
- The Shrouds (As Mortalhas, 2024) de David Cronenberg – 59 pts.
- Miséricorde (Misericórdia, 2024) de Alain Guiraudie – 57 pts.
- Tardes de soledad (Tardes de Solidão, 2024) de Albert Serra – 56 pts.
- Hard Truths (Verdades Difíceis, 2024) de Mike Leigh – 55 pts.
- Sirât (2025) de Óliver Laxe – 52 pts.
- Gouzhen (Cão Preto, 2024) de Guan Hu – 51 pts.
- Yek tasadof-e sadeh (Foi Só Um Acidente, 2025) de Jafar Panahi – 45 pts.
- O Agente Secreto (2025) de Kleber Mendonça Filho – 43 pts.
- O Riso e a Faca (2025) de Pedro Pinho – 36 pts.
- L’Histoire de Souleymane (A História de Souleymane, 2024) de Boris Lojkine – 35 pts.
Não foi um ano de consensos e isso não quer dizer que tivesse sido, necessariamente, um ano de uma riqueza sem precedentes. Se nos fiarmos pelo que relatam os nosso walshianos de serviço (vinte ao todo nesta edição do top do ano), e salvo honrosas excepções, 2025 não foi um ano absolutamente memorável. No entanto, também é verdade que nunca os seis primeiros filmes do top ficaram tão próximos uns dos outros, como quem diz: todos poderiam potencialmente ser eleitos “o filme do ano”. O nome mais dissonante daquilo que é um cânone crítico já muito “cá de casa” talvez seja o do chinês Guan Hu, realizador do surpreendente sucesso de público Gouzhen (Cão Preto, 2024), ou o do francês Boris Lojkine, revelado em L’Histoire de Souleymane (A História de Souleymane, 2024). O franco-galego Óliver Laxe realizou um dos filmes mais falados do ano, Sirât (2025), ficando por uma unha negra à frente de Cão Preto. Podemos dizer que o cinema de autor se tornou fenómeno de assinalável popularidade graças a estes dois filmes, em 2025?
Apesar da frescura de algumas propostas, uma das marcas do ano de 2025, agora passado pelo crivo dos nossos críticos, traduz um certo regresso ao cânone. Cronenberg, um dos pais do (agora tão em voga e consagrado em festivais) body horror, merece uma distinção que lhe faltava desde que há À pala de Walsh: com The Shrouds (As Mortalhas, 2024), obra subestimada por uma parte grande da crítica, nomeadamente aquando da sua passagem pelo Festival de Cannes, é o filme do ano para o conjunto dos walshianos. Entra em oito tops e chega ao lugar cimeiro em dois balanços. Mike Leigh e Jafar Panahi são os outros veteranos a ocuparem lugares extraordinários (ainda que Panahi tenha conseguido o sétimo lugar em ex aequou no ano de 2015, por causa de Taxi [2015]).
O algo ignorado Hard Truths (Verdades Difíceis, 2024), um dos melhores filmes do cineasta britânico, e a Palma de Ouro de Panahi Yek tasadof-e sadeh (Foi Só um Acidente, 2025) conseguem os melhores lugares dos respectivos realizadores na história deste site. Por sua vez, o já experiente Alain Guiraudie ascende a uma segunda posição inédita na história do website, com Miséricorde (Misericórdia, 2024) a constar em dez tops individuais, mas com apenas um primeiro lugar.
O espanhol Albert Serra, que em 2017 viu o seu La mort de Louis XIV (A Morte de Luís XIV, 2016) ser consagrado como o melhor filme desse ano e que em 2023 ficou em terceiro lugar graças a Pacifiction (2022), chega ao terceiro posto com um documentário, o controverso Tardes de soledad (Tardes de Solidão, 2024). Podemos continuar a comparar este top com o de 2017, já que dois outros nomes regressam aqui: Kleber Mendonça Filho (que havia ficado em nono lugar nesse ano com Aquarius [2016]) e Pedro Pinho (que havia ficado em quarto lugar nesse mesmo com A Fábrica de Nada [2017]). O fôlego – e a longa duração – de O Agente Secreto (2025) e de O Riso e a Faca (2025) não impediram as suas consagrações, respectivamente, nos oitavo e nono lugares desta lista.
Uma palavra final para a completa ausência de cinema americano, algo inédito na história dos nossos tops. One Battle After Another (Uma Batalha Após a Outra, 2025) foi a aposta grande de Hollywood, e um dos mais falados filmes de Paul Thomas Anderson (realizador que viu o seu Phantom Thread [A Linha Fantasma, 2017] chegar ao topo do balanço do À pala de Walsh no ano de 2018), mas ficou em décimo segundo lugar no top mais alargado, ainda algo longe de L’Histoire de Souleymane. Poderemos dizer que se sinaliza, neste top, a vitória de um cinema mais escasso e essencialmente mais humano?

Bernardo Vaz de Castro
- Tardes de soledad, Albert Serra
- Qingchun (Juventude, 2025), Wang Bing
- Miséricorde, Alain Guiraudie
- Yeohaengjaui pilyo (As Aventuras de Uma Viajante na Coreia do Sul, 2024), Hong Sang-soo
- O Riso e a Faca, Pedro Pinho
- Cão Preto, Guan Hu
- Foi Só Um Acidente, Jafar Panahi
- Knochen und Namen (Ossos e Nomes, 2024), Fabian Stumm
- O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho
- Laguna (2025), Šarūnas Bartas
Recentemente alguém publicava no Facebook uma lista com os melhores filmes do ano com dez lugares vazios. É claro que se trata de um gesto exagerado, trocista até, mas não deixou de suscitar um alargado consenso entre muitos daqueles que comentavam que 2025 tinha sido um ano terribilis. Confesso, já estou familiarizado com género de boutades, porque há sempre um coro a lembrar-nos de que o cinema está no fim, no seu mais evidente declínio, que o seu esplendor e grandiosidade é coisa de outrora – eu próprio assumo que, desde que faço este exercício, por vezes me sinto inclinado a participar no coro, seja porque o ano é evidentemente de má casta, seja sobretudo porque a distribuição portuguesa é ainda pior – mas este ano, estou longe de tal vaticínio e talvez por isso, aquela blague facebookiana me tenha causado mais consternação do que divertimento.
2025 marca o regresso de vários cineastas que me são particularmente caros, como é o caso de Serra, Bing, Guiraudie, Sang-soo, Panahi ou Mendonça Filho. É certo que quase todos são cineastas de produção regular e de regular interesse, mas este regresso é um regresso em pleno, mesmo com certas fragilidades – como é o caso de Kleber, que poderia ter sido tão melhor, se não tivesse tido a tentação de trazer o filme para o presente e terminar aquela fulgurante perseguição (esta sim, é a perseguição do ano e não o teledisco do Paul Thomas Anderson), com aquele encontro no hospital sem qualquer graça e meramente explanativo – todos voltam a um certo estado aurático, sobretudo o Serra que depois do enfadonho Pacification (2022), volta com aquele que é certamente um dos seus melhores filmes, onde a dilatação do tempo e a questão do devir animal ressurgem como o núcleo do seu cinema. Mas a surpresa do ano é certamente o filme de Pedro Pinho, o seu O Riso e a Faca, filme de um enorme fôlego, que muito me fez lembrar a força do cinema de Kiarostami, de ir para um lugar à espera de algo, algo disruptivo ou epifânico, e pelo contrário, é o banal da vida, o quotidiano, que se torna matéria de uma extraordinária grandeza e beleza.

