Diz-se que a noite é boa conselheira. Talvez seja por isso que Alex (Vito Sanz) espera pelo fim da madrugada para dizer a Ale (Itsaso Arana), sua namorada há catorze anos, que devem realizar uma festa para celebrar a sua separação. Na origem desta ideia estão os comentários que o pai de Ale (Fernando Trueba) fazia acerca do matrimónio quando a filha era mais jovem. Inspirado pelos costumes do povo mauritano, que celebra o divórcio como uma boda, assim como por uma falta de crença no casamento enquanto instituição, o pai da protagonista gracejava que são as separações que devem ser comemoradas, uma vez que, ao contrário das promessas de união na alegria e na tristeza, e na saúde e na doença, os fins das relações amorosas tendem a durar o resto da vida. Deitada junto do namorado num estado de vigília que se confunde com o sono, Ale mostra-se hesitante no que diz respeito à organização da festa e à decisão de se separar de Alex.

Horas depois, a rotina das personagens é retratada por via de um split screen. O lado esquerdo do enquadramento acompanha Ale no andar superior do apartamento ao passo que o lado direito mostra Alex a preparar o café no piso inferior. A divisão da tela e a distribuição dos namorados em diferentes divisões e andares da casa expressam visualmente a separação preconizada na sequência anterior. No entanto, a cena em causa termina com a restituição da unidade do plano e com Ale a encher uma chávena de café. Ou seja, o movimento de rompimento e reconciliação que estrutura a intriga é prefigurado logo na segunda cena através da passagem do split screen para o ponto de vista uno. O pormenor de ser Ale e não Alex a beber o café também é relevante porque insinua que, mesmo quando a tela estava dividida e o casal estava separado, o protagonista pensava na namorada, preparando-lhe parte do pequeno-almoço.
As sequências em que se vê Ale montar o filme geram uma mise en abyme que denuncia as costuras do filme realizado por Jonás Trueba. Este dispositivo meta-reflexivo não seria cativante se fosse gratuito.
Os pequenos gestos de cumplicidade acumulam-se. Desde a maneira como Alex muda os lençóis, depois de os encontrar sujos, à forma como Ale se voluntaria para comprar uma cadeira pirosa para que uma outra, que Alex quer adquirir, não fique sem par. Os cigarros partilhados e os copos de vinho que os namorados enchem mutuamente, sem que para isso tenham de pedir, são outras atitudes reveladoras do companheirismo discreto de ambos. Mesmo os episódios em que os protagonistas contam às pessoas mais próximas que se vão separar e que planeiam comemorar o fim da vida a dois têm o efeito contra-intuitivo de reforçar o vínculo do casal. A divulgação da notícia transforma-se num número teatral, assente num texto chistoso, que explica a origem e o racional que fundamenta a ideia da festa de casamento, só que em reverso. A certo ponto, é como se Ale e Alex, ambos actores de profissão, se tornassem actores na vida privada ao interpretarem, para o círculo mais próximo, o papel de casal prestes a separar-se.
Tanto em conjunto quanto sozinhos, os protagonistas repetem a ladainha do término da relação uma dezena de vezes, despertando nos amigos e na família reacções que variam entre a estupefacção, a tristeza, a aprovação do conceito de celebrar a separação, e a observação esperançosa: voltareis (a estar juntos). Embora inapropriado para se dizer a um casal em via de romper o relacionamento, o último comentário não é despropositado, visto que os namorados continuam a falar na primeira pessoa do plural e fazem-no com a entoação traquina de quem está a pregar uma partida, como se o discurso de separação fosse uma brincadeira que os reaproxima.

Assim, a narrativa progride através da acumulação de gestos e de frases repetidas que se apresentam sempre com uma configuração diferente – por exemplo, à medida que a acção se desenvolve o tom das personagens transparece mais tristeza e incerteza, consequência da separação se estar a efectivar. Se de início Ale e Alex defendem energicamente a comemoração da separação aos amigos e à família, que acham, regra geral, a ideia absurda, com o passar do tempo hesitam e mostram-se incapazes de se escudar das críticas, como acontece na sequência em que contam a notícia a um casal amigo. Os namorados justificam a celebração diversas vezes, mas nunca elucidam as razões que os levam a separar-se. Sabe-se que a ideia partiu de Alex, pouco mais. Quando confrontados com o porquê da separação, as personagens encolhem os ombros e dizem que é isso que ambos querem, embora seja claro que tal não é totalmente verdade. A separação é uma consequência cuja causa pode-se apenas adivinhar. A ausência de querelas, traições e outras intrigas evita que se caia em lugares-comuns. O esvaziamento propositado do drama matrimonial salienta, por outro lado, o carácter burlesco da comédia, visto que as intenções do casal contradizem a sua predisposição amorosa.
A impressão de repetição é acentuada pelo entrelaçar da vida conjugal e profissional dos protagonistas. Ale é uma realizadora e actriz de cinema e Alex costuma contracenar nos filmes dela. Já em pós-produção, a realizadora está a montar um filme, intitulado Volveréis, que é interpretado por si e pelo companheiro. Pelo que se vislumbra, os eventos retratados no filme correspondem exactamente aos da vida do casal. É como se o drama conjugal de Ale e Alex, nomes que já por si se ecoam, fossem reproduções de uma ficção já filmada, o que evoca o mote da repetição.

As sequências em que se vê Ale montar o filme geram uma mise en abyme que denuncia as costuras do filme realizado por Jonás Trueba. Este dispositivo meta-reflexivo não seria cativante se fosse gratuito – contudo, para além de fazer sentido conceptualmente, visto que acrescenta nuance ao conceito de repetição, a viragem meta-reflexiva tem impacto na forma do filme. A partir do momento em que o processo de montagem encabeçado por Ale é representado, a montagem de Volveréis (Voltareis, 2024), de Jonás Trueba, muda: torna-se caleidoscópica e faceciosa, chegando mesmo a prescindir pontualmente da linearidade durante a última terça parte. Portanto, Trueba mostra Ale a fazer experiências com as imagens e sons do seu filme com o objectivo de preparar o espectador para os jogos formais que irá realizar. Neste sentido, constata-se um atrevimento até então estranho a Trueba, cujo cinema, em particular as suas primeiras obras, não é muito imaginativo ao nível da montagem e da composição.
Mesmo à margem da produção cinematográfica profissional, a vida do casal confunde-se com o cinema devido ao arquivo pessoal de vídeos que preservam momentos que partilharam. O visionamento de passeios e viagens que fizeram juntos faz com que Ale e Alex valorizem o percurso por si trilhado, precipitando a reconciliação. O cinema não reaviva a memória da história do casal, o cinema é o medium que expressa e constrói essa memória. Apesar da cumplicidade do casal, a primeira vez que os namorados se tocam, salvo erro, é precisamente no decorrer desta sequência, ao darem as mãos.

Volveréis termina com a realização da aguardada festa. Porém, a organização do evento e o trabalho em conjunto que empreenderam para se separar reaproximou o casal que, ao invés de comemorar o término da relação, celebra uma boda há muito adiada, consumando a fórmula clássica das comédias de recasamento.
★★★☆☆
