And the gates
Of the town closed
as the town awoke.
Dylan Thomas
I search for the language
That is also yours –
Almost all our language has been taxed by war.
Allen Ginsberg
Tanto pode acontecer numa noite. Especialmente em São Francisco, a meca dos beatniks que, em Novembro 1963, se preparava para testemunhar o assassinato de John F. Kennedy e dois anos depois o início do movimento anti-guerra Flower Power, assim cunhado pelo poeta Allen Ginsberg com vista a promover um protesto não-violento contra a brutalidade da guerra do Vietname. Quando aterramos em Dogfight (1991), a segunda longa-metragem da realizadora americana Nancy Savoca, sente-se, desde logo, os ventos da contracultura. O perfume da mudança a ocupar o ar. Estes serão os últimos momentos de possível “inocência” Americana, antes do tumultuoso “rugir de uma onda que poderia afogar o mundo inteiro” de que Bob Dylan fala em A Hard Rain’s A-Gonna Fall. À noite chuvosa, acrescenta-se a melancolia que exala dos néons cor-de-rosa e azuis, a condensação nas janelas dos estabelecimentos, e as colinas derrapantes e, no plano de fundo, a icónica City Lights Bookstore que, mesmo imóvel, garante que nada será o mesmo na manhã seguinte.

No centro deste remoinho encontramos a doce introvertida Rose Fenny (Lili Taylor) – a terceira Rose na família – quando esta aceita sair com Eddie Birdlace (River Phoenix), um imaturo jovem marine que conhece no café onde trabalha. Encharcados pela mágoa da juventude que não se consegue emular, Rose e Eddie construirão um campo magnético à sua volta em pouco tempo, revelando, ao longo da noite, quem realmente poderão (vir a) ser. A cidade torna-se um playground para todas as suas crenças e desejos e o tempo pára por uns instantes enquanto fazem ricochete um no outro. Rose quer mudar o mundo e tem uma consciência sociopolítica, mas permanece ingénua. Eddie quer ser tão confiante, mas é infantil e rege-se pelo seu fatalismo.
Dogfight não pode ser um crescer-de-idade tendo em conta o estado do mundo e a sua urgência. Em tempos de guerra, cresce-se de uma só vez.
Tudo em Dogfight está ali por uma razão, e a representação simbólica é directa. O azul da bandolete e sombra de olhos de Rose a unir-se ao azul da tatuagem de Eddie, um pássaro a voar na palma da mão. A forma como ele aponta que o seu aspecto irado no cartão de identificação militar é a imagem da diligência esperada de um marine. A crítica dela à comédia sexual de Lina Wertmüller’s Mimì metallurgico ferito nell’onore (Mimi, o Metalúrgico, 1972). O enquadramento entre os dois atrás da porta do Rose’s feito a partir do placard ‘open’. O comentário de Rose sobre deixar o cabelo crescer antes de poder tocar no Still Life cafe. A forma como Eddie corre avenida deserta fora, com a ponte Golden Gate iluminada ao fundo, num perfeito misto de medo e felicidade.