Carlos Alberto Carrilho
- Sinners (Pecadores, 2025), Ryan Coogler
- The Shrouds, David Cronenberg
- Nosferatu (2024), Robert Eggers
- Weapons (Hora do Desaparecimento, 2025), Zach Cregger
- Bring Her Back (Volta Para Mim, 2025), Danny e Michael Philippou
- Presence (A Presença, 2024), Steven Soderbergh
- The Ugly Stepsister (A Meia-Irmã Feia, 2025), Emilie Blichfeldt
- 28 Years Later (28 Anos Depois, 2025), Danny Boyle
- Eddington (2025), Ari Aster
- The Long Walk (O Desafio, 2025), Francis Lawrence
+10: Sirât, de Óliver Laxe, Juventude, de Wang Bing, A House of Dynamite (Prestes a Explodir, 2025) de Kathryn Bigelow, Miséricorde de Alain Guiraudie, Kuraudo (Cloud, 2024), de Kiyoshi Kurosawa, Tardes de soledad, de Albert Serra, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, Cão Preto, de Guan Hu, Mickey 17 (2025), de Bong Joon Ho, Eojjeolsuga eobsda (No Other Choice, 2025), de Park Chan-wook.
++ 10: IT: Welcome to Derry (Andy Muschietti, Barbara Muschietti, Jason Fuchs, 2025); Adolescence (Jack Thorne, Stephen Graham, 2025), Monster: The Ed Gein Story (Ryan Murphy, Ian Brennan, 2025), Pluribus (Vince Gilligan, 2025), Alien: Earth (Noah Hawley, 2025), Paradise (Dan Fogelman, 2025), Zero Day (Eric Newman, Noah Oppenheim, Michael Schmidt, 2025), Mussolini: Son of the Century (Joe Wright), Severance (Dan Erickson, 2025), Andor (Tony Gilroy, 2025).
+++ 3: Cinema Experimental Português: O Cinema dos Artistas, Anos 60 e 70 (Cinemateca Portuguesa); Mestres Japoneses Desconhecidos IV (The Stone and The Plot); Malamor / Tainted Love – Realizadores Convidados: João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata (Cinemateca Portuguesa).

Daniela Rôla
- Tardes de soledad, Albert Serra
- Sirāt, Óliver Laxe
- Bird (2024), Andrea Arnold
- Trois amies (Três Amigas, 2024), Emmanuel Mouret
- Hard Truths, Mike Leigh
- The Brutalist (O Brutalista, 2014), Brady Corbet
- Volveréis (Voltareis, 2024), Jonás Trueba
- Cão Preto, Guan Hu
- En fanfare (Siga a Banda!, 2024), Emmanuel Courcol
- Where to Land (Onde Aterrar, 2025), Hal Hartley
Um dos melhores discos de Natal de sempre chama-se A Christmas Gift For You from Phil Spector. O título promete calor, inocência e sinos a tilintar; o seu produtor acabou condenado por homicídio. É um lembrete desconfortável, mas útil, de que o mundo não é simples nem linear, e muito menos a cultura. A beleza não vem sempre de lugares moralmente puros, e a arte raramente respeita a nossa necessidade de ordem. Talvez por isso, quando tentamos eleger “os melhores filmes do ano”, seja preciso aceitar essa mesma contradição: obras que nos maravilham podem nascer de contextos confusos, ambíguos ou até perturbadores.
Vivemos tempos difíceis. Tempos pouco acolchoados, em que a realidade se impõe sem pedir licença e nos obriga a lidar com verdades desconfortáveis. O cinema não ficou imune a esse estado de coisas. Muitos dos melhores filmes do ano são também filmes difíceis: obras que exigem atenção, que incomodam, que recusam o conforto das respostas fáceis e nos confrontam com um mundo em fractura.
Alguns destes filmes mergulham de frente na condição humana: exploram a solidão e o isolamento, a relação com a morte e com o risco, o instinto de sobrevivência levado ao limite. Há neles rituais, experiências viscerais, corpos e emoções postos à prova. São filmes que falam de perda, violência, alienação e medo do futuro – e que, ao fazê-lo, assumem que o papel do cinema nem sempre é agradar.
Mas este foi também um ano de pequenos filmes. Obras menos ambiciosas no sentido épico, mas igualmente essenciais. Filmes que oferecem consolo sem ingenuidade, conforto sem escapismo. Histórias íntimas, personagens à escala humana, momentos de ternura, humor ou silêncio que nos lembram que ainda há espaço para cuidado e empatia.
Esta lista nasce desse contraste. Reúne tanto os filmes que nos desafiam como aqueles que nos amparam. Porque, num mundo áspero, precisamos do cinema que nos confronta – mas também daquele que nos ajuda a respirar.

