Ter já o início perfeito para este texto, que passaria por citar aquela entrevista em que Bette Davis, por lapso (freudiano ou não, se veria, e aí a piada), trocaria o nome deste filme, referindo-se a Mrs. Skeffington. Mas, afinal, depois de muitas buscas no histórico do YouTube, a dita entrevista teima em não aparecer, ou aparece sem a apetecível blague. Teria sido uma miragem, juntamente com o comentário que especificamente referia o engano de Bette? O que nos leva por um outro caminho, que mais à frente desenvolveremos, e que se prende com a existência central de uma mulher nesta história, enquanto essa centralidade parece ser-lhe permanentemente roubada – desde o título (e veja-se as traduções que o título mereceu nos diferentes países, notando-se ensejo “justiceiro” dos tradutores, transferindo o protagonismo para a protagonista mulher) até à tagline “A woman is loved when she is loved”, que rouba à mulher o poder de controlar a sua própria beleza.

Fanny é uma serva da Beleza, é ela o seu verdadeiro amor, é ela que merece toda a sua devoção.
Embora Mr. Skeffington (A Vaidosa, 1944) não pudesse existir sem o seu Skeffington, o sempre magnífico homem da voz de veludo Claude Rains, este é sem dúvida um filme que pertence inteiramente a Bette Davis. Ela torna-se bela para interpretar a personagem saída da pena de Elizabeth von Arnim, Fanny Skefington, a eterna coquette que atravessa épocas e vai passando de moda como um bibelot, entre o envelhecer sereno que vai sendo disfarçado com truques femininos até à fractura que não pode ser atenuada sem recurso a maquilhagem pesada de cena, um perfume demasiado intenso e caracóis artificiais que caem embaraçosamente pelo chão. É a sua beleza e o seu modo de amar que passam de moda, um lenço que se deixa cair já fora de tempo. Inicialmente, esse era o truque que todos os seus pretendentes conheciam e ao qual obedeciam imediatamente, anos mais tarde, o pretendente é só um, mas ainda reconhece o sinal ainda que démodé, finalmente não passa já de um gesto inócuo. A face de Fanny, aquela face que outros amaram, carregou-se de artificialidade, tornou-se um cenário de cinema. A beleza a que Fanny quer agarrar-se é aquela que ficou perpetuada no retrato encomendado por Job, permanentemente a assombrá-la na sua própria casa. Afinal, não serão sempre estes quadros instrumentos perfeitos de assombração? Assim era em Laura (1944), com Gene Tierney a regressar dos mortos no seu trench coat branco, e também em Portrait of Jennie (O Retrato de Jennie, 1948), com Jennifer Jones navegando entre passado e presente para amar e ser amada.