O dogfight será apenas o evento impulsionador para um estudo de personagens complexo e não a razão de ser do filme, repleto de nuances produzidas pela criação do diálogo certeiro do seu argumentista Bob Comfort. Ao contrário do que tinha acontecido na primeira longa-metragem de Nancy, True Love (Michael e Donna – Um Verdadeiro Amor, 1989), o motor narrativo de Dogfight constrói-se a partir do intercalar entre a partilha das personagens e os momentos de introspecção que sobem à superfície. Era pedido que respirasse para atingir ressonância emocional. No caso de True Love a chave estava na sua falta de oxigénio. E ao contrário do que se julga, nenhum dos dois é realmente um crescer-de-idade. True Love nunca finge ser outra coisa, mas Donna (Annabella Sciorra), a sua personagem principal, quer que o casamento dela seja um definitivo ritual de passagem. Dogfight não pode ser um crescer-de-idade tendo em conta o estado do mundo e a sua urgência. Em tempos de guerra, cresce-se de uma só vez.
E se há algo que podemos dizer de Nancy Savoca é que os seus filmes não encaixam em quaisquer géneros ou demais tipificações; em vez disso, atravessam-nas, examinando pessoas que, caso contrário, passariam despercebidas. (Ironicamente, isso mesmo viria a acontecer aos seus filmes.) Neste, estamos longe de Nova Iorque e do Bronx onde Nancy Savoca cresceu e que retrata com tanto vigor, mas não do staccato italo-americano de True Love que a realizadora aligeira, mas do qual não se livra. O mesmo poderá dizer-se da pulsão narrativa de contar uma história, do seu desenrolar ao longo do tempo, que veríamos a seguir em Household Saints (Um Anjo de Mulher, 1993). A personagem de Eddie alimenta-se destas fontes de energia e desse movimento, enquanto a ligação à família ocupa o mundo de Rose.
Dogfight subverte os indicadores estéticos do que entendemos enquanto romântico ou destemido e encontra a combinação perfeita para isso no seu tom agridoce e desajeitado, uma força canalizada pela vulnerabilidade que ambos os actores trazem ao filme.
Quando Rose descobre a razão pela qual foi convidada a sair naquela noite, heroína de Savoca que é, insurge-se assim que sabe que está a ser usada e defende-se, mas não expõe a toxicidade machista de Eddie como devia. Momentos depois no seu quarto, uma música de Joan Baez (Silver Dagger) a rodar no gira-discos diz-lhe que não pode confiar nos homens, mas ela pensava que tinha visto algo diferente nele, alguém que é capaz de se subestimar. Não estava errada. Ao longo da noite, tentarão ser a testemunha um do outro antes dele partir para o Vietname ao acordar da madrugada. O impulso feminista e humanista da realizadora interliga as suas personagens umas às outras pela sua obra fora, mas isso não lhes garante que vençam na vida. Ainda não são fortes o suficiente para arriscarem e serem agentes de mudança. Permanecem, no entanto, fiéis àquilo em que acreditam.

O mesmo acontece com Savoca, que até hoje continua a tentar traçar o seu caminho pelo reino do cinema independente americano. Depois de se licenciar da reputável Tisch School of Arts em Nova Iorque, passou parte da década de 1980 a ser assistente de John Sayles e da lenda do cinema indie Jonathan Demme (que viria a ser produtor executivo dos seus filmes) antes de se juntar ao produtor e eventual marido Richard Guay, com quem escreveu True Love, filme que arrecadou o Grande Prémio do Júri no festival de Sundance em 1989 para surpresa de todos – o grande favorito era Sex, Lies and Videotape (Sexo, Mentiras e Vídeo, 1989) de Steven Soderbergh que, meses mais tarde, venceu a Palma de Ouro no festival de Cannes. Este seria o seu calling card. Mas seja por falta de audácia ou vinco na voz autoral desde o início, o cinema de Nancy não chegou a alinhar-se com a identificação que o espectador fazia de si mesmo no final dos anos 80 e década de 1990, tendo acabado, por isso, eclipsado.
Com a “redescoberta” de Dogfight pela Criterion Collection no início de 2024, na mesma altura que a terceira longa-metragem da cineasta, Household Saints, é submetida a um restauro 4K pela Kino Lorber, o nome de Nancy Savoca volta para primeiro plano. E é fácil perceber porque poderá ser mais acarinhado agora. Dogfight subverte os indicadores estéticos do que entendemos enquanto romântico ou destemido e encontra a combinação perfeita para isso no seu tom agridoce e desajeitado, uma força canalizada pela vulnerabilidade que ambos os actores trazem ao filme. A mesma que Eddie tenta encobrir e Rose usa. Quem mais perfeito que River Phoenix para equilibrar intensidade com quietude? Juntamente com Lili Taylor, que ficou conhecida por protagonizar mulheres autênticas e desafiantes, Phoenix disponibiliza a sua sinceridade emocional no ecrã, conduzindo este cinema terno a um lugar onde ele permanece, surpreendentemente, comedido.

