touch without touching
Maryam Tafakory
To be visible and invisible at the same time.
Miko Revereza
“Estás a olhar para mim ou estás a filmar?”, pergunta Reda a Mahdi Fleifel, cineasta palestiniano, nascido no Dubai e radicado na Dinamarca, que em 2016 arrecadou o urso de prata na Berlinale com a sua curta-metragem A Man Returned (2016), filme sobre o amigo Reda Al-Saleh que vive em Ain al-Hilweh, campo de refugiados no Líbano, e está a caminho do altar. Na impossibilidade de definir com facilidade o trabalho em crescimento de Fleifel, esta pergunta que catapulta o filme que se lhe segue, 3 Logical Exits (2020), presenteia-nos com uma exterioridade carnuda que marca as suas intenções. Não é só testemunho, não é só exposição. É também, e mais rapidamente, medição de pulso narrativo, que quando menos estamos à espera se aflora de uma melancolia tão crestante que é difícil a ela saber reagir. Como um olhar que chora sem chorar, toca tanto sem tocar.

Recentemente à conversa com o crítico de cinema Jorge Mourinha, aquando da mais recente edição do Curtas Vila do Conde onde foi apresentada uma retrospectiva completa do seu trabalho, Fleifel esquivava-se de definir uma identidade criativa. “Sou um contador de histórias”, disse para quebrar o gelo, suavizando a abordagem do jornalista, e rejeitando o afunilamento. Entre a expressão de amor pelo cinema norte-americano da década de 1970 e um desejo de contar as histórias sobre os que não têm como o fazer – “só os vencedores conseguem contar as histórias” – o epicentro da energia do seu cinema cresce a olhos vivos como um lugar tão material quanto emocional do que significa apontar a lanterna para o estado de ser apátrida. A sua segunda longa-metragem To a Land Unknown (A Uma Terra Desconhecida, 2025), único filme de um realizador palestiniano apresentado na secção Directors’ Fortnight no normalmente apolítico festival de Cannes em 2024, chega agora às salas de cinema portuguesas envolto em urgência, febril e aos gritos, pelo genocídio que esventra uma população, provando-se tecido acumulado de um corpo colectivo que, em silêncio, batalha a falta de pertença e a impossibilidade dessa infinitude.
To a Land Unknown estabelece-se de agoras sucessivos e afiados, com esparsos momentos de pausa melancólicos, herança de um cinema europeu que assombra na forma como encara a respiração: mais poesia do que segunda natureza. Enquanto Chatila e Reda conquistam minuto a minuto de vida, o filme faz o mesmo, sempre entre estados e formas, a rejeitar a definição e seus vértices sentimentais e, mais do que tudo, a desconstruir a edificação do realismo social.
Enrolado num thriller de acção, mecanismo que melhor inspira a vida-carrossel a ser contada, To a Land Unknown vive na procura de desbloquear e garantir a sobrevivência de dois primos palestinianos, Chatila (Mahmood Bakri) e Reda (Aram Sabbah) – possivelmente o mesmo Reda de que falávamos antes, que também por Atenas passou -, que são antíteses em quase tudo, o primeiro permanece disciplinado e o outro alma sensível que é, permanece vulnerável a tudo à sua volta, especialmente a Chatila e aos seus planos de os tirar do limbo de Atenas onde foram deixados (enganados) sem rumo por intermediários. Na cidade europeia, encontramo-los num parque, pano de fundo para os pequenos delitos que cometem na esperança de que estes os aproximem do momento em que sairão dali, passaportes falsos em mão a caminho da Alemanha, onde a família de Chatila já está, e onde sonham em abrir um café. Sem nunca cair no maniqueísmo e abraçando as complexidades humanas do que significa subsistir com amarras e sem os instrumentos fundacionais que as soltam, seres só visíveis na sua invisibilidade, Fleifel molda-se pelo neo-realismo saibroso de um Scorsese em início de carreira e enche o filme com fumo de cigarro, enevoando ainda mais as suas cores neutras, tons frios e diluídos, que relembram outro filme desbotado, Midnight Cowboy (O Cowboy da Meia Noite, 1969), num lugar com uma paisagem ainda mais gasta do que Nova Iorque no início dos anos 70, onde nada se sobrepõe e tudo se mistura, excepto pela luz solar contrastante que, num momento final, aquece a mágoa que os persegue.
Menos cínico do que esperado, é um filme de uma solidez inegável, com fortes performances, tanto enquanto objecto cinemático como enquanto contemplação sociológica na primeira pessoa do que significa posicionarmo-nos na pele dos que nascem em exílio, dependentes de sistemas que os rejeitam. Da Palestina só existem vestígios. A tatuagem no corpo doente e ensopado em suor de Reda, a citação inicial de Edward Said, um poema de Mahmoud Darwish declamado por Abu Love (Mouataz Alshaltouh), e o árabe falado entre o grupo de personagens que ajudarão a situar o submundo grego onde aqueles homens vieram parar. Ao resistir à liquidificação da sua visceralidade, To a Land Unknown estabelece-se de agoras sucessivos e afiados, com esparsos momentos de pausa melancólicos, herança de um cinema europeu que assombra na forma como encara a respiração: mais poesia do que segunda natureza. Enquanto Chatila e Reda conquistam minuto a minuto de vida, o filme faz o mesmo, sempre entre estados e formas, a rejeitar a definição e seus vértices sentimentais e, mais do que tudo, a desconstruir a edificação do realismo social.

