Body Double é uma rubrica do À pala de Walsh que transforma o artista convidado num programador (também) ao serviço das suas imagens. No âmbito desta rubrica, cada realizador ou artista escolhe uma obra sua e “programa” (virtualmente) um outro filme para a emparelhar. Num pequeno texto, dá pistas sobre a ligação entre os dois “corpos”.


Nome (2023), de Sana Na N’Hada, à esquerda, e Orlando Pantera (2025), de Catarina Alves Costa, à direita
Lembrei-me deste filme, uma ficção de um realizador guineense. Lembrei-me pela cinematografia que vai envolvendo a narrativa com imagens que trazem a presença de alguns fantasmas, e da morte. O filme Nome (2023), de Sana Na N’Hada, ergue-se como um gesto simultaneamente poético e político. Nele, o realizador mergulha sem hesitação no âmago dos afetos de cada personagem para revisitar a história da Guiné-Bissau e, a partir dela, meditar sobre identidade, desilusão e memória coletiva. Com delicadeza e rigor, Na N’Hada convoca as lembranças da guerra colonial e de uma juventude que se entregou, corpo e espírito, à luta contra o exército português. A narrativa é atravessada por imagens de arquivo captadas pelo próprio cineasta e por seus camaradas durante os anos de fogo da guerra de libertação, fazendo do passado uma presença pulsante. Nome, o protagonista, é aquele que parte em busca de um ideal revolucionário, fugindo da dor indizível de permanecer. Entrega-se à luta armada como quem oferece o corpo ao destino, transformando-se num combatente e, mais tarde, num herói silencioso, marcado pelas cicatrizes que o tempo não apaga. A primeira parte do filme abre-se como um sonho: a vida guineense surge em sua forma idílica — crianças que na floresta imitam o canto dos pássaros, corpos que pescam nas águas do rio, mãos que esculpem o bombolon, tambor de fenda nascido do tronco de uma árvore. É uma arcádia tropical, uma sensação de eternidade. Mas cedo a aparição de uma figura espiritual, o rosto pintado de branco, rasga essa harmonia e anuncia o presságio: “a ameaça de uma grande dor paira no ar.” Há um céu de estrelas, e nas imagens a preto e branco as figuras dançam como sombras de outro mundo, como espíritos convocados pela própria terra. Mas aos poucos, essa tessitura lírica e espiritual, tão intensa no início do filme, cede lugar a um olhar atento sobre uma realidade social marcada pelo peso das tradições. O protagonista, tal como Orlando Pantera, personifica a ideia do anti-herói, a viagem da vida, a presença da morte.
Catarina Alves Costa, realizadora de cinema e antropóloga
Orlando Pantera está nos cinemas agora.