Duarte Mata
- Springsteen: Deliver me from Nowhere (2025), Scott Cooper
- Rendez-vous avec Pol Pot (Encontro com Pol Pot, 2024), Rithy Pahn
- A Complete Unknown (2024), James Mangold
- F1 (2025), Joseph Kosinski
- L’Histoire de Souleymane, Boris Lojkine
- Superman (2025), James Gunn
- Ballerina (Do Universo de John Wick: Ballerina, 2025), Len Wiseman
- Cão Preto, Guan Hu
- Foi Só Um Acidente, Jafar Panahi
- Small Things Like These (Pequenas Coisas Como Estas, 2024), Tim Mielants
Comecemos por baixo. Small Things Like These por ser, simultaneamente, filme de terror e filme de Natal, unindo o medo da atmosfera caliginosa própria do primeiro à beleza do gesto altruísta própria do segundo. O Panahi pela capacidade de falar sobre tortura, trauma e opressão sem com isso impor freios ao sentido de humor. Cão Preto porque o western pode ser um eastern com motas no lugar de cavalos e galgos esguios a fazerem as vezes de bisontes tronchudos. Ballerina pelo cruzamento entre duas das maiores glórias do cinema contemporâneo: a saga John Wick e a actriz Ana de Armas. Superman pelo cabal encapsulamento do zeitgeist desta década. L’Histoire de Souleyman porque nunca ninguém disse que um retrato empático de estafetas precarizados não poderia ser também um thriller de alta tensão. F1 pela meticulosa habilidade em trabalhar a matéria mais sensorial, somática e imersiva do cinema (e ainda melhor que o Sirât). O Mangold porque, para além de fluir como um rio (não existem suficientes elogios à montagem deste filme), depois do Woody Allen, me fez acreditar que o Chalamet é mais do que um miúdo betinho de manicura sempre arranjada que se devia dedicar a protagonizar anúncios de bolachas Oreo para o resto dos seus dias. O Rithy Pahn porque, nos 50 anos do 25 de Novembro, ainda convém lembrar a tantos jovens (e menos jovens) progressistas de esquerda de que é mil vezes preferível as desigualdades de riqueza do capitalismo às igualdades de miséria do comunismo. E, finalmente, em lugar cimeiro, o Springsteen, história intimista, comovente e sussurrada sobre um homem a cantar (para) os seus fantasmas e do seu lento mergulho para a depressão. Alguns dirão que o meu apreço pelo Boss muito contou para esta escolha do filme do ano. Respondo-lhes parafraseando o Chris Christie: lá por eu ser parcial, não quer dizer que não tenha razão.

Fernando Guerreiro
- Justa (2025), Teresa Villaverde
- Avatar: Fire and Ash (Avatar: Fogo e Cinzas, 2025), James Cameron
- Alpha (2025), Julia Ducournau
- One Battle After Another (Batalha Atrás de Batalha, 2025), Paul Thomas Anderson
- Cão Preto, Guan Hu
- L’Empire (O Império, 2024), Bruno Dumont
- Keeper (Para Sempre, 2025), Osgood Perkins
- Miséricorde, Alain Guiraudie
- Tardes de soledad, Albert Serra
- The Life of Chuck (A Vida de Chuck, 2024), Mike Flanagan
Um filme, ou mesmo uma lista, não dão conta minimamente da massa espessa e informe de que se constitui e emana a mutante e monstruosa forma-cinema (e isso é sempre o mais importante). São estes, podiam ser outros, alguns dos que mais me impressionaram em 2025 e que, com a excepção de Justa e de Avatar- Fogo e Cinzas, seguem por ordem alfabética (um lugar à parte, junto a Entroncamento de Pedro Cabeleira que também devia aqui figurar), seguem por ordem alfabética dos títulos.

Francisco Noronha
- Hard Truths, Mike Leigh
- L’Histoire de Souleymane, Boris Lojkine
- After the Hunt (Depois da Caçada, 2025), Luca Guadagnino
- Presence, Steven Soderbergh
- Eddington, Ari Aster
- O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho
- O Riso e a Faca, Pedro Pinho
- Urchin (Pelas Ruas de Londres), Harris Dickinson
- Le Roman de Jim (O Romance de Jim, 2024), Arnaud Larrieu e Jean-Marie Larrieu
- A Vida Luminosa (2025), João Rosas
Nunca saberemos aquilo (música ou outra coisa? E na primeira hipótese, que música?) que Moses escuta nos headphones (mas será que… ouve mesmo alguma coisa? Ou apenas noise cancelling…?). No que me toca, gosto de pensar que será o ruído de aviões serenamente planando nos céus… Ao contrário do que o título promete, as Hard Truths podem bem não ser sequer aquelas de que as personagens conversam, lamentam, choram. Há um passado demasiado silencioso (secreto?), demasiado determinante, a espreitar.
Uma lição de como fazer um filme político sem ser simplista e panfletário. Desconcertante, comovente: um rapaz perfeitamente des-politizado, um lumpen-estafeta, um “alienado” no sentido marxista, a passar-se por militante político para conseguir asilo num país onde é apenas mais um perfil (nem sequer o dele, apenas mais uma lucrativa commodity) numa app de entrega de comida. Bravíssimo Souleymane; Bravíssimo, Sangare!
Julia Roberts, oh, Julia Roberts! Que filmes poderia ela ter feito, com que realizadores poderia ter trabalhado… Magnífica. Filme de reverberação inusitadamente bergmaniana de alguém que não é conhecido propriamente por saber manejar a gravidade e o silêncio (o melhor filme de Guadagnino desde Call Me By Your Name). Na cena entre Alma e Hank no apartamento à beira-rio (que lugar e que ambiente se ganham com esta aparentemente simples mudança de set, chapeau à direcção de arte!), é como se estivéssemos n’Um Eléctrico Chamado Desejo…
Presence: peça minimal, quase de câmara, com personagens e décors que se contam por uma mão. Teenage angst gótico, glam, em estado puro. Um pequeno grande filme do errático Soderbergh. O melhor filme de Ari Aster desde Hereditary. Não esquecer como tudo começa (primeiríssimo plano): um homem, dentro de um carro, a assistir no telemóvel a um vídeo sobre como convencer parceiros que não querem ter filhos das virtudes da parentalidade. Uma pista: tudo o que se segue com esse homem é, de alguma forma, consequência dessa suprema frustração… Torna a personagem de Phoenix particularmente interessante o facto de não ser, de todo, um trumpista, conspiracionista, um ultra-conservador. Antes um homem-criança (que, inválido, regressará ao ventre), profundamente frágil, perdido. Alguém que não sabe quem é, e que, justamente por isso, pode ser muito perigoso. Há imensos por aí no nosso tempo.
O mais americano dos cineastas não-americanos, Kleber Mendonça Filho é, por estes dias, dos poucos com um sentido tão engenhoso e, mesmo, espectacular de mise-en-scène. Pese embora as fragilidades do argumento, O Agente Secreto é um prazer imenso de se ver. A sequência final, frouxa e desnecessária (muito parecida, aliás, na escrita e na frouxidão, com a de A Vida Invisível de Karim Aïnouz), parece um problema relativamente crónico (Aquarius e o seu risível desfecho).
Eis O Riso e a Faca deste “The Passenger, Profissão: Engenheiro” por terras da Guiné-Bissau, sempre com o seu vermelhíssimo saco de ténis Wilson às costas – sinal de uma irredutível exterioridade ao mundo com o qual se deseja fundir; vermelho como o sangue e o peso histórico que carrega às costas. E como o filme ganharia se tudo ficasse dito com esse saco, dispensando-se os diálogos hiper-didácticos na missão de garantir que a “mensagem” (politicamente simplista) é devidamente passada ao espectador.
Urchin, mas podia chamar-se… The Tramp (os dois termos possuem, originalmente, o mesmo sentido). Bonita a forma como Dickinson subtilmente empresta ao corpo de Mike a mesma graça, a mesma elegante fragilidade (a magreza bailarina), até queerness, de Chaplin (a primeira personagem queer do cinema). Que, pedra de toque, só emergem quando Mike não está under the influence; uma pureza, ou inocência, desvanecendo-se assim que as substâncias tomam conta do seu corpo e impõem uma outra (bravia, musculada) masculinidade. Há, aliás, uma posição corporal característica de Chaplin – sentado, as pernas e os braços esticados, as costas das mãos entrelaçadas pelos dedos, o sorriso envergonhado – que, pelo menos por uma vez, Mike faz sua. A cena em que é seduzido na caravana por Andrea, contra a sua hesitação inicial, é o belíssimo resumo desse amoroso tolhimento do seu corpo.
O Romance de Jim, o resistente gaulês… Que aconteceu ao cinema francês este ano? Tu me manques… Depois do Xavier e do Ramiro de Manuel Mozos, a genealogia prossegue com o Nicolau de João Rosas. Os primeiros 40 minutos de A Vida Luminosa foram das melhores coisas que o cinema nos deu este ano.

