Body Double é uma rubrica do À pala de Walsh que transforma o artista convidado num programador (também) ao serviço das suas imagens. No âmbito desta rubrica, cada realizador ou artista escolhe uma obra sua e “programa” (virtualmente) um outro filme para a emparelhar. Num pequeno texto, dá pistas sobre a ligação entre os dois “corpos”.


Faust (Fausto, 2011) de Aleksandr Sokurov, à esquerda, e That’s How I Love You (2024) de Mário Macedo, à direita.
Estava deitado num sofá, a resvalar para o sono – nesse limbo onde se abrem portais na mente – quando esta cena do filme do Sokurov me assaltou. A poucos meses de entrar em produção, senti aquelas imagens há muito esquecidas surgirem como um presságio.
Como podia aquela obra ainda habitar em mim? Passara mais de uma década após o seu visionamento, a 5 de Setembro de 2013 no Cineclube de Joane, e pouco me recordo para além desta cena.
Acordei sobressaltado e percebi, de imediato, que o meu subconsciente me oferecera a peça que faltava para completar o nosso filme.
E, assim, alimentei magicamente esta ilusão que me faz bulir.
Mário Macedo, realizador
