O edifício que hoje acolhe o Teatro Municipal da Covilhã foi baptizado originalmente como Teatro-Cine da Covilhã e começou a ser construído em 1951, por iniciativa de João Ferreira Bicho Júnior, o co-proprietário de uma casa de espectáculos que existia no mesmo espaço, o Teatro Covilhanense, que funcionara entre 1924 e 1947 e que foi demolido precisamente para a construção do Teatro-Cine da Covilhã.

O edifício foi projectado por Raul Rodrigues de Lima, um experiente arquitecto que se especializou na concepção e adaptação de 70 estabelecimentos prisionais, 48 tribunais e vários cineteatros, entre os quais: o Cinearte (1938-40) e o Monumental (1944-50), ambos em Lisboa; o Cine Messias (1950), na Mealhada; o Teatro Micaelense, em Ponta Delgada (1947-51); o Cine-Teatro Avenida (1944-1950), em Aveiro; e o Cinema Império (1946), em Lagos.
Inaugurado em 31 de maio de 1954, com um espectáculo a cargo da Companhia Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, contou com a presença dos Sub-secretários de Estado da Educação Nacional e da Assistência Nacional, o Governador Civil de Castelo Branco e o Presidente da Câmara Municipal da Covilhã. A presença de tão ilustres representantes do poder político denuncia a importância do momento.
Com capacidade para 1095 lugares, o Teatro-Cine dobrava a lotação do seu antecessor Teatro Covilhanense (560 lugares), o que demonstra a importância do investimento de João Ferreira Bicho Júnior e da nova infraestrutura na dinâmica social e cultural da cidade. O edifício incluía a sala de cinema rectangular com tecto plano, com pequeno fosso e palco com acesso por escadas laterais. Os espectadores distribuíam-se pela plateia, balcão e alguns camarotes.

No piso térreo, o edificado incluía um amplo vestíbulo, um bar, um bengaleiro, os escritórios administrativos, a escadaria de acesso à plateia, uma sala de exposições e sanitários. As escadas davam acesso ao balcão e foyer, por cima do qual existia um salão de festas. Um dos destaques do novo edifício era uma enorme tapeçaria para a escadaria interior, desenhada por João Tavares e realizada na Manufactura de Portalegre.

Nos primeiros anos, a exibição de cinema era regular durante vários dias da semana: matinés (15h30) ao domingo, com filmes para os escalões etários mais baixos, e soirés (21h15) aos sábados, domingos, segundas, quartas e quintas-feiras, sempre com classificações etárias acima de 13 e 18 anos. Ocasionalmente, o espaço acolhia espectáculos teatrais, musicais ou de variedades.
Em termos cinematográficos, esses primeiros anos ficaram marcados pelo Cinemascope, a tecnologia revolucionária que a 20th Century Fox lançou em 1953 e que se popularizou em todo o mundo, sendo considerado sinónimo de qualidade técnica na projecção.