Inês N. Lourenço
- Volveréis, Jonás Trueba
- Cão Preto, Guan Hu
- One Battle After Another, Paul Thomas Anderson
- Hard Truths, Mike Leigh
- Where to Land, Hal Hartley
- The Shrouds, David Cronenberg
- Drømmer (Dreams, 2024), Dag Johan Haugerud
- Foi Só um Acidente, Jafar Panahi
- Jia ting jian shi (Breve História de uma Família, 2024), Jianjie Lin
- The Phoenician Scheme (O Esquema Fenício, 2025), Wes Anderson
Vou tentar escrever um haiku sobre o tema que mais se colou a mim nos filmes de 2025 (a morte):
Em The Shrouds e Laguna há Pequenos Clarões
de um cinema que vive
pela morte na primavera.

José Bértolo
- Flow (À Deriva, 2024), Gints Zilbalodis
- Foi Só um Acidente, Jafar Panahi
- Bankeneki Anzu-Chan (Gato Fantasma Anzu, 2025), Nobuhiro Yamashita e Yôko Kuno
- Juventude, Wang Bing
- Knochen und Namen, Fabian Stumm
- After the Hunt, Luca Guadagnino
- Bird, Andrea Arnold
- Cão Preto, Guan Hu
- Miséricorde, Alain Guiraudie
- As Aventuras de Uma Viajante na Coreia do Sul, Hong Sang-soo
Esta não é uma lista de melhores. Não tenho interesse nenhum por esse género de coisas — nem pelas listas dos outros, nem mesmo pelas minhas. Ainda assim, optei por responder ao repto do À pala deste ano para garantir que estes dez filmes, todos óptimos, marcam presença.
P.S. – O Flow foi um dos últimos filmes a que a minha gata Maria assistiu antes de morrer. Era uma gata cinéfila. Viu centenas de filmes. E uma estrela, um ícone: tinha dias de parecer a Ava Gardner.

João Araújo
- On Falling (2024), Laura Carreira
- Put Your Soul on Your Hand and Walk (Com a Alma na Mão, Caminha, 2025), Sepideh Farsi
- All We Imagine as Light (Tudo o Que Imaginamos Como Luz, 2024), Payal Kapadia
- L’Histoire de Souleymane, Boris Lojkine
- The Brutalist, Brady Corbet
- As Aventuras de Uma Viajante na Coreia do Sul, Hong Sang-soo
- O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho
- Sorry, Baby (2025), Eva Victor
- To a Land Unknown (A Uma Terra Desconhecida, 2024), Mahdi Fleifel
- As Estações (2025), Maureen Fazendeiro
Nota: Ao filme All We Imagine as Light (Tudo o Que Imaginamos Como Luz, 2024), de Payal Kapadia, seria impossível entrar no top de 2024 (fechado a 18 de Dezembro), mas, tendo estreado a 19 de Dezembro de 2024, também no deste ano (porque antes de 1 de Janeiro de 2025) – fica assim uma espécie de filme fantasma, num limbo, o que dado o tema do filme até acaba por ser apropriado (caso contrário estaria nos lugares cimeiros). Menções honrosas: Bird (2024), de Andrea Arnold, One Battle After Another de Paul Thomas Anderson, Feng liu yi dai (Marés Vivas, 2024), de Jia Zhang-ke, Foi Só Um Acidente, de Jafar Panahi, Vermiglio (2024), de Maura Delpero, Dar sarzamin-e baradar (Na Terra dos Nossos Irmãos, 2024), de Raha Amirfazli e Alireza Ghasemi, Urchin (2025), de Harris Dickinson, Sieben Winter in Teheran (Sete Invernos em Teerão, 2023), de Steffi Niederzoll e Caught Stealing, de Darren Aronofsky.
É um paradoxo actual dos nossos tempos, quase absurdo. Ao mesmo tempo que encontramos no cinema (e até em alguma tv) uma espécie de máquina de empatia, de ver o mundo através de outros olhos, de outras experiências, vivemos numa sociedade cada vez mais fechada a essa empatia, fechada a imaginar o lugar do outro, uma sociedade treinada e condicionada para o egoísmo e individualismo, a culpabilizar o outro pelos seus problemas, a passar por cima dos mais fracos, onde o ódio, o racismo, são vendidos como um modo de sobrevivência. Se conseguimos entrar, em poucas cenas ou diálogos, na cabeça de uma qualquer personagem, de imaginar as suas lutas – porque semelhantes às nossas, mas também porque completamente diferentes – de criar empatia com pessoas que não conheciamos até ali através de obras de ficção, porque é que hoje, num mundo cada vez mais fraturado, é tão difícil para tantos depois sentir empatia com quem representam essas personagens no mundo real? Isolados e abandonados, são esses os casos de Aurora, de On Falling, a sua solidão cavernosa que tenta remediar com um encosto de cabeça; o sorriso de Fatma em Put Your Soul… que desaparece quando a ligação falha; o imigrante estafeta de Souleymane, que cansado e agredido, procura dormir escondido num vão de escadas mas só consegue pensar no amor que teve de deixar para trás; são os deslocados de To a Land Unknown, desesperados no seu mundo em ruínas que só eles parecem ver; é o cinema ainda como resistência-refúgio na luta pela empatia com o outro – uma proposta absurda? Nunca.

