dois tomos da saga do feiticeiro). E talvez o caos mental criado pela confusão dessas memórias seja, por vezes, melhor que os próprios filmes. Talvez isso se aplique a Home Alone. Talvez se algumas pessoas deixassem de o considerar o bibelô que apontas, aproveitando para o ver de uma ponta a outra… chegariam a essa conclusão.
E depois leio as tuas palavras, Susana (e não peças desculpa porque eu estou a reincidir, esticando-me novamente), e tu vês mesmo o filme! E todos os anos! Acho isso mais interessante e divertido do que apenas ter o Home Alone como dado garantido, ali a passar com o som desligado enquanto a família conversa ou trata do jantar. E sim, concordo com essa ideia do Natal possibilitar que nos sintamos “embrulhados num bálsamo intensificador de esperança”. É também o que me faz continuar a gostar da quadra. E que bonita essa dinâmica familiar!
Gosto quando os filmes têm esse poder nas pessoas, esse simbolismo em que as imagens deixam apenas de o ser: fazem parte do ritual, da convivência. (…) Um filme não se entranha no subconsciente colectivo assim sem mais nem menos…
O Home Alone representa, para ti, o tal conforto de que eu falava na primeira carta. Gosto quando os filmes têm esse poder nas pessoas, esse simbolismo em que as imagens deixam apenas de o ser: fazem parte do ritual, da convivência. Este ano a tua mãe não precisa de se preocupar: acredito que há vários canais a transmitirem o filme em diferentes horários.
Volto ao momento da igreja, que referiste e que é, de facto, ternurento (mas repito, sou mais da equipa da senhora das pombas!). Essa conversa parece mesmo apontar para que o filme se torne num clássico natalício. Se foi calculado ou não, o que é certo é que funciona – e foram esses momentos humanos que me conquistaram mais nesta revisão. Isso e, claro, aquele momento em que o Kevin consegue fingir que tem gente em casa.
Quanto à presença de merchandise derivado de Home Alone… é o efeito do seu impacto crescente na cultura popular. Mas por outro lado, eu farto-me de ver produtos com a cara do Snoopy e nunca me canso de olhar para aquele focinho (quem me dera ser herdeiro do senhor Schultz…). Talvez a obsessão à volta de Kevin acabe um dia (nada dura para sempre, apesar da insistência dos grandes estúdios em trazerem comida requentada à volta de personagens já com décadas) e seja substituído por outro filme.
E concordo contigo ainda na ideia da escrita sobre um filme ser sempre a nossa memória. Filmes como Home Alone é que tornam essa perspectiva mais difícil pela sua presença tão forte entre toda a gente. Mas sim, isso não o reduz, torna até mais complexa esta tarefa de se escrever sobre ele apenas pensando naquilo que vimos, e não com o que acumulámos do zeitgeist. E, mesmo tirando isso, por alguma razão ainda falamos dele! Um filme não se entranha no subconsciente colectivo assim sem mais nem menos… excepto por hipnose colectiva.
Outra coisa que retiro de Home Alone é que espero nunca viver numa casa assim, se estiver literalmente sozinho! Já imaginaram? Que horror. Tantas divisões, tanta coisa para limpar… tinha de viver para tratar da casa. Assim que terminasse de limpar o pó da última das divisões, a primeira já estaria novamente irrespirável.
Dois abraços e boas festas!
Rui

Susana, obrigada pela carícia de Natal londrino.
Rui: Gremlins 2: The New Batch!!
Fiquei prostrada de encanto com as vossas missivas. Nem sei bem por onde começar, mas acho que devo esclarecer que sou uma criatura natalícia. Gosto imenso de ler Dickens e derivados à lareira, ou ao pé do aquecedor, de rever as curtas de Wallace & Gromit enquanto como torradas de pão caseiro com chá, de ir à procura de filmes raros ou esquecidos, alusivos à época e escondidos nas plataformas, para fazer artigos de jornal com propostas frescas para os leitores, e de apresentar clássicos “não higiénicos” aos meus sobrinhos. Nos últimos anos foram os dois Gremlins, precisamente… Ao reler o que tinha escrito, apercebi-me de que pode ter soado cínica a minha postura (sobretudo na comparação com a beleza das palavras da Susana, que vêm enroladas em luzinhas reconfortantes), e não é de todo o caso. Apenas me parece, Susana, que a forma como experiencias o Home Alone com a tua família difere da maioria dos agregados. Esse ritual é precioso.
Há filmes “onde me sinto bem” sem os achar obras-primas (pode dizer-se que é o caso daquele que aqui ocupa a nossa atenção) e outros com os quais mantenho um vínculo de admiração mais “séria”, menos quente. Mas esta relação envolve, de facto, várias coisas e nuances, desde os filmes em si mesmos a uma determinada sensibilidade do momento, um estado de espírito só nosso.
Já agora, por falar em omnipresença de Home Alone, no outro dia consegui uma horas para ir fazer compras de Natal e qual não foi o meu espanto quando vi na Zara toda uma coleção de roupa dedicada ao filme! Um casaco de malha, uma sweater, cachecol, calças… eu sei lá. Escusado será dizer que pensei logo em vocês e nesta nossa conversa erudita.
Ponto assente, como já foi reforçado pelos três, é que o Home Alone se confunde com uma experiência caseira numa determinada época. Nesse sentido, gostava de saber como seria vê-lo numa sala de cinema, havendo tantas sessões à disposição em Londres. O que me leva também à interessantíssima questão colocada pela Susana sobre a nossa relação com os filmes e o contexto em que os vemos. Esse é um eterno jogo de forças para mim: há filmes “onde me sinto bem” sem os achar obras-primas (pode dizer-se que é o caso daquele que aqui ocupa a nossa atenção) e outros com os quais mantenho um vínculo de admiração mais “séria”, menos quente. Mas esta relação envolve, de facto, várias coisas e nuances, desde os filmes em si mesmos a uma determinada sensibilidade do momento, um estado de espírito só nosso.
Para terminar com nota justa, quero deixar-vos com a sugestão de um filme que vi há uns anos e ficaria bem como primo snobe de Home Alone. Chama-se The Fallen Idol (O Ídolo Caído, 1948), é realizado pelo Carol Reed, a partir de um conto do Graham Greene, e tem um miúdo, filho de um embaixador em Londres, perdido num mistério que envolve o seu adorado mordomo. É um brilhante ensaio espacial, dentro e fora da embaixada. Será que viram? Está na Netflix. Entretanto, perdoem-me não ter revisto Home Alone para corrigir os termos da memória. Fica para uma próxima.
Feliz Natal
Inês