Os tempos de espera dos covilhanenses pelas principais estreias da época variavam um pouco em função da procura do filme: Romy Schneider em Sissi (Sissi, A Jovem Imperatriz, 1955), de Ernst Marischka, um dos filmes mais aguardados da temporada, que estreou em Portugal em outubro de 1956, com cinco semanas de exibição no Monumental, chegaria à Covilhã em março de 1957; Miguel Strogoff (Miguel Strogoff, O Correio do Tzar, 1956), de Carmine Gallone, estrearia em Portugal em abril de 1957, e seria exibido na Covilhã oito meses mais tarde, em dezembro de 1957; já Marcelino pan y vino (Marcelino Pão e Vinho, 1955), de Ladislao Vajda, que estreara em Lisboa em novembro de 1955, só chegaria ao Teatro-Cine em abril de 1957; El pequeño ruiseñor (O Pequeno Rouxinol, 1956), de Antonio del Amo, com o muito aclamado Joselito, estreou em Portugal em abril de 1957 e chegou à Covilhã em março de 1958; Rocco e i suoi fratelli (Rocco e os Seus Irmãos, 1960), de Luchino Visconti, estreou em Lisboa em novembro de 1961 e demorou um ano (março de 1962) e chegar à Covilhã; Ben-Hur (1959), de William Wyler, demorou exactos dois anos (!!) desde a estreia nacional (outubro de 1960); e, finalmente, Hobson’s Choice (As Filhas do Sr. Hobson, 1954), de David Lean, chegou ao Teatro-Cine em maio de 1958, exatamente três anos (!!) após a estreia em Lisboa.
Naturalmente, o cinema português era um pouco mais célere: O Sangue Toureiro (1958), de Augusto Fraga, demorou pouco mais de 3 meses (estreou em março de 1958 e foi exibido no final de junho); Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha, demorou pouco menos de 3 meses (de 29 de novembro de 1963 a 1 de março de 1964); Retalhos da Vida de um Médico (1963), de Jorge Brum do Canto, demorou apenas algumas semanas, entre 26 de novembro (estreia no Tivoli e Politeama, em Lisboa) e 22 de dezembro de 1962.
Para além de filmes em estreia, o Teatro-Cine também apresentava filmes em reposição: a 19 de janeiro de 1957, exibiu o filme Gilda (1946), de Charles Vidor, com Rita Hayworth, que havia estreado em Portugal dez anos antes (março de 1948); o drama português Um Grito na Noite (1948), de Carlos Porfírio, seria reposto em novembro de 1957, nove anos após a estreia portuguesa; Rear Window (Janela Indiscreta, 1954), de Alfred Hitchcock, seria reposto na Covilhã em dezembro de 1962, mais de sete anos após a estreia nacional; o clássico Limelight (Luzes da Ribalta, 1952), de Charlie Chaplin, seria exibido em junho de 1974, cerca de 21 anos após a estreia em Portugal.
Em 1957, o Teatro-Cine da Covilhã passou a acolher, às terças-feiras, as sessões de cinema da recém-criada Secção de Cinema do Orfeão da Covilhã, cineclube que participava então do movimento cineclubista português. Na primeira sessão, realizada a 30 de abril desse ano, foi exibido o filme Jour De Fête (Há Festa na Aldeia, 1949), de Jacques Tati, com uma palestra do convidado Leonardo Ribeiro de Almeida, director da Secção de Cinema do Círculo Cultural Scalabitano (Santarém), e onde estiveram presentes 187 espetadores.
No âmbito do primeiro aniversário das sessões cineclubistas, entre 15 e 25 de abril de 1958, o Teatro-Cine acolhe a exposição Movimento Cineclubista, promovida pelo Orfeão da Covilhã e que fazia um mapeamento dos cineclubes da Península Ibérica e das então colónias ultramarinas.


Em abril de 1970, a exclusividade do Teatro-Cine foi quebrada com a abertura do Cine-Centro, uma nova sala de cinema no cento da Covilhã, na emblemática rua do Castelo, que totalizava 437 lugares de lotação. A sala de cinema era propriedade do Centro Cultural e Social, que desenvolvia “actividades ao serviço dos valores humanos e cristão e da doutrina social da Igreja”. Em outubro desse mesmo ano, o Orfeão da Covilhã retomava as suas actividades com as sessões cineclubistas (apenas duas por mês), mas transitava do Teatro-Cine para o Cine-Centro, trazendo outros públicos para a nova sala.
O período revolucionário foi bastante eclético, fazendo conviver filmes tão díspares como os populares Lo chiamavano Trinità… (Trinitá – Cowboy Insolente, 1970) e E poi lo chiamarono il magnifico (E Agora Chamam-lhe Magnífico, 1972), de Enzo Barboni, ambos protagonizados por Terence Hill; o terror erótico de Lust for a Vampire (Prazeres de Vampira, 1971), de Jimmy Sangster; a comédia italiana Bella, ricca, lieve difetto fisico, cerca anima gemella (Bela, rica, com pequeno defeito físico, aceita cavalheiro, 1973), de Nando Cicero; o thriller político Z (Z – A Orgia do Poder, 1969), de Costa-Gravas; as reposições como Estate violenta (Um Verão Violento, 1959), de Valerio Zurlini; os filmes das repúblicas socialistas de leste europeu como Hideg Napok (Cold Days, 1966), de András Kovács; os filmes de acção do extremo oriente como E hu kuang long (Kung Fu, the Invisible Fist, 1972), de See-Yuen Ng; ou o muitíssimo aguardado e polémico Ultimo tango a Parigi (O Último Tango em Paris, 1972), de Bernardo Bertolucci, que tinha sido censurado antes do 25 de abril e, mesmo depois do fim da censura, justificou a classificação de “interdito a menores de 18 anos” e o célebre aviso “este filme contém cenas eventualmente chocantes”.

