Um dos meus maiores prazeres é ler livros sobre cinema. Especialmente biografias que se concentram no entorno do set. Tenho amigos que têm a relação oposta com livros de cinema e se irritam com aqueles que se distanciam da crítica. Da minha parte, eu aprecio os esforços informativos de historiadores, entre outras coisas, porque ter parte da produção de filmes que eu gosto iluminada por vezes ajuda o meu trabalho. É uma pena que seja bastante raro encontrar livros como The Adventures of Robert Rossellini, do Tag Gallagher, que são exemplares tanto enquanto crítica como informação. Na minha experiência, os melhores críticos que se aventuram a escrever livros sobre artistas raramente têm a melhor paciência e/ou condições de pesquisa e quem tem o temperamento para o segundo, tem com frequência as opiniões mais entediantes do mundo. Uns meses atrás, dei um curso sobre Charles Chaplin aqui no Brasil, e foi muito útil para a última parte reler boa parte de Charlie Chaplin Vs. America: When Art, Sex, and Politics Collided, um livro muito bom focado na carreira pós-Modern Times (Tempos Modernos, 1936), do biógrafo profissional Scott Eyman, uns dois anos atrás – e quando digo a maior parte é porque no momento que ele começava a dar sua opinião sobre Monsieur Verdoux (O Barba Azul, 1947) ou A King in New York (Um Rei em Nova Iorque, 1957) eu avançava as páginas. Uma experiência muito comum nesses livros.

Autobiografias sofrem de um outro par de problemas: o misto de mitomania de artista com o facto da maioria deles achar o set de filmagens alérgico a bons causos. A autobiografia de Chaplin é muito boa de se ler (e, segundo seu melhor biógrafo, David Robinson, surpreendentemente factual), mas ele faz tudo menos falar sobre o seu trabalho. Fazia tempos que não tínhamos uma autobiografia tão boa quanto Scene, que Abel Ferrara lançou no mês passado nos EUA, o que é bom para mim porque Ferrara é um dos meus cineastas favoritos em atividade há quase trinta anos. Não se resolvem totalmente estes dois pontos, mas Ferrara é autodepreciativo demais para a mitomania ser prevalente e Scene é bastante rico na crônica de um cineasta lidando com a indústria.
É um livro dividido em dois temas, parte dele é a história de um viciado em drogas (e por muito tempo Ferrara era muito mais famoso pelos seus excessos do que pelos seus filmes) e diário de um artista lidando com investidores, produtores e atores enquanto procura permanecer viável. Há alguns capítulos dedicados aos seus anos de formação e outros do seu começo na indústria, mas a parte principal do livro cobre o começo dos anos noventa, quando o vício do cineasta se intensificou até ele finalmente se livrar dele no início da década passada. Ferrara termina dedicando muitas páginas à realização de Welcome to New York (Bem-Vindo a Nova Iorque, 2014) e Pasolini (2014), os dois primeiros filmes que ele rodou sóbrio, e o livro se encerra cronologicamente mais ou menos com ele conhecendo sua atual esposa no set do segundo.
Se alguém quiser, é possível extrapolar o fim do livro com Tommaso (2019), o filme semi-autobiográfico que ele lançou em 2019, com Willem Dafoe interpretando um cineasta americano em auto-exílio em Roma, após anos de vício, rodado no apartamento de Ferrara com sua esposa e pequena filha como versões ficcionais delas mesmas. Tommaso era um filme ao mesmo tempo sereno e chocado por estar ali, e Scene é uma crônica de sobrevivência. Um livro sobre duas coisas: usar volumes absurdos de drogas e fazer filmes, que matam, lançado por um homem que ainda se surpreende por ter chegado aos 74 anos.
