“Não nos podemos esquecer que um filme é um produto”, ouvi eu recentemente, e não consigo parar de pensar nas ramificações implicativas que essa frase tem. Especialmente depois do anunciar da compra da Warner Bros. por parte da Netflix. Se partirmos do princípio de que um filme é algo criado, produzido e programado para satisfazer uma necessidade ou um desejo em falta num mercado, como poderemos alguma vez esperar depararmo-nos com o intangível, incompreensível, intragável até outra vez? Como poderá alguma vez nascer um fenómeno, e por fenómeno falo de algo primeiramente sem rosto, e abrir as portas para qualquer evolução dentro da indústria? Já para não dizer também que se um filme for semeado e cultivado apenas de acordo com os índices de procura, como a penca na altura do Natal, como garantir que outros vegetais que nem sequer conhecemos ainda possam vir a existir, que é o mesmo que dizer como ajudar a que o não-conformismo vigore? Ouve-se tanto sobre construir mais e mais casas, mas há um número indizível (de tão grande) de habitações vazias. O que se faz com elas? Podemos entrar por elas dentro? Podemos ocupar propriedade privada quando o mundo nos cair em cima, e o fim dos tempos fizer perder as arestas do que passa a ser um produto quando era, na génese, uma necessidade básica? O trajecto da carreira de Noah Baumbach, o realizador nova-iorquino que surge em 1995 com uma mordida mais amena mas não menos neurótica de um cinema sob o efeito de Woody Allen e Whit Stillman, fará sentido aqui e contará a história por nós. Com o seu mais recente filme Jay Kelly (2025) a centrar as coisas.

Jay Kelly é, de facto, e volto à palavra nefasta, um produto. Mas não se poderá dizer que o cinema perdeu o norte por causa dele. Quando Jean-Luc Godard diz, referenciando D.W.Griffith que “tudo o que precisamos para fazer um filme é de uma mulher e uma pistola”, está a desafiar convenções que vieram a constituir o star system, tão polido e reluzente, em Hollywood da década de 1920 ao final de 1950, só para se renderem à rebeldia, aquela lufada de ar fresco de Marlon Brando, e tudo cair por terra. Há que voltar sempre ao início, e as tendências são cíclicas. Tendem a ser, pelo menos, se não deixarmos que desformem, por completo, o molde. Jay Kelly, produção da Netflix, diz mais dos pacotes ready-made cinema, do cultivo das celebridades, onde o artifício se perde no inchado-glossy, do que qualquer outro filme contemporâneo. Jay é George, George é Jay. E por George falamos do actor-celebridade George Clooney. Em Jay encontramo-lo em modo homem-em-crise, aflito, sem saber quem é afinal apesar de todo o sucesso que foi acumulando enquanto leading man. É um argumento já fraco à partida (co-escrito por Baumbach e a actriz Emily Mortimer) porque não tem a coragem de fazer a crítica fustiga desta Hollywood e deste homem. Tanto assim o é que quando uma das suas filhas lhe diz ser mais inteligente que ele, em jeito de desafio, e ele o nega, sabemos que o filme se desdobrará na reparação da história pessoal que verá o homem a ver-se com outros olhos: a expectável catarse, o bocejo do cinema que mostra e conta ao mesmo tempo.
Ao longo dos seus largos 132 minutos, Jay Kelly não pertence a si mesmo. Prova-se aberto à leitura, mas fechado à penetração, e à ideia de um filme com consciência. É o bocejo do cinema que mostra e conta ao mesmo tempo.