João Lameira
- Lavagante (2025), Mário Barroso
- Trois amies, Emmanuel Mouret
- Volveréis, Jonás Trubea
- A Vida Luminosa, João Rosas
- Cão Preto, Guan Hu
- Sinners, Ryan Coogler
- Black Bag, de Steven Soderbergh
- As Aventuras de Uma Viajante na Coreia do Sul, Hong Sang-soo
- Superman, James Gunn
- Mission Impossible: Final Reckoning, de Christopher McQuarrie
Este ano, devido à realização da minha primeira longa-metragem Anda daí, fui presença irregular nas salas de cinema. Não vi muito mais estreias comerciais do que estas. Ainda assim, a lista parece-me bem jeitosa. Um ano com filmes de Hong, Mouret e Trueba nunca pode ser mau. E a estes somaram-se duas obras portuguesas de que gostei muito e o notável Cão Preto.
Mantive a fidelidade a Soderbergh e às Missões Impossíveis de McQuarrie (embora não tenha adorado esta última empreitada), tendo ganhado simpatia pelo novo Superman (que vai direito ao assunto) e por Sinners, que confirma Coogler como um cineasta que, mais do que sobreviver, medra em produções de grande orçamento.
Se as regras do À pala fossem diferentes, incluiria (e incluirei, com certeza, na minha newsletter Diga-se de Passagem) A Imagem de Uma Mãe, de Hiroshi Shimizu, e Adeus, Philippine, de Jacques Rozier, que para todos os efeitos são estreias e ocupariam (ocuparão), assim, lugares cimeiros da lista de melhores do ano.

Luís Mendonça
- The Shrouds, David Cronenberg
- Hard Truths, Mike Leigh
- Sirât, Óliver Laxe
- One Battle After Another, Paul Thomas Anderson
- Foi Só um Acidente, Jafar Panahi
- Tardes de soledad, Albert Serra
- Weapons, Zach Cregger
- The Brutalist, Brady Corbet
- No Other Land (2024), Yuval Abraham, Basel Adra e Hamdan Ballal
- Lavagante, Mário Barroso
Foi um ano bem chocho para mim. Não só vi muito menos filmes do que costumo ver como não sinto uma vontade gritante de assistir ao que me faltou assistir, descontando uma ou outra excepção (maior lamento vai para os seguintes que ficaram por ver: últimos de Hong Sang-soo, de Wang Bing, de Teresa Villaverde e de Paul Schrader).
Posto isto, também é verdade que encontro nesta lista filmes de uma força e, melhor, de uma “bruteza” que contrariam o sentimento geral de que 2025 foi um ano mole, mortiço e com pouca novidade. Pego no Mike Leigh (o seu melhor desde muito, muito tempo), sobretudo no Cronenberg (magnífico objecto teórico, em mortalhas, perfeitamente empático com o estado cadaverizante do mundo) e ainda num que decidi não incluir, por não ter visto em sala, Henry Johnson (2025), o mais recente de David Mamet, e, neles, encontro dramas adultos extremamente secos, frontais e interpelantes, quase ao jeito de “naturezas-mortas” (dos que ficaram de fora, podia ainda puxar para aqui Presence de Steven Soderbergh e a frágil curiosidade godardiana que foi o mais recente título de um realizador que julgava estar “perdido em combate”: Hal Hartley).
Os filmes de Laxe, Panahi e o espectáculo mascarado de sátira política e distópica de PTA são obras on the go e experiências, no limite, exigentes ou, no limiar, de um absurdo “demasiado real” que marcaram – bem no corpo – a minha experiência de espectador na sala escura este ano.
Para mais, No Other Land assinala a dureza – propriamente física e ulteriormente anímica – da vida de quem resiste enquanto “regista” e denuncia a barbárie-em-curso na Faixa de Gaza. The Brutalist, obra desequilibrada com a escala de um filme de Leone (os de PTA, de Laxe e mesmo o decepcionante de Kleber Mendonça Filho também operaram sobre esta vista muito larga sobre os tempos e o mundo, própria da dimensão do grande cinema de outrora), tem alguns dos planos mais impressionantes do ano de cinema (a Estátua da Liberdade ao contrário!). Por outro lado, Tardes de soledad é um bailado com a morte que encontra no grande plano (nos momentos silenciosos, depois da “matança”) a sua principal arena.
Weapons, fábula negra sobre a falência de uma comunidade (e de um país), foi o melhor filme de terror (se o de Cronenberg não for visto como tal) e sabe a filme dos nineties – como, aliás, também sabe o menos conseguido, ainda que enérgico, Aronofsky, que não cabe neste top. O filme de Mário Barroso, canalizando Cardoso Pires e António-Pedro Vasconcelos, é igualmente “old school”, polido e adulto. Forçando a comparação, diria que Lavagante talvez pudesse juntar-se aos outros “filmes de câmara” bem minimais e íntimos (de Cronenberg e de Leigh) que marcaram o ano ou, pelo menos, elevaram este 2025 que chegou a mim ou o 2025 com o qual quis marcar encontro no escurinho da sala.