Os capítulos sobre vício são tocantes e bem ásperos nos detalhes. Ferrara é um ótimo contador de causos que sabe quando aliviar e envolver o leitor com algo: como jocosamente mencionar, após um produtor o tentar convencer a se internar no fim dos anos noventa, que o sindicato dos diretores americanos oferece um dos poucos planos de saúde que incluem clínica de reabilitação. Quando finalmente se liberta da droga, em Itália, quinze anos depois, aproveita para reforçar que a maior parte dos viciados que conheceu nos Estados Unidos jamais seria capaz de pagar aqueles custos de saúde.

Se Ferrara é uma figura charmosa, não há nada de simpático nas descrições do Ferrara viciado, os episódios de prisão e procura desesperada por traficantes, crises de abstinência, etc. Tudo isso é bastante patético. O livro presta uma atenção enorme às pessoas que ele conheceu e que não sobreviveram. Um dos capítulos principais é dedicado a The Funeral (O Funeral, 1996), e é menos sobre o filme do que sobre sua relação com o ator Chris Penn, que morreria uma década depois, e por que razão tiveram eles destinos diferentes. É um livro escrito em retrospectiva por alguém que duvida da justeza da sua sobrevivência.
A outra parte do livro, imagino que desperte mais o imaginário cinéfilo, mas é inseparável da primeira e de como Ferrara se perseverou na indústria apesar de tudo. No próximo ano completam-se cinquenta anos do primeiro longa de Ferrara e ele segue trabalhando com uma regularidade muito maior que a maioria dos seus pares. Ferrara começou a carreira dirigindo um filme pornô, passou os anos oitenta trabalhando nos últimos dias das produtoras de filmes de gênero independentes, se reinventou como autor cult de filmes ousados, geralmente policiais, a partir de King of New York (O Rei de Nova Iorque), em 1990, e depois, em meados da década seguinte, passou a trabalhar com financiamento europeu, voltando de vez o foco para o circuito de festivais. A despeito disso, pode-se pegar Ms. 45 (Vingança de uma Mulher, 1981), The Addiction (Os Viciosos, 1995) ou Zeros and Ones (2021), condições materiais e suposto público-alvo muito diferentes. O único arco de carreira minimamente próximo no cinema norte-americano do período é o de David Cronenberg, que similarmente se moveu do cine-poeira para a respeitabilidade sem alterar substancialmente o que fazia, mas o canadense teve muito mais sucesso de público e crítica, para avalizar isso. E quando se soma o facto dele ter sido uma pessoa pouco funcional por uma parte razoável desses anos, impressiona ele ter realizado até ao momento 25 longas de ficção (e vários documentários), mesmo que não mais de uns cinco tenham dado retorno à época.
Ferrara não passa muito tempo falando do set, apesar de existirem algumas passagens muito boas sobre as filmagens de New Rose Hotel (1998) e Welcome to New York. Por outro lado, há muito sobre como os filmes aconteceram. Lidar com gangsters em 9 Lives of a Wet Pussy (1976) ou Vincent Mereval da Wild Bunch não é afinal tão diferente assim. Um dos capítulos mais longos é sobre Body Snatchers (Violadores: A Invasão Continua, 1993), seu único filme feito para um grande estúdio, e o processo infernal de lidar com a Warner Brothers nos anos noventa. Ele conta, por exemplo, o episódio em que se encontrou com Jack Finney, o autor do clássico de ficção científica já filmado em 1956 e 1978, e o súbito pânico dos advogados do estúdio. E se o escritor, que vendeu os direitos nos anos cinquenta, resolver tentar extrair uns trocados a mais? Qualquer ganho de mantê-lo envolvido aparentemente não vale a mixaria economizada.

No final, o estúdio perde tanto a confiança no filme que Ferrara consegue escapar quase ileso com sua versão preferida, à parte algumas alterações no prólogo e epílogo. Uma última nota maravilhosa: Body Snatchers terminou como o único filme de Ferrara a participar da competição de Cannes depois dele pessoalmente o ter inscrito, para o horror do departamento de vendas da Warner que passa a ter um filme a marca negativa de ser “um filme de arte”, o que atrapalharia sua inserção nos mercados alternativos como o Brasil, onde eles esperavam reduzir as perdas. Um contraste enorme com o momento atual onde estúdios americanos parecem sempre desesperados em convencer que os filmes mais tolos devem ser levados a sério.
