Tenho falado aos meus conhecidos do “feito” de António Fonseca. Falo-lhes como dele me falaram a mim, com um mesmo primeiro espanto: sabiam deste senhor, deste actor que decorou — pausa — Os Lusíadas! De uma ponta à outra! São oito mil oitocentos e dezasseis versos!… — E falo-lhes, depois, deste filme, que documenta, entre outros projectos intercalados do actor (sabe Deus como a memória dá para tanