Depois de um longo interregno de oito anos, Kathryn Bigelow regressa a territórios familiares, mas, contrariamente às expectativas criadas pelo tema escolhido, não o faz com uma enorme explosão, mas com um filme que vai desarmando a sua própria resolução, dominado por um sentimento de vazio e impotência, até ao horror final.

O resultado é um filme menos contagiado por uma tensão dramática imediata, que cresce com sequências de acção, e mais um filme subjugado a uma espécie de puzzle procedimental e burocrático, sobre a forma como a informação é construída. É um regresso às personagens de farda, homens e mulheres, militares e políticos, que têm pautado os últimos filmes da realizadora, como The Hurt Locker (Estado de Guerra, 2008) e Zero Dark Thirty, (00:30 A Hora Negra, 2012), mas longe da procura vertiginosa desses filmes de respostas para tentar salvar um edifício em colapso, e mais próximo dos retratos penosos de K-19: The Widowmaker (K-19: O Fazedor de Viúvas, 2002) e Detroit (2017) – lamentos sobre uma realidade que se instala e da qual não há saída, soterrados perante a opressão da realidade. De certa forma A House of Dynamite (2025) é talvez o filme mais sombrio de Bigelow, mais até do que esse filme que retrata lentamente a agonia das últimas horas de uma tripulação de um submarino condenada à morte depois de exposta à radiação de uma fuga do seu reactor nuclear, como se algo pudesse ser ainda mais desesperante. E é também um filme frustrante a certos momentos, porque contraria as expectativas criadas, mas que ao fazê-lo, leva a discussão para pontos relevantes que de outra forma ficariam em segundo plano.
O primeiro terço de A House of Dynamite decorre em dois espaços essenciais do aparato militar de defesa americano, a White House Situation Room em Washington D.C., e um posto de observação do Missile Defense Battalion, no Alaska, onde radares, satélites e computadores observam o espaço aéreo internacional. Através de sequências detalhadas que trabalham as minúcias que suportam uma disciplina militar e uma organização fortemente hierarquizada, acompanhamos a mudança de turno nestes dois locais de ocupação permanente e entramos na rotina destes homens e mulheres que começam o seu dia, peças na engrenagem de uma máquina supostamente bem oleada. Com um ritmo de montagem rápido, sem tempo para pensar, alternando entre os diferentes locais e utilizando múltiplos ecrãs com informação quase indecifrável, chamadas de videoconferências e linguagem codificada, o filme ancora-se num par de personagens que são dadas a ver através de um olhar empático, com pequenos toques de humanidade mas também com rostos nervosos e de incredibilidade – um espelho onde o espectador se revê.
São figuras, entre comandantes e soldados rasos, que se tornam pequenas face aos ecrãs que lhes fornecem informação, sem poder de agir sobre a realidade que lhes chega, mas apenas tentar interpretar dados, como espectadores de um filme, como passageiros de um comboio em movimento – são colocados como agentes centrais na história que se desenrola, pouco convictos do seu papel e menos ainda do seu destino face a sistemas que vão falhando. A certo ponto, um alerta avisa da detecção de um lançamento de um míssil balístico intercontinental a partir do pacífico, em direção à América – talvez um novo teste, talvez um erro, e iniciam-se os procedimentos de resposta, as medidas de defesa, que sublinham o carácter realístico e quase-jornalístico da abordagem de Bigelow.
Bigelow explora habilmente a ideia da construção da informação e de como esta é falível. Com cada nova perspectiva, a cada novo retrocesso, vamos subindo na cadeia de decisões e importância dos cargos, percebendo as lacunas do que tínhamos visto antes, e como a falta de informação é aqui sinónima de desinformação. Somos aqui também confrontados com a nossa própria situação de espectadores, ao tentar juntar as peças do puzzle. Também nós somos iludidos, porque não temos acesso ao quadro completo.
No entanto, quando chegamos ao momento de possível clímax deste primeiro acto narrativo, o final de uma contagem decrescente de tempo, o filme regressa ao início, mostrando os mesmos acontecimentos através da perspectiva de diferentes personagens. Fica assim estabelecido que o filme procura não a espectacularidade de uma resolução visível e óbvia, mas sim examinar de forma cautelosa e assumir um papel de observador próximo do relato imparcial, enquanto aponta o foco para o funcionamento – e falhanço sistémico – deste aparato, a par da resposta emocional humana, perante tal cenário.