Para além de causos envolvendo conseguir drogas, os episódios mais recorrentes de Scene são descrições de encontros com atores. Ferrara sabe bem que a disposição de atores de trabalhar com ele é essencial para que sua carreira siga viável. Um bom critério para observar que diretores tidos como intransigentes têm carreiras mais longas é se perguntar com quais deles os atores têm prazer em trabalhar. Ferrara, apesar do jeito ríspido e de poucos amigos (há muitas histórias aqui dele arruinando as coisas por pirraça), é um desses que os atores visivelmente amam. O diretor é bastante honesto sobre essas relações de poder. Há, por exemplo, uma descrição ótima de um encontro com Juliette Binoche e a sua percepção de que era ele quem precisava se vender ali. Dos dois filmes mais famosos de Ferrara, King of New York e Bad Lieutenant (Polícia sem Lei, 1992), entram quase somente dois encontros com Christopher Walken, para convencê-lo a fazer o primeiro filme e depois ele, que concordara em fazer o segundo, lhe informando “agora que sei o que você quer, isto não é algo que eu possa te dar”.
Um dos maiores capítulos é sobre o longo ano em que passou como diretor ligado a Carlito’s Way (Perseguido Pelo Passado, 1993), que ele, em retrospecto, vê como esquentando a cadeira para Brian de Palma. É uma das passagens mais cáusticas do livro, apesar de, no geral, ele ser bem mais simpático com Al Pacino do que com o produtor Martin Bregman, ao roteirista David Koepp e ao filme que De Palma faria. É sobre ser a pessoa com menos poder numa produção. Muito sobre suas frustrações com as alterações sucessivas no projeto e de como, por mais que Pacino gostasse o suficiente de King of New York para lhe oferecer o emprego, ele terminava deixando seu produtor e agente de longa data ter a palavra final.
Uma das vantagens de um livro como esse é ter acesso a como o artista pensa de forma prática muito do que nós, como espectadores, tendemos a intuir. Uma recorrência no livro é como Ferrara pensa dramaticamente. Indo contra o truísmo segundo o qual o melhor é adaptar livros falhos, Ferrara gosta de filmar ficções de que ele gostou e tentar traduzi-las para o cinema. Isto é bastante óbvio quando se assiste New Rose Hotel, que é surpreendentemente próximo ao conto original de William Gibson. No caso de Carlito, seu olhar é claro: “o livro é ótimo, o nosso roteiro capta-o bem e o nosso produtor segue alterando-o para pior”. Ele se irrita especialmente com a decisão de mudar a ação de 1975 para o presente, porque “traficar cocaína nos anos 70 e nos anos 90 não é a mesma coisa” e com a escolha de Sean Penn “porque a história se enfraquece se os dois personagens centrais não são contemporâneos”. O segundo ponto, em principal, reforça um olhar para a dramaturgia que nem sempre é ligado a ele.

E o primeiro reforça uma obsessão por autenticidade. Ele, por exemplo, se mostra muito orgulhoso de rodar cenas de Mary (Maria Madalena, 2005) em Jerusalém, ao contrário da maior parte dos filmes que dialogam com o evangelho. Boa parte da última parte do livro é sobre sua luta para garantir que Welcome to New York seja lançado na íntegra, que de novo retorna a uma questão de poder. Um homem poderoso cometeu um crime e, se é para fazer um filme sobre o assunto, deve a vítima colocar os pontos nos is, enquanto os financiadores estão mais do que felizes em explorar o caso, mas sempre protegendo-se sob a desculpa da ambiguidade. No cinema, o artista está sempre negociando com figuras de poder para tentar passar um mínimo dessa autenticidade. Scene acaba falando bastante de como Ferrara sobreviveu a essas negociações constantes, vencendo com alguma frequência e, no processo, ilumina bastante os seus filmes.