Luiz Soares Júnior
- Miséricorde, Alain Guiraudie
- La Prisonnière de Bordeaux (A Prisioneira de Bordéus, 2024), Patricia Mazuy
- Propriedade (2022), Daniel Bandeira
- Juventude, Wang Bing
- Sirât, Óliver Laxe
- The Shrouds, David Cronenberg
- O Riso e a Faca, Pedro Pinho
- O Último Azul (2024), Gabriel Mascaro
- Feng liu yi dai (Marés Vivas, 2024), Jia Zhang-ke
- As Aventuras de Uma Viajante na Coreia do Sul, Hong Sang-soo
O ano de 2025 foi muito fecundo em horizontes, formais e de objeto, para um cinema que parece ter perdido a parada pro streaming, o que torna luta empreendida por nós, cinéfilos, quase agonística, de vida e de morte; eu francamente acredito que cinema, como dizia o Gláuber, é sempre questão de câmera na mão e ideia na cabeça – ou seja: podemos fazer cinema no celular, na TV, sendo a tela grande o quociente necessário para o sublime mas não suficiente para a recepção devida; no meu caso, sempre tento ver ou rever os filmes sobre os quais devo escrever em monitores menores que o telão daqui de casa, reservado para as sessões de restaurações prestigiadas e revisões de filmes do coração; e para que o monitor ? Porque para mim, ao menos como crítico, decresce soberanamente o poder do fascínio, e o filme aparece em sua nudez terrificante, é certo, mas não me deixa mais afásico como a visão em sala de cinema, que além de instrumentalizar minha mudez também me amarra pernas, mãos e boca; sim, alguém um dia escreveu (Schefer?) que a sessão de cinema se parece muito, pelo menos segundo a ideia e sua execução, com um experiment in terror (como dizia o grande Blake Edwards), porque nos suprime a liberdade de fala (a afasia de que falei) e de movimento, cercados de gente e de escuridão por todos os lados; ao rever os filmes para escrever, abdico do terror e da delícia da fascinação para empreender uma espécie de revanche inconsciente (um pouco como aqueles wishiful thinkings fugitivos mas assustadores que dirigem nossa mão vingadora contra a mãe neurastênica) contra o filme amado, que para me subjugar à sua mercê me condenara, em sua entente fascinatória terrorista, à paralisia da linguagem e somática; mas a questão das listas se alicerça sobre outra operação de crueldade, que ultrapassa a da recepção do cinema enquanto tal, porque para mim pelo menos fazer listas implica tanto ou mais em excluir que em eleger os preferidos: é uma atividade de exceção que implica o luto de todos aqueles que preferimos preterir; mas eu, como cinéfilo contumaz, já estou viciado nas bastonadas da liberdade, então eis-me aqui.

Paulo Cunha
- Foi Só um Acidente, Jafar Panahi
- Banzo (2024), Margarida Cardoso
- O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho
- On Falling, Laura Carreira
- Ainda Estou Aqui, Walter Salles
- Eddington, Ari Aster
- Nome (2023), Sana Na N’Hada
Ainda não vi: Justa, As Estações, O Riso e a Faca.
Estou velho!
Dói-me o joelho
Dói-me parte do antebraço
Dói-me a parte interna
De uma perna
E parte amiga
Da barriga
Que fadiga
O que é que eu faço?
Escolho o baço ou o almoço?
Vira o osso
Dói o pescoço
É do excesso
Do ex-sexo
Alvoroço
Reboliço
Perco o viço
Já soluço
Já sossobro
Esmiúço
Os meus sintomas
E já agora, de meu médico
Os diplomas
Esmiúço
A consciência
(…)
Quando o espelho me mira
Já nem o chapéu me tira
Deito-lhe a língua de fora
Pisco o olho e vou-me embora
(…)
– “O elixir da eterna juventude”, de Sérgio Godinho
Entre festivais e reposições em sala, a maioria dos melhores filmes que vi no último ano não tiveram estreia comercial em Portugal. Sinceramente, não sei se o problema é meu ou do mercado distribuidor português…
Sinto-me cada vez mais que sou um cinéfilo de outro tempo e de outro lugar. Tenho saudades do que não vi.

Ricardo Gross
- Sirât, Óliver Laxe
- Flow, Gints Zilbalodis
- Cão Preto, Guan Hu
- L’Histoire de Souleymane, Boris Lojkine
- One Battle After Another, Paul Thomas Anderson
- Bird, Andrea Arnold
- O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho
- Trois amies, Emmanuel Mouret
- Miséricorde, Alain Guiraudie
- O Riso e a Faca, Pedro Pinho
Este ano não darei contexto nem apresento justificativas. Prefiro concentrar-me em dez títulos que poderão muito bem vir a fazer parte da lista de 2026. Característica minha desde sempre: estar mais desperto para o que acontece do que para o que veio antes. Vamos então aos dez desejos que espero poder, entre outros, cumprir, em sala, a partir de Janeiro: Succederà questa notte, de Nanni Moretti; Mektoub, My Love: Canto Due, de Abdellatif Kechiche; Peter Hujar’s Day, de Ira Sachs; Dossier 137, de Dominik Moll; Miroirs No. 3, de Christian Petzold; Dreams, de Michel Franco; The Chronology of Water, de Kristen Stewart; Affeksjonsverdi, de Joachim Trier; Entroncamento, de Pedro Cabeleira; Marty Supreme, de Josh Safdie.

Ricardo Vieira Lisboa
- Hard Truths, Mike Leigh
- Henry Fonda for President (Henry Fonda Para Presidente, 2024), Alexander Horwath
- M3GAN 2.0 (2025), Gerard Johnstone
- L’Empire, Bruno Dumont
- The Shrouds, David Cronenberg
- Banzo, Margarida Cardoso
- Presence, Steven Soderbergh
- O Riso e a Faca, Pedro Pinho
- Miséricorde, Alain Guiraudie
- Final Destination: Bloodlines (O Último Destino: Descendência, 2025), Zach Lipovsky e Adam B. Stein
Ando a ler um pequeno e muito recomendável livro intitulado Contra la cinefilia, de um jovem crítico espanhol chamado Vicent Monroy (de quem li, um outro ensaio, igualmente certeiro, de seu nome Breve historia de la oscuridad, publicado no início deste ano de 2025). Foram recomendações de uma recente amizade, o José Machado. A clareza da escrita de Monroy e a forma como desmonta os pecadilhos com que nos habituámos a pensar o cinema e a sua história é muito refrescante. De forma sistemática e paulatina, Monroy desfaz uma série de mitologias sobre aquilo que entendemos por cinefilia (no livro) e por sala de cinema (no ensaio). O resultado dessa tarefa “dissolvente” é impor um novo olhar (ou pelo menos uma nova consciência) sobre aquilo que nos parecia “natural” e, até, “expectável”. Mas, talvez, de torrente de ideias e informações que atravessam estas páginas, aquilo que mais me tocou foi o dignóstico em relação à “eterna morte do cinema”. Faz parte da doença da cinefilia amar uma arte moribunda (e Monroy trata de recolher inúmeros exemplos, desde o fim do século XIX até à segunda década do século XXI, que demonstram isso mesmo). Se não cheirar um pouco a mofo, se não espreitar já uma larva por entre os dentes, se o cadáver não estiver já algo inflado, o cinéfilo não é capaz de carpir a sua perda e de entumescer a sua paixão. Também eu sou cinéfilo. Também eu fico com o pau duro de raiva ao pressentir o fim do cinema enquanto arte popular, pública e comunitária. Mas daí a padecer de priapismo necrófilo vai um pedaço. A flacidez também é uma benção. Patarecas cinéfilas de todo o mundo, acalmai-vos! Sim, isto está tudo a mudar. Sim, nada será como antes. Mas, não tem sido sempre assim? “Mas trata-se de uma mutação da própria ontologia das imagens, da própria forma de nos relacionarmos com elas, do próprio ritual das ver e das mostrar!” Talvez… E então? Não será o nosso entendimento do cinema (leia-se, o entendimento dos cinéfilos sobre o que é – e o que não é – cinema) demasiado restritivo? Se calhar o cinema é algo muito mais amplo, aberto, fluido e disperso do que achávamos. Se calhar andámos equivocados 130 anos. Cada vez gosto mais de filmes estranhos, desequilibrados, desengonçados, tentativos. Filmes feitos com a inconsciência da juventude ou com a desfaçatez da velhice. Filmes cheios de rasgo, e todos rasgados. Filmes que me divertem e me horrorizam, que me emocionem e me intriguem. Gosto de ser escavacado (o que talvez seja algo demasiado íntimo para deixar aqui escrito). E isso tanto resulta do confronto violento com imagens e sons feitos no limite da indiscernibilidade, como no mais reluzente e cristalino despojamento. E confesso-vos, nenhum outro cineasta este ano (sem ser o Wellman com o Westward the Women [1951]) me escavacou tão completa e profundamente quanto o senhor Mike Leigh – e fê-lo com a sagacidade de quem só precisa de mexer os dedinhos indicador e anelar. Tudo o resto foram rapidinhas (algumas com mais de três horas) agradáveis. Para 2026 desejo-vos a todos dois dedinhos competentes de um velho sábio (ou de um jovem dedicado), que fazem mais que o enorme e inchado cadáver da cinefilia.