Mas se Fanny Skeffington nada tem de Bette Davis na sua coquetterie, ela é simultaneamente inteiramente Bette na sua determinação, na sua imperturbabilidade, na sua força inabalável, em suma, aquilo que teria levado Bette Davis a dizer a Kinuyo Tanaka, aquando da sua visita aos Estados Unidos, em 1949, “eu sou a Kinuoyo Tanaka americana” (sendo que Tanaka era frequentemente apelidada de “Bette Davis japonesa”).
Apesar dos espectros que possam perturbar a vida de Franny, ela é decididamente uma mulher deste mundo. Pragmática, prática, decidida, com mão firme no conduzir da sua vida. Quando Job afirma “A woman is beautiful when she’s loved, and only then”, Fanny contrapõe-lhe simplesmente “Nonsense. A woman is beautiful when she has eight hours’ sleep and goes to the beauty parlor every day. And bone structure has a lot to do with it too.” Fanny é uma serva da Beleza, é ela o seu verdadeiro amor, é ela que merece toda a sua devoção. Daí que, após a doença que faz com que todos os anos a que foi tentado fugir lhe caiam repentinamente em cima, no momento em que ela deixa de ser capaz de seduzir, ela sente-se verdadeiramente abandonada por esse amante – a Beleza. Algo que um psiquiatra demasiado ocupado a tecer juízos quanto à sus paciente não consegue atenuar, desprezando o chagrin de Fanny como ridículo. E até o velho pretendente que aparenta não ter deixado o seu papel de galanteador, acaba por revelar-se apenas um oportunista, abandonando a cena logo que Fanny deixa claro que ela não poderá ser a sua bóia de salvação financeira.
É um momento de crise para Fanny Skeffington, quando a idade a ataca de forma fulminante, fazendo-a avançar dos trinta para os sessenta em poucas semanas. O engenho e o tempo necessários para (re)criar a sua beleza passam a ser significativamente maiores. E é neste ponto de crise que uma assombração começa a tomar vida e a ser presença constante junto dela. Job, o mesmo homem que ela tratava como presença espectral enquanto era seu marido e partilhavam a mesma casa, passa agora a ter uma presença mais real e constante enquanto fantasma. Se a vida é longa o suficiente, existe tempo para se deixar surpreender, para que aconteça o inesperado, o inexplicável. O que se relaciona também com a duração de Mr. Skeffington, quase duas horas e meia, uma duração anormalmente longa para um não-épico dos anos 40. O que significam esses minutos adicionais, esses quarenta ou cinquenta minutos que não existiriam normalmente num melodrama da Warner Bros. dessa época? Veja-se como Fanny atravessa boa parte do filme sem que a sua vida se altere de forma significativa – sempre os mesmos pretendentes em torno dela como abelhas em volta do mel, sempre os almoços cancelados com a amiga Janie Clarkson, sempre o amor absoluto de Job. Não foi difícil conquistar este homem que já estava conquistado, mais do que um mero cortejador, um verdadeiro apaixonado, aquele que encomendou pela calada o retrato de Fanny Trellis, a rapariga com que todos queriam casar (o seu twist à história rags to riches, substituindo o casamento com a filha do patrão). A conquista de Fanny é feita numa escada, muito impulsionada por ela, uma troca de olhares cúmplice e silenciosa que diz tudo.

O rosto de Claude Rains oferece-se a essa paixão. Ele mostra a reserva do amante inquieto, assim como a resignação de quem aceita o amor unilateral com uma certeza. É a fragilidade que ele demonstra ao abrir desajeitadamente o estojo com a pulseira de diamantes que oferece a Fanny – uma prenda que até George afirma ser demasiado grandiosa como retribuição pelo (parco) amor da mulher. Para Job não há ilusões, ele aceita Fanny tal como ela é e também a sua falta de reciprocidade e deste modo ama-a com total abnegação. “I am a very patient man”, diz ele a dada altura. Ele acredita, como acreditaria qualquer cinéfilo que tivesse consumido demasiados filmes românticos. Chegará o momento em que Job deixa de acreditar e é penoso testemunhá-lo, porque ele próprio se transforma, há uma mágoa que passa a tomar conta do olhar de Job. Uma desilusão que fica bem evidente na conversa com a filha, quando ele antevê separar-se da pessoa que verdadeiramente o amou. E há todo um desconforto nessa transferência de sentimentos, no pedido para que a filha use o vestido azul, que a torna mais parecida com a mãe.
A Fanny Skeffington que deixou de ser amada por Job, que deixou de ser amada por todos, ocupa a casa que sempre foi a sua como uma prisioneira. Talvez este plano seja a hora feliz do discreto Vincent Sherman, aquele em que a câmara se afasta para abarcar toda a sala e assim deixar Fanny encurralada num espaço que se tornou maior, atormentada pelos espelhos que anteriormente a amavam. O andar ondulante característico de Bette Davis, o andar da Charlotte Vale em Now Voyager (A Estranha Passageira, 1942), transforma-se num andar titubeante, inseguro, marcado pela doença. E talvez a vida tenha de ser longa, por vezes demasiado longa, e talvez a metragem tenha de ser longa, por vezes demasiado longa, para que seja concedida uma palavra final à redenção.

Mr. Skeffington ou Mrs. Skeffington? Porventura pertencerá este filme, realmente, a Job Skeffington, porque é ele que, pela sua constância, é finalmente mais generoso para Fanny do que qualquer outro dos homens que a amaram, mais generoso do que ele próprio acreditaria ser capaz. Apenas quando Job perde a sua própria beleza e a sua capacidade para ver a beleza de Fanny, conseguirá ele produzir o milagre em que sempre acreditou.
“Maybe the poets are right. Maybe love is the only answer.”
