(Este texto contém spoilers)
Lembro-me de há muitos, muitos anos, numa galáxia distante, um professor de história de arte gótica dizer numa aula: “Não percebo essas pessoas que se vestem de preto e dizem ser góticos; gótico é luz! Gótico é LUZ!”. Estranhamente, veio-me isto à mente enquanto via Ballad of a Small Player (Balada de um Pequeno Jogador, 2025) de Edward Berger, baseado no romance epónimo de Lawrence Osborne. Aqui há algum gótico (embora menos que no livro), mas em vez de escuridão, temos um banho constante em luz artificial a permear as sombras humanas.

Ainda que em Portugal tenha estreado directamente na Netflix, Ballad of a Small Player merecia ter tido exibição em sala, como aconteceu noutros país. Este filme tem algo de cinefilamente familiar, começando com Macau como refúgio de almas perdidas. Macao (Macau, 1952) de Sternberg será a referência mais óbvia, mas temos também o anterior Macao, l’enfer du jeu (Labaredas, 1942) de Jean Dellanoy, ou A Última Vez que Vi Macau (2012) de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata. Todos eles usam os espaços interiores e exteriores dos casinos como ambientes fulcrais para o desenrolar das narrativas de humanos complexos. Ballad of a Small Player não é excepção, mas a sua genealogia cinematográfica não é somente Macau-cêntrica. O Lorde Doyle de Colin Farrell é descendente em linha directa da personagem de Nicholas Cage em Leaving Las Vegas (Morrer em Las Vegas, 1995) de Mike Figgis, com laivos do Sinatra de Man with the Golden Arm (O Homem do Braço de Ouro, 1955) de Otto Preminger. E claro, não descartemos o material base: a personagem criada por Lawrence Osborne – com a sua dependência, culpa e vergonha – é familiar a outros trabalhos seus, incluindo um adaptado ao cinema há poucos anos, The Forgiven (2021, de Michael McDonagh). Nas palavras do próprio Osborne, Lorde Doyle tem também um quê de autobiográfico (embora o Lord tenha sido inspirado pelo nome da famosa casa de pastéis de nata de Macau “Lord Stow’s Bakery”).
Voltemos, contudo, às luzes e sombras. Estas são atmosféricas e espaciais, mas também, sem grandes surpresas, metafóricas. O glitter e o bling estonteantes dos mega casinos das últimas décadas, como o Venetian, o Londoner, ou o Wynn Palace, onde nunca se adormece e onde “se pode ser quem se quiser”, contrastando com a escuridão da beira-água, ou a noite iluminada a chamas do templo de Tin Hau em Coloane (este último representado aqui de forma demasiado orientalista). Contrastando, acima de tudo, com as sombras do protagonista. No entanto, todos eles – espaços e humano – são, à sua maneira, fantasias. Lorde Doyle nem é Lorde nem é Doyle. Esconde-se exibindo-se, tudo nele uma mentira. Até que duas mulheres o vêem.
Uma, Dao Ming (Fala Chen), é uma intermediária que dá crédito a apostadores falidos e será a “anjo da guarda” de Lorde Doyle. A salvação que lhe oferece é a fantasia suprema, dado que Dao Ming pode nem ter existido, um fantasma na época dos espíritos, que é também o cliché da mulher asiática que se sacrifica pelo homem branco. Desconhecemos quais os caracteres usados para o nome Dao Ming, mas queremos imaginar que seja algo como 道明 ou 道命, aludindo para o caminho do destino ou da luz.
A outra mulher é Cynthia, aka Betty, uma Tilda Swinton a divertir-se como investigadora privada que traz a Lorde Doyle não o futuro, mas as lembranças dos pecados originais do seu passado que preferia esquecer. Swinton dá-nos também um dos momentos mais loucos, e por isso mais memoráveis, do filme: a dança dos créditos finais com Farrell, uma fantasia musical que descarta a introspecção mórbida de Doyle-Dao Ming para uma explosão de vida (falsa também, claro, como só o cinema nos dá).
Há fé cinéfila aqui: a irracional simpatia pelos acabados, a crença no lado bom dos marginais
Ballad of a Small Player nunca se leva demasiado a sério, e isso é bom. Há um humor auto-crítico e um sentido de ridículo quase clássicos, que emergem claramente nas cenas com a grande Deanie Ip e Alex Jennings. Ip rouba todas as cenas em que aparece como a “vóvó” rainha do jogo, estoirando a fortuna de um marido que adivinhamos pouco recomendável e insultando Lord Doyle num cantonense graciosamente cáustico. Jennings, que na sua primeira aparição é algo engolido pelo carisma do local onde se encontrava (nada menos que a actual residência oficial do cônsul de Portugal em Macau, antigo Hotel Bela Vista), diverte na sua reinvenção como Príncipe Lorenzo – outro bobo na cidade da diversão, um duplo cómico de Reilly/Lorde Doyle. Embora mais discreta, é de referir também a breve aparição de Anthony Wong, extraordinário actor de Hong Kong que surge para travar – e depois permitir – a sorte grande sobrenatural de Lorde Doyle.
Dizíamos que Ballad of a Small Player não se leva demasiado a sério. Contudo, também não é completa paródia. Há fé cinéfila aqui: a irracional simpatia pelos acabados, a crença no lado bom dos marginais (aqui tanto as personagens de Farrell como Chen, como Swinton – aquela dança final é um vencer da liberdade contra os constrangimentos da profissional certinha).
Ainda que o livro seja bem melhor a criar uma sensação de fantasmagoria, sentimos que o filme nem o quis tentar: cinema é arte visual acima de tudo, e por isso a cor importa mais aqui. E há planos bem bonitos, como a iluminação difusa de duas janelas desiguais ou o pote de chá no chão da casa-barco de Lamma Island, enchendo com a chuva (ir)real e talvez, talvez, um piscar de olho rápido a Ozu. Tanta conversa de milagres afinal não enjoa tanto como a luz artificial ou os banquetes bulímicos de Lorde Doyle. Se não se acredita em milagres no cinema, não se acredita neles ponto.
Ballad of a Small Player pode ser visto na Netflix.