É difícil, por isso mesmo, pensar em Jay Kelly enquanto um filme de Noah Baumbach. Aliás, qualquer um destes filmes feitos para o streaming podiam ter sido feitos por qualquer realizador! Ao serem colocados na máquina, o que os distinguia, os seus tiques e demais idiossincrasias são uniformizadas, concentrando tudo num anonimato sufocante. Penso que chamam a isso de estrutura hollywoodiana, quando tudo se parte em três, as personagens (vários actores-celebridades) vão a bordo de uma viagem (literal), os diálogos que passam o tempo a fazer ricochete nas paredes em volta são meras curiosidades e podiam perfeitamente ser substituídos por linguagem fílmica, e no final chegamos ao mesmo lugar de onde partimos com alguns ajustes feitos. Uma vida inteira reduzida a um clip de 3 minutos feito a partir de excertos, pontuado pelas palmas que surgirão no final. Se o colocarmos lado a lado com Sentimental Value (Valor Sentimental, 2025), de Joachim Trier, que também nos fala de um homem bem-sucedido a trabalhar na indústria do cinema que tenta reacender a relação com as filhas adultas, Jay Kelly nem inicia o confronto. Permanece brando e baço, feito bibelot à semelhança da imagem que os espectadores têm do que lhes é apresentado. Aliás, se existe alguma vulnerabilidade ou toque mais irascível do real no filme, parte de Adam Sandler, um actor que é antes de mais sempre de si mesmo, independentemente de onde o possamos vir a encontrar.

E é aí mesmo que quero chegar. Ao longo dos seus largos 132 minutos, Jay Kelly não pertence a si mesmo. E o actor famoso a interpretar o actor famoso no centro de toda aquela intertextualidade meta também não. Veste a roupa e o papel, apenas. Relativamente ao filme, cai na redundância o resto do tempo. Iluminação achatada, uma má peruca colocada em Billy Crudup, magníficos actores como Alba Rohrwacher em papéis patetas que reforçam como o filme foi feito para ser visto: em pedaços, e enquanto se faz outra coisa. E não há comparações fáceis. Nem Frankenstein (2025) nem Wake Up Dead Man (Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, 2025), recentes missivas da plataforma, se aniquilam com tanta facilidade. Tudo é ponto de costura visível, interpretações going through the motions até o filme se contorcer, ficar enxuto e sem cor.
Jay perdeu a vida dele enquanto estava ocupado a fazer filmes. Falam-nos do seu talento, mas nada dele vemos. “Can we go again?”, o filme continua a alimentar. Não, só há uma vida. Mas então é isso? É isso que Noah Baumbach, todo ele nuance, cinema re-pensado mas que respira (Frances Ha [2012] é um perfeito exemplo de como a obsessão do criador pela sua obra funciona), tem a dizer? Aquilo que foi possível a partir de Kicking and Screaming (1995), elevado por The Squid and the Whale (A Lula e a Baleia, 2005), Margot at the Wedding (Margot e o Casamento, 2007) e Greenberg (2010), uma espécie de trilogia tristonha mas tensional e ácida do que significa estar vivo, onde a realidade é o cinema e não o contrário, é agora reduzido a elementos onde as personagens não poderiam sequer ser viradas do avesso. Tendo em mente que esse é o barómetro mais simples para testar se o que temos em mãos é um estudo ou uma superfície envernizada para a qual se olha apenas, Jay Kelly prova-se aberto à leitura, mas fechado à penetração, e à ideia de um filme com consciência.
Tudo colocado em perspectiva agora que estamos no final de mais um ano, escrever sobre Jay Kelly é também escrever sobre o que acontece a um realizador que nasceu da irreverência do cinema independente americano. Dele não há vestígios nem depois de um trajecto extenso de estudos reflexivos e solidários a personagens com as quais é difícil criar empatia. Baumbach encontrava estilhaços de humanidade no microcosmo mais cáustico. Anos depois, e após uns quantos filmes com a Netflix, cuja parceria se iniciou com The Meyerowitz Stories (Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe, 2017), falta-lhe aquilo que nunca faltou em Hollywood durante o star system: o brilho inegável do talento que ressoa da página. Em Jay Kelly, receia fazer de Jay quem sabemos ser: alguém que não quer outro take, não realmente. E tal como Jay, provavelmente se lhe dessem outra oportunidade para repetir tudo outra vez, faria tudo exactamente da mesma forma. É isso que significa fazer parte da máquina.
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