Samuel Andrade
- Sirât, Óliver Laxe
- O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho
- Tardes de soledad, Albert Serra
- Foi Só Um Acidente, Jafar Panahi
- The Brutalist, Brady Corbet
- Cão Preto, Guan Hu
- Hard Truths, Mike Leigh
- On Falling, Laura Carreira
- Harvest (Colheita, 2025), Athina Rachel Tsangari
- Sinners, Ryan Coogler
Não, Paul Thomas Anderson, 2025 não foi um bom ano de cinema. Prova disso, foi a relativa celeridade — puro exercício instintivo, como provavelmente nunca me aconteceu — com que elaborei os meus favoritos do ano que agora termina. Uma lista dominada pelas minhas contínuas obsessões enquanto cinéfilo (o afecto estético do filme capturado em suporte analógico, subtextos dentro das narrativas, tudo aquilo que me causou singular frémito), com direito a menção honrosa: Henry Fonda For President, de Alexander Horwath.
Paralelamente a estes dez títulos, nos últimos doze meses, o chavão de Bogdanovich de que (e parafraseando) “não existem filmes antigos, apenas filmes que ainda não vi” foi uma lembrança constante. Em 2025, ficou o registo do prazer na descoberta de obras de Kamal Amrohi (Mahal), Binka Jeliaskova (Privarzaniyat balon), Bahram Beizai (Gharibeh Va Meh, Tcherike-ye Tara), Hasse Ekman (Flicka Och Hyacinter), Yoshishige Yoshida (Onna no Mizûmi), Roberto Gavaldón (La otra), Alfred Sole (Alice, Sweet Alice), Raj Khosla (Woh Kaun Thi?), Takashi Ito (Thunder, Ghost), John Ford (Kentucky Pride, o redescoberto The Scarlet Drop) ou William A. Wellman (Westward the Women, Other Men’s Women, The Next Voice You Hear).

Sérgio Alpendre
- The Shrouds, David Cronenberg
- Miséricorde, Alain Guiraudie
- As Aventuras de Uma Viajante na Coreia do Sul, Hong Sang-soo
- The Phoenician Scheme, Wes Anderson
- Rendez-vous avec Pol Pot, Rithy Pahn
- La Prisonnière de Bordeaux, Patricia Mazuy
- Trois amies, Emmanuel Mouret
– Ano miserável, o pior desde que comecei a participar desta lista anual.
– As estreias portuguesas, no geral, me pareceram ainda mais fracas que as brasileiras. Primeira vez que isto acontece.
– O melhor filme brasileiro não estreou em Portugal: Oeste Outra Vez (estreou em Gramado 2024, e nos cinemas brasileiros em 2025).
– O melhor filme português também não estreou: Fuck the Polis, atração da última Mostra Internacional de São Paulo.
– O resultado da pobreza reverba nas listas das revistas: um festival de filmes medíocres ou razoáveis aparecem em todas elas, títulos como One Battle After Another, Sentimental Value, Tardes de soledad e Sinners. Não duvido que estejam bem colocados na lista geral de À pala de Walsh. Listas gerais tendem a ser conservadoras.
– Consequentemente, minha lista tem menos de dez filmes. Resolvi colocar só os que merecem estar em listas deste tipo.
– Lista de autores: Cronenberg, Guiraudie, Hong Sang-soo, Anderson, Panh, Mazuy, Mouret.
– Em outros anos, penso que só três ou quatro estariam entre os dez melhores.
– Esta é uma lista parcial, com esboço de texto. Costumo aproveitar esta época do ano para ver filmes que por algum motivo perdi.
– Hors concours: Lumière! A Aventura Continua. Colocar Lumière para competir com os contemporâneos é desigual demais. O filme não é de Louis Lumière, mas é como se fosse. A graça está toda em suas vistas.

Susana Bessa
- Matt and Mara (2024), Kazik Radwanski
- Miséricorde, Alain Guiraudie
- Sorry, Baby, Eva Victor
- Train Dreams (Sonhos e Comboios, 2025), Clint Bentley
- O Riso e a Faca, Pedro Pinho
- L’Histoire de Souleymane, Boris Lojkine
- Vermiglio, Maura Delpero
- Hard Truths, Mike Leigh
- Cão Preto, Guan Hu
- A Vida Luminosa, João Rosas
Densos microcosmos, cada um de uma maneira diferente.
A encabeçar e a acabar, filmes que são peças acústicas: auscultam os ritmos e timbres do comportamento humano. E explicam o que procurei este ano: “I want the sound of my life, I think”, como ouvi em The History of Sound (2025), de Oliver Hermanus.
Mais haverá a dizer sobre o facto de que o filme que marcou o meu ano passado no cinema (Matt and Mara) pode agora fazer parte da minha lista deste ano apenas porque pode ser visto em streaming (MUBI). Será que se pode confiar nas distribuidoras portuguesas para fazer o trabalho neste momento?
Da minha outra lista de 2026 (filmes não estreados), para os cinéfilos mais curiosos (como eu), fazem parte Peter Hujar’s Day, Las Corrientes, La Tour de Glace, If I Had Legs I’d Kick You, Measures for a Funeral, Universal Language, Little, Big and Far, Bogancloch, 7 Promenades avec Mark Brown, Good One, Pillion, Love Me Tender, Fantaisie, Estrany Riu, Familiar Touch, 旅と日々 (Two Seasons, Two Strangers), e no topo da árvore de natal, a estrela que é Blue Heron, uma orquestra investigativa da memória.
Despeço-me deste ano com uma citação de Joy Kane (tirada de Carol & Joy, pequeno grande filme de Nathan Silver que vi recentemente), que levo para um contexto diferente, o da cinefilia mesmo em tempos incertos, com um desejo de festas felizes e um óptimo ano novo para todos:
It was so real and it was so full of movement. It moved my body.
I thought the waves were gonna sweep me over. I did.

