A pergunta que mais ouvi nos últimos quatro meses foi “Filipe, quando você vai assistir Ainda Estou Aqui (2024)?” Não, me incomodo com a pergunta, entendo que quem me lê queira a minha opinião sobre as coisas. Ao mesmo tempo, me surpreendo um pouco que as pessoas que me acompanham não estejam acostumadas a que me demore provavelmente três meses e não uma semana para ver algo. O filme foi, por aqui, um considerável fenômeno, os textos sobre ele se acumularam, tem quem passou os últimos meses falando sobre ele regularmente. Da minha parte tudo só aumentava um certo enfado. Quando mais se escrevia sobre o filme mais o meu desejo de se juntar ao grupo de vozes que não parava de o repercutir. O que – veja bem – é bem diferente do sucesso de público obtido por ele. Acho ótimo que as pessoas assistam e se emocionem com o filme, só me sentido por mais desinteressado pelo que se escrevia pró e contra ele (os textos de posicionamento contra não era em nada melhores que os do “oba oba patriótico”, mesmo que no geral mais justos), sobretudo nas famigeradas redes sociais.

Seria diferente se eu me interessasse mais pelo cinema do Walter Salles? Provavelmente um tanto, se tenho a chance de ver logo um filme do Júlio Bressane, eu o faço, como fiz por exemplo com Leme do Destino (2023). Não tenho muito interesse nos filmes do Salles. Só tem dois que eu minimamente gosto: Terra Estrangeira (1995) e Linha de Passe (2008), ambos co-dirigidos por Daniela Thomas. Diarios de motocicleta (Diários de Che Guevara, 2004), em particular, possivelmente lhe valeriam a guilhotina pós-revolução tanto quanto ele ser banqueiro. Mas se eu teria corrido mais se me interessasse mais pelo cinema de Salles, o meu enfado não estaria bem com isso. Perdi a conta de quantas vezes mencionei a alguém que daquela semana não passava – e toda arte pensava comigo mesmo que não estava no fim. É estranho como as coisas funcionam, se eu não mantivesse um diário público do que eu vejo talvez o tivesse assistido em algum ponto de Janeiro, mas sabia que vê-lo significava me tornar parte do discurso e isso – e não o filme – me causava o meu desinteresse.
Sabia que ver Ainda Estou Aqui significava me tornar parte do discurso e isso – e não o filme – me causava o meu desinteresse. Meu problema não era com o cinema certinho e meio enfadonho do Walter Salles, mas com o evento midiático que se formou em torno do filme dele.
Meu problema não era com o cinema certinho e meio enfadonho do Salles, mas com o evento midiático que se formou em torno do filme dele. No geral, sou um crítico um tanto lento, pelo menos para os padrões de quem está na atividade diária. Como já disse, é bem provável que eu gaste alguns meses para comentar algo, o que não seria tão estranho quarenta anos atrás, mas é bem pouco comum hoje em dia. Salvo por uns poucos textos feitos para a grande imprensa e artigos escritos durante festivais, não costumo escrever sobre as coisas no calor do momento. A natureza dos sites para os quais colaborei certamente ajudaram nisso, até quando escrevia rápido às vezes demorava-se para publicar. Lembro-me de assistir o The Wolf of Wall Street (O Lobo de Wall Street, 2013) numa sessão de imprensa, escrever-lhe um texto que me parecia cheio de reparos no contexto da recepção entusiasmada dos críticos norte americanos e que, quando dois meses depois foi publicado, após a acolhida bem mais fria dos brasileiros, soava até elogioso.

Quando comecei a escrever no início dos anos 2000, sites como a Contracampo no qual iniciei minha carreira eram ainda uma novidade e costumava-se diferenciá-los da grande imprensa para o bem (espaço, entusiasmo, uma liberdade editorial) como para o mal (um certo amadorismo inevitável quanto se estava numa ação entre amigos, assim como outras consequências dela). Nestes vinte e poucos anos esta diferença foi aos poucos sendo apagada, já não se fala muito da distância entre críticos e blogueiros, mas dos quase extintos críticos (que incluem os antigos blogueiros) dos famigerados influencers, apesar de que quase ninguém que se leve a sério aceita a segunda alcunha.
A discussão escrita passou cada vez mais para o espaço das redes sociais cuja linguagem se aproxima mais do que a segunda prática independente do olhar e abordagem de quem escreve. Faz, portanto, todo o sentido que seja tão difícil diferenciar entre os dois. De alguma forma somos todos empurrados a contribuir com o discurso, inclusive quem se esforça muito em evitá-lo. É algo para o qual também contribui bastante o final de espaços coletivos e/ou independentes. Um dos prazeres de fazer esta crônica mensal é a sensação de não estar somente na minha própria caixa de ressonância solitária, mas de escrever algo que vai dialogar de alguma maneira com várias outras contribuições. É uma constatação óbvia, mas que me parece fazer uma genuína diferença. O olhar sobre os filmes meio que vai-se afunilando constantemente nestes espaços dominantes. Não surpreende que um dos efeitos dele é também um apagamento de qualquer diferença. Haverá para cada filme um discurso unânime e quando muito uma segunda contra narrativa que se opõe a esta primeira que é, no geral, tão uniforme quanto a primeira. Quanto maior o evento, pior este processo acontece. E aqui no Brasil não teve no último ano um evento maior que este filme do Salles.
O ideal seria estar o mais afastado possível desta discussão toda, e ver Ainda Estou Aqui em 2028 ou 29, quando o barulho do evento se tornar só uma nota de rodapé do filme em si. Como crítico você acaba sempre refém das atualidades (a alternativa da academia me parece produzir as suas próprias formas de enfado), então terminasse nessa tentativa de equilíbrio absurda, no qual se está destinado a perder. Uma vez que, no momento em que colocamos um olhar no papel, somos tragados para dentro do redemoinho de opiniões.

Eu finalmente vi o filme no último dia 25 e até escrevi umas linhas mal traçadas no meu celular. Mencionei em algumas redes que tinha escrito sem dar link ou sequer mencionar o filme por nome só para informar quem tinha perguntado no Twitter (a famosa casa dos loucos). Deletei o aviso três horas depois, já que começavam a brotar o tipo de comentários com os quais eu tinha zero desejo de lidar desde sempre. Ver o filme em si me causou muito pouco. É curioso em algumas coisas (sobretudo nas que se relacionavam com outros filmes de Salles), tem por vezes momentos mais positivos (a hora depois do desaparecimento é no geral forte), outros longe disso (o bate ponto burocrático rumo a confirmar as pequenas vitórias da república democrática é de um academicismo frouxo que só…). Principalmente me deixou bastante triste por motivos que se relacionam só em parte com o cinema: um filme tão tímido na sua oposição à ditadura, tão básico nas suas posições que parece importante porque a sociedade ao redor apodreceu tanto na última década que as suas afirmações acabam encontrando alguma contundência. É um filme que vou associar para sempre com a tela do meu computador e do meu celular. O filme vai existir em torno do burburinho da política e o ato de vê-lo será quase um detalhe – algo que me parece inescapável, goste dele mais ou menos do que eu.
