Em Feng liu yi dai (Marés Vivas, 2024), Jia Zhang-ke constrói um ensaio cinematográfico sobre o amor, a memória e a transformação social da China nas últimas duas décadas. Mais do que contar a história de um romance falhado, o realizador propõe uma meditação sobre o próprio gesto de filmar – o ato de guardar o tempo enquanto o mundo muda.

Produzido entre 2001 e 2023, Marés Vivas resgata e dialoga com referências visuais de produções anteriores da filmografia de Jia Zhang-ke, como Ren xiao yao (“Unknown Pleasures”, 2002), San xia hao ren (Still Life – Natureza Morta, 006) e Jiang hu er nü (As Cinzas Brancas Mais Puras 2018), e entrelaça-as com novas filmagens captadas durante a pandemia de Covid-19. O resultado é uma colagem não linear, na qual se diluem os limites entre ficção e documentário, passado e presente.
Dividido em três atos, o filme percorre diferentes paisagens e estados de espírito: começa com a juventude e a euforia na cidade de Datong, no norte da China, em 2001; atravessa a desolação e o deslocamento provocados pela renovação do interior chinês; e culmina na estranheza pandémica de 2022 – “tempos” em que criadores de conteúdo gravam vídeos para o TikTok enquanto robôs circulam pelos corredores dos supermercados. É nesse último segmento que se revela, com uma nitidez desconcertante, um país profundamente transformado pela tecnologia, pela vigilância e pela velocidade do capital.
A narrativa segue Qiao Qiao (interpretada por Zhao Tao, casada com Jia Zhang-ke e musa do seu cinema), uma mulher da classe trabalhadora que vive uma história de amor com o seu ambicioso empresário, Guao Bin, enquanto sonha com uma carreira enquanto cantora e modelo. Quando Guao Bin parte abruptamente em busca de melhores condições económicas, Qiao embarca numa longa viagem pelo país para o reencontrar. Enquanto Bin se envolve com políticos corruptos e negócios obscuros, Qiao Qiao testemunha as marcas deixadas pela modernização acelerada: comunidades desalojadas pela construção da Barragem das Três Gargantas, cidades em ruínas, novos centros comerciais e paisagens crescentemente mediadas por écrans e máquinas.
Marés Vivas é, em última instância, tanto o retrato íntimo de uma mulher quanto a representação da moldura histórica de um país em constante reinvenção.
Qiao permanece como uma observadora silenciosa do tempo; nunca lhe escapa uma palavra da boca, mas o seu olhar – firme, atento e paciente – capta as mudanças que se desenrolam ao seu redor. Em vez de diálogos, há imagens: cantoras anónimas ao redor de fogueiras, panorâmicas de cidades submersas e rostos que envelhecem diante da câmara. Desta forma se constrói a estética de melancolia envolvente. Mesmo nas cenas aparentemente banais – um casal que dança, um olhar perdido na multidão – paira uma sensação de suspensão e contemplação, acentuada pelos referidos longos silêncios e pelo recurso à música tradicional chinesa. O filme nunca apressa o espectador; convida-o, antes, a entrar numa temporalidade desacelerada, em que cada plano se alonga como quem tenta reter algo que escapa. Experiência sensorial e reflexiva, a justaposição de cenas, o uso de intertítulos, a economia de diálogos e os longos planos fixos metamorfoseiam o filme numa obra que se atravessa ao espectador não apenas pelo que mostra, mas pela forma como o faz.
Ao longo de Marés Vivas, a passagem do tempo é reforçada também pelas texturas da própria imagem: Jia alterna entre a película granulada (evocativa do passado), o vídeo digital de baixa qualidade (marco da transição tecnológica), a alta definição (registo do presente com clara nitidez) e, até, a realidade virtual (sinal do futuro que se instala e impõe). Essa variedade textural não documenta apenas as marcas da transformação das personagens e do país, mas reflete também a evolução do próprio meio cinematográfico, reconstruindo simultaneamente a sua própria trajetória artística.
Figura de proa da “sexta geração” do cinema chinês, Jia Zhang-ke afirma a singularidade do seu olhar: lúcido, vigilante das transformações sociais e verdadeiramente comprometido com a vida quotidiana dos cidadãos comuns. Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, que privilegiaram grandes narrativas históricas ou épicas, o realizador optou sempre por filmar os espaços marginais e as pessoas esquecidas. O seu cinema é construído à base de pequenos gestos e de histórias que, embora íntimas, refletem mudanças coletivas. Filmes como Zhantai (Plataforma, 2000), que acompanha o percurso de um jovem grupo de artistas nos anos 1980, em Shanxi, que atravessa transformações pessoais e sociais, ou Shijie (O Mundo, 2004), sobre o trabalho e a vida de jovens migrantes que se mudaram do campo para um parque temático, evidenciam o seu compromisso com as mudanças territoriais internas e os deslocamentos afetivos que moldam a China contemporânea.
Marés Vivas é, em última instância, tanto o retrato íntimo de uma mulher quanto a representação da moldura histórica de um país em constante reinvenção. Qiao Qiao atravessa cidades, estações de comboio, ruas inundadas e edifícios abandonados em busca de um amor e de um sentido – e, através dela, reconhecemos milhões de outros que procuram situar-se geográfica, emocional e culturalmente num território em mutação contínua. Jia Zhang-ke compreende, como poucos, que filmar é também guardar. E nesse gesto silencioso, paciente e resistente, há algo de profundamente revolucionário e cinematográfico.
★★★☆☆