Tiago Bartolomeu Costa
- O Riso e a Faca, Pedro Pinho
- Dane-ye anjir-e ma’abed (A Semente do Figo Sagrado, 2024), Mohammad Rasoulof
- Tardes de soledad, Albert Serra
- A savana e a montanha (2024), Paulo Carneiro
- Lavagante, Mário Barroso
- Ainda Estou Aqui, Walter Salles
- Sirât, Óliver Laxe
- Paraíso (2025), Daniel Mota
- The Shrouds, David Cronenberg
- Flow, Gints Zilbalodis
Cinema de paisagem, onde as personagens se perdem numa qualquer esperança que só o ecrã, maior do que o espetador, ainda pode fazer. Em 2025, trazendo filmes estreados em festivais que desafiam a nossa própria relação com o território – até o território do cinema: a que se pertence quando não nos podemos deixar ir pelo quotidiano e precisamos de nos “foie-graizar” numa quinzena todos os meses? – fascinaram-me filmes que usam a nossa crença neles como arma para enfrentarem a memória. Filmes que são, a partir daquilo a que sujeitam as personagens, exemplos de inscrição magoada da perda de memória, e que nos servem essas personagens como catalisadores de debate sobre culpa, empatia e memória. O Riso e a Faca, no topo de uma lista com mais três filmes portugueses, todos eles reveladores de uma forma de olhar para a história contemporânea e, sem pressa, deixarem instalar o espanto do reconhecimento, serve de cataclisma para um cinema de intervenção, que espera e acompanha o espetador. A savana e a montanha, Sirât e Paraíso dialogariam bem com esse cinema de guerrilha, a trabalhar para quem está alguém do outro lado (nós!), confiantes de que queremos semos tomados de assalto pela urgência de filmar o que já não existe, não para nostalgicamente o arrumar em listas, mas para os prolongar sobre outros. Os filmes não têm todos que ser assim, mas estes ajudam-nos a olhar para, e pelos outros. Flow fazia isso, The Shrouds também, cada um à procura de uma imagem que melhor capte o que se sente já perdido, e se descreve melhor na reconstrução permanente da verdade. Se A Semente do Figo Sagrado, Lavagante e Ainda Estou Aqui servirem para mais alguma coisa que não a reescrita da história, o que não é pouco, dir-nos-ão como o cinema pode ser o cicatrizante de uma ferida sempre aberta por escolha coletiva. Não esquecer não é só lembrar, é também agir sobre o presente. E depois há Tardes de soledad, objeto poético, de uma provocação plástica e visual só comparável a Zidane, a 21st century portrait, de Douglas Gordon e Phillipe Parreno (2006), grave e ferida, que inteligentemente inventa uma outra forma de ver, quase grega, trágica, evocativa, e pia. Um espanto!

Tiago Ramos
- Tardes de soledad, Albert Serra
- O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho
- Volveréis, Jonás Trueba
- The Shrouds, David Cronenberg
- Vermiglio, Maura Delpero
- Caught Stealing (Apanhado a Roubar), David Aronofsky
- One Battle After Another, Paul Thomas Anderson
- Cão Preto, Guan Hu
- Miséricorde, Alain Guiraudie
- Hard Truths, Mike Leigh
Tardes de soledad é o mais belo, íntimo e horrorífico filme do ano. Os corpos do animal e do matador projectam-se, antecipam-se e colidem numa dança macabra em que a afirmação da vitalidade do ser humano transforma-o num anjo de morte. O touro entra na praça num estado de inocência e força plena. O animal ignora as farpas que o esperam, os golpes que o cegarão de sofrimento e a aflição que o fará arremeter-se contra a capa encarnada que oculta uma espada. Como a morte, a espada está sempre presente, ainda que levemente velada. É contra a morte que se investe, procurando, sem sucesso, desarmá-la. As farpadas repetem-se e acumulam-se, são inevitáveis. A fuga da arena é impossível – a única saída está no fio da espada. Quando a hora da morte chega, já não se teme o que jaz além, simplesmente se aguarda pelo golpe de misericórdia.
O Agente Secreto – outra crónica de uma morte anunciada. Porém, nela encontra-se a centelha de um cinema de género, de matriz formal, que está em vias de extinção. Volveréis também resgata e reformula os códigos de um outro género depauperado: a comédia romântica. Para Cronenberg os mortos são organismos metabólicos, mutantes e metamórficos que assombram os sonhos e os écrans dos vivos, ao passo que Delpero estuda uma outra orgânica em Vermiglio, um filme em que os ritmos de uma comunidade cristalizada pela luz do glaciar se confundem com os compassos da música clássica.
Darren Aronosfky afastou-se do tom soturno que lhe é característico e entregou-se a uma comédia de acção nova-iorquina – a mudança ficou-lhe bem. Por sua vez, Paul Thomas Anderson realizou uma sátira em que a procura de uma desaparecida nos conduz à exploração do horizonte sociopolítico norte-americano. À semelhança de One Battle After Another, Gou Zhen faz uma aproximação ao western através de uma composição que faz da panorâmica um recurso formal que rasga a paisagem do deserto chinês. Miséricorde ensaia um drama caricato sobre a violência do desejo. A aldeia não se une para matar Jérémie, como seria de esperar num romance de cordel – o esforço dos aldeões consiste em amordaçar a presa por via da indulgência. Pansy, a protagonista de Hard Truths, é um nervo exposto que está constantemente reactivo. Os familiares esforçam-se para responder com amor e clemência aos acessos da mulher. Quando Chantelle pergunta à irmã por que razão esta não consegue aproveitar a vida, a protagonista diz-lhe, numa rara resposta que não soa a um contra-ataque, “Não sei”.