Os anos 80 são anos de crise no sector cinematográfico português. No início da década, tal como o concorrente Cine-Centro, o Teatro-Cine reduz significativamente o número de sessões semanais, passando a ter apenas as sessões de sábado e domingo (matiné e soiré) e apenas mais uma ou outra sessão durante os dias úteis (geralmente à quinta-feira). Gradualmente, a programação dos dois espaços torna-se mais diferenciada: em abril de 1981, enquanto o Cine-Centro exibe The Blue Lagoon (A Lagoa Azul, 1980) durante as sessões do fim-de-semana, o Teatro-Cine apresenta Francisca (1981), de Manoel de Oliveira; em junho seguinte, o Teatro-Cine exibe o western spaghetti Oggi a me… domani a te! (A Vingança de Bill Kiowa), de Tonino Cervi, uma reposição de um filme de 1968, enquanto o Cine-Centro apresenta Alien (Alien, o Oitavo Passageiro, 1979), de Ridley Scott, que estreara em Portugal em outubro de 1979; no mesmo mês, o Cine-Centro exibe American Graffiti (American Graffiti: Nova Geração, 1973), de George Lucas, que estreara em Portugal em março de 1974, e o Teatro-Cine responde com o recém-estreado drama de época La storia vera della signora dalle camelie (A Dama das Camélias, 1981), de Mauro Bolognini, protagonizado por Isabelle Huppert; em setembro, o Cine-Centro exibe Raiders of the Lost Ark (Os Salteadores da Arca Perdida, 1981), de Steven Spielberg, o filme-sensação dessa temporada, e o Teatro-Cine responde com o impactante The Fog (O Nevoeiro, 1980), de John Carpenter.
Em julho de 1983, o Teatro-Cine deixa de enviar a sua programação para o Notícias da Covilhã. Nesse verão, encerraria as suas portas por tempo indeterminado. Em outubro de 1992, a Câmara Municipal chega a um acordo com o proprietário para reabrir a sala, mas a tão desejada reabertura dessa sala emblemática só aconteceria em maio de 2001, quando o Cineclube da Beira Interior passa a assegurar a programação da sala. Entretanto, em novembro de 1993, a cidade da Covilhã viu abrir um novo espaço exibidor, o Cinema Monteverde, num espaço comercial junto ao hospital que, de certa forma, ajuda a colmatar o encerramento do Teatro-Cine. Encerraria em 2013.
A programação da estrutura cineclubista ligada à Universidade da Beira Interior combinava filme em estreia com ciclos temáticos com reposições (Comunidade Cinéfila Europeia, abril e maio de 2002; Ciclo Panorama Nacional, dezembro de 2002), mas também o acolhimento de outras actividades externas, como o Programa de Itinerância do ICAM (julho de 2002) ou o festival Imago (outubro de 2002). No entanto, o Cineclube da Beira Interior encerraria a sua actividade no Teatro-Cine em 2007 e seria desactivado no ano seguinte, precisamente no ano do seu 20º aniversário.
Entretanto, em novembro de 2005, a abertura do SerraShopping iria mudar radicalmente o panorama cinematográfico na Covilhã. Com 4 salas de cinema, o complexo deslocalizou o espectáculo comercial para longe do centro da cidade, seguindo uma tendência semelhante a outras tantas cidades portuguesas de média dimensão.
Quanto ao Teatro-Cine, desapareceu formalmente em 2008, quando passou a denominar-se oficialmente Teatro Municipal da Covilhã. Voltaria a encerrar temporariamente em 2011 e em 2014, então para uma intervenção no telhado, uma vez que chovia dentro do edifício. Depois de três anos fechado para remodelação profunda, foi reinaugurado em novembro de 2021, totalizando 600 lugares entre a plateia (370) e o balcão (230).