De volta a Vila do Conde, Mahdi expressava como “a realidade palestiniana é mais estranha do que ficção”, falava da percepção ocidental e das directrizes do cinema como máquina de produção de compaixão. “Perante o olhar ocidental, os palestinianos são ou terroristas ou vítimas, mas quando são vítimas espera-se que sejam perfeitas. Eu não queria que eles (Chatila e Reda) fossem vítimas. Eu queria que eles fossem quem são. E se são hustlers é assim que os vamos conhecer. E as pessoas questionam ‘Como é que vais retratá-los assim e esperar que o espectador, ou seja o espectador no Ocidente, os abrace?’” Da mesma forma que toda a gente continua a acolher a ambiguidade moral da Nova Hollywood, com a sua crueza naturalista e uma construção que parte das suas personagens. Para além disso, como colocar uma cara num cinema que não pertence a lugar nenhum, e que é inclusive alimentado por esse vazio tão pesado? Nas palavras tão acertadas de Jorge Mourinha durante a conversa, “há tantos cinemas palestinianos como há realizadores”. “Nós nem um país temos quanto mais uma indústria (…) temos mesmo de inventar a nossa estrada”, afirmava Fleifel, usando logo a seguir o exemplo de um cineasta português a fazer cinema em Portugal sobre portugueses para explicar quão impossível seria para ele “filmar as suas personagens na sua paisagem”, onde há um entendimento sobre todas as coisas, onde o estético se une ao cultural.
Em comparação, To a Land Unknown deambula sem enterrar os dedos no solo identitário. Especialmente porque os espaços explorados nunca chegam a pertencer nem ao filme nem aos seus personagens. Não são ocupáveis. Em vez disso, encontramos um grupo de pessoas na dor dessa impermanência, sempre a caminho de um outro nenhures, desconhecido e antagonista, onde só podem depender de corpos enfraquecidos dentro dos quais se aguentam. É como que um road movie forçado, em narrativa e forma, que ao habitar a liminaridade – feita de fissuras e lascas urbanas -, fixa a topografia emocional do exílio, que se faz sentir sensorialmente. A acrescentar a isto, To a Land Unknown faz-se de episódios e pessoas documentadas por Mahdi ao longo dos anos. Em particular, a sequência das sapatilhas é replicada depois de acontecer em A Drowning Man (2017), onde também encontramos um Abu Love. Posto de outro modo, é o mundo possível, composto por um palestiniano que consegue expôr o labirinto.

A acompanhar o batimento cardíaco que saltita e força o corpo do espectador a aproximar-se do ecrã e das imagens que transferem quase tudo para a pele de estranhos, ficam eternizados, num slow motion hipnótico, os olhares, as perguntas que estabelecem a moralidade, e crescente vergonha, destes homens, as chamadas telefónicas da família, a comida possível e as colheres que mexem os copos de chá quente, os cigarros fumados ao som de uma ventoinha num dia de calor, um plano aéreo que acompanha a entrada de Reda num jardim com o seu skate debaixo do braço, o receio de Chatila em perder Reda desde o momento em que lhes colocamos os olhos, e uma viagem de autocarro só para eles que podia ser a mesma de Ratcatcher (1999), onde a ilusão prevalecia dentro de uma casa vazia à espera de ser ocupada, com um campo de trigo dourado para jardim. Mas rapidamente o cinema lanterna (como o entende Catherine Cullen) protagoniza o choque eléctrico que restaura tudo de volta ao ritmo normal, ao mesmo cerco sedento de entradas e saídas, que impede a prescrição da noção de lar. “Estás a olhar para mim ou estás a filmar? O que estás a fazer?”, perguntava Reda em 3 Logical Exits. To a Land Unknown responde. A fuga para dentro do cinema de ficção é uma conquista imensurável.
★★★☆☆