Queridos amigos, olá!
Acreditam que nunca vi o Gremlins 2? Preciso de corrigir isso. E quanto a segundos filmes, isso é tão curioso. Normalmente fico com receio quando uma sequela é anunciada – tenho medo que contamine a essência do primeiro, mas por vezes conseguem ser melhores! É verdade. E o caso do Harry Potter que apontas, Rui, é mesmo certeiro. Os dois primeiros, ambos filmes de Chris Columbus também, são mais infantis e inocentes – sempre achei o primeiro um bom filme de Natal! A fasquia eleva-se finalmente com o terceiro. Ninguém melhor que Alfonso Cuarón para equilibrar a luz e a escuridão e encontrar a essência daquele mundo. Como dizes, às vezes é melhor não regressarmos aos lugares onde fomos felizes. Nunca parecerão iguais, mas eu tenho tendência a querer fazê-lo só para ver onde me encontro. É mais esclarecedor, e indolor, do que ver fotografias antigas.
E com isto, ocorreu-me que se fosse possível programar o filme nas salas de cinema, conseguiríamos entender como é que o filme e a percepção que temos dele muda quando o vemos numa sala de cinema em vez de em casa na televisão. (…) Home Alone é a tal lareira cinemática, mas só nos aquece se quisermos.
E a tua descrição tão idílica Inês – fico mesmo feliz por encontrar outra criatura natalícia! – fez-me pensar em algo que um amigo me disse quando me mudei para o Porto para um pequeno estúdio aos 18 anos. Estava tanto frio lá dentro e eu dizia-lhe que gostava de abrir a parede e lá colocar uma lareira (como a que tinha em casa), ao que ele respondeu: “vamos ligar o aquecedor e colocar um filme de Natal. É o mais próximo que lá chegaremos por agora.” Tantos anos depois, penso sempre nisso durante o Inverno. Ainda não tenho uma lareira onde vivo, mas tenho os filmes! E eles têm-nos a nós.
Home Alone tem-me há muito tempo. E às vezes esqueço-me do impacto que tem sobre todos. Esqueço-me que é só um filme, sabem? Está mesmo em todo o lado, até na Zara!
E com isto, ocorreu-me que se fosse possível programar o filme nas salas de cinema, conseguiríamos entender como é que o filme e a percepção que temos dele muda quando o vemos numa sala de cinema em vez de em casa na televisão. Tenho a certeza que o feedback que teríamos dos espectadores – alguns certamente nunca viram o filme nesse contexto – iluminaria caminhos.
E depois tem muito a ver com o estado de espírito, como a Inês menciona. Home Alone é a tal lareira cinemática, mas só nos aquece se quisermos. A história sempre me surpreendeu na maneira como me faz pensar nos clássicos de animação da Disney, sempre com um pé no mundo adulto. Aquela é uma casa de família, estruturada para sentirmos o peso dela, uma noção de segurança qualquer. Ali, até um miúdo que fica sozinho em casa, está seguro. Mas estará mesmo? Kevin não estava seguro afinal, mas estava sozinho como há muito tempo ansiava estar. A questão que me persegue continua a ser: como se lembrará Kevin, o adulto, daquele tempo?
Inês, como tu, também não revi o filme durante esta troca de cartas. Mas irei voltar a vê-lo pelo Natal que está aí à porta, e quando estiver estarei a pensar em vocês. Vês o que fizeste, Rui, ao sugerir que pensássemos no Home Alone? Mudaste a relação que temos com ele 🙂
E que bom que nos falas de The Fallen Idol, Inês. É do Carol Reed, ainda por cima! Fui logo pesquisar textos escritos sobre o filme e que surpresa ter encontrado uma passagem que poderá dizer muito também sobre a nossa experiência colectiva com o Home Alone ao longo dos anos:
“What it is like to see The Fallen Idol for the first time as an adult it is hard for me to imagine; seen in childhood, it was like a door swung ajar—whether deliberately or not—to reveal an adult world not yet suspected.”
Double bill it is.
Feliz Natal e dois grandes abraços!

Home Alone será exibido na SIC hoje, dia 25 de Dezembro, às 21h30. Também pode ser visto na plataforma de streaming Disney +.