Bigelow explora habilmente a ideia da construção da informação e de como esta é falível. Com cada nova perspectiva, a cada novo retrocesso para rever a história de outro ângulo, vamos subindo na cadeia de decisões e importância dos cargos, percebendo as lacunas do que tínhamos visto antes, e como a falta de informação é aqui sinónima de desinformação. Somos aqui também confrontados com a nossa própria situação de espectadores, ao tentar juntar as peças do puzzle. Também nós somos iludidos, porque não temos acesso ao quadro completo. Isso é particularmente relevante num filme exactamente sobre a importância de verificar a fiabilidade da informação, da sua possível manipulação, de saber preencher as lacunas com experiência e lógica, e de como isso pode ser perigoso – se nem o espectador consegue criar com esta informação dispersa um quadro claro sobre o que está a acontecer, muito menos será capaz de o fazer uma das personagens (mesmo que seja o Presidente Americano).
O segundo episódio do filme explora exatamente essa noção, opondo duas personagens que representam atitudes distintas perante o desconhecido (da origem do ataque, da sua dimensão): de um lado, um jovem político, que por não ter a informação completa, pede cautela (e talvez, salvar o mundo); do outro, um militar, um general mais velho, que como não tem certezas, quer atacar antes de ser atacado (e assim, atirar o mundo para o precipício). É talvez o melhor momento do filme, ao explicitar os dois campos de resposta, que como assume uma das personagens, levam apenas a duas soluções: rendição ou suicídio. Na terceira (e última) repetição, voltamos a subir na hierarquia para acompanhar desta vez a perspectiva do Presidente Americano, do seu Ministro de Defesa, e dos seus conselheiros mais próximos. Se neste episódio, o filme começa a perder ritmo (é a repetição que menos informação nova revela) e torna-se mais sentimental (nas comunicações do Presidente e do Ministro com as suas famílias, por exemplo), é também o mais aterrador, por deixar claro um paradoxo: para uma hierarquia tão bem definida, em que cada um tem o seu pequeno papel e é substituível, há uma total impreparação para a incerteza ou informação imperfeita; e ao mesmo tempo, uma total dependência na decisão final de uma só pessoa, dependendo do seu bom senso e lógica. Fica clara a total falta de preparação do Presidente, que nunca recebeu treino para uma situação destas (um Presidente que ensaiou mais vezes atirar uma bola de basquete para uma photo op, do que para cenários de resposta a uma crise nuclear), nem tem aconselhamento adequado – o império vai nu, e como o próprio afirma, it’s insanity.
Se o filme de Kubrick, Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (Dr. Estranhoamor, 1964), deixou claro o paradoxo da insanidade da destruição mútua assegurada como forma de defesa, a comparação mais próxima é com outro filme do mesmo ano, Fail Safe (Missão Suicida, 1964), de Sidney Lumet. Esse filme curiosamente retrata uma situação inversa ao filme de Bigelow: por causa de um acidente, os EUA lançam um míssil com uma bomba nuclear em direção à União Soviética, e têm de os convencer que foi realmente um acidente, ao mesmo tempo que procuram ajudar a impedir o ataque – um acidente mais tarde sabemos, provocada pela decisão de um computador. Nesse filme sobressai precisamente a preparação do Presidente Americano, e do seu aparelho militar, para responder a uma crise, com o foco na falibilidade do homem, influenciado por uma sucessão de falhanços do sistema. Com A House of Dynamite, Bigelow, ao colocar-se num campo próximo do documentário, na busca de uma fidelidade máxima à realidade, procura chamar atenção para os factos retratados, anulando-se (uma redução que aproxima o filme demasiado do formato televisivo) na tentativa de diminuir o espaço para especulação e obrigar-nos a encarar esta possibilidade, sem escapatórias. É o realismo como uma força de representação poderosa que é incontornável, que procura primeiro estabelecer uma realidade, para depois questionar um modo de funcionamento.
É compreensível uma certa frustração com um filme que não nos mostra o seu evento cataclísmico, especialmente quando promete a espetacularidade mórbida de uma explosão nuclear numa cidade americana, e ainda por cima quando, por causa de uma narrativa que revê o mesmo período de tempo segundo três perspectivas diferentes, repete assim por três vezes essa declinação. Mas A House of Dynamite segue em absoluto uma estrutura clássica de desenvolvimento/avanço da narrativa em três actos, com uma conclusão no final: apenas é, ao invés do prometido ou esperado, uma resolução de completo estarrecimento perante a banalidade do esvaziar da capacidade de resposta humana, do ecoar do silêncio, da falta de qualquer possibilidade de redenção e de como isso é mais perturbador do que qualquer cenário apocalíptico.
★★★☆☆