Aliado a isto está uma feliz falta de sentimentalismo e de tensão melodramática. Dogfight não se apoia na habitual nostalgia, e mantém-se formalmente cut and dry. Talvez porque não quer falar de amor romântico. Está mais interessado em acarinhar uma ideia de encontro e abraço ao outro no fim dos tempos. Critica, claro, a misoginia e objectificação sexual da mulher como moldura para a masculinidade. E, tal como as canções folk que Rose toca e através das quais vive (absorvendo conceitos de justiça social e valores comunitários), quer ser um hino anti-guerra, em protesto contra a normalização da violência e desumanização entre os humanos.
Se voltarmos ao início, a palavra ‘dogfight’ é um termo que surge na Primeira Guerra Mundial e que, até hoje, se refere ao combate aéreo entre aviões de caça que, numa luta visualmente espiral, se pretende colocar atrás do inimigo e disparar mísseis de fogo no momento mais oportuno. Os inimigos aqui são nada mais do que o próprio Eddie e Rose, que vivem segundo ideais opostos. Rose quer desarmar o ódio através da música dos trovadores que relatam a verdade. Eddie só reconhece instrumentalização militar. No autocarro, mais tarde, o amigo dele descarta a sua pobre conduta pois é assim que todos vivem, dentro de sistemas, hierarquias, bullshit. No caso deles, só há o dever patriótico ao governo americano. “How do we become these fucking idiots?”, tinha-lhe perguntado Eddie.
Acreditar que é possível, em apenas umas horas, criar uma ligação com outra pessoa forte o suficiente para resistir à passagem do tempo é uma oferenda em tempos de “cancelamento do futuro”. Quase como se o filme tivesse estado todo este tempo à nossa espera.
Entre a modernidade e a tradição, a América e o “old country” como Catherine Falconetti (Tracey Ullman) lhe chama quando grita com o pai em Household Saints, a responsabilidade moral de Rose alerta em Eddie uma alternativa de luta. Quem está realmente na cadeira do réu é o sentimento pró-guerra Americano. A realidade é que Falconetti acaba oferecida em casamento como mercadoria, objecto que se pode vencer num jogo, e Donna em True Love, no meio de tanta incerteza, casa com um homem que não estará presente para ela enquanto igual. Na sequência disto, também Eddie rejeita a sua humanidade. Não é, por isso, certo que seja real o seu regresso anos depois àquele mesmo lugar. Mas se for, Rose continua no mesmo café, como que presa numa memória dele (agora apenas com roupa diferente e mais cabelo). Ao revê-la, Eddie pode finalmente ver a sua natureza, sem receio de julgamentos ou limitações socialmente implícitas. E ela abraçá-lo-á mais uma vez.

Por isso mesmo, Dogfight não é só um filme sensivelmente observado sobre a ambiguidade presente nas relações humanas, especialmente entre duas pessoas que não se conhecem. E nem tampouco se salienta por se juntar às restantes mulheres que se destacam nos seus habitats por confrontarem as normas sociais. É tão mais do que isso. Acreditar que é possível, em apenas umas horas, criar uma ligação com outra pessoa forte o suficiente para resistir à passagem do tempo é uma oferenda em tempos de “cancelamento do futuro”. Quase como se o filme tivesse estado todo este tempo à nossa espera.
Dogfight será exibido no próximo sábado, dia 18, às 21 horas no Cinema Fernando Lopes em Lisboa, no âmbito das Sessões À Pala de Walsh. A sessão contará com a participação da realizadora Nancy Savoca por vídeo-chamada. Participe no nosso passatempo aqui.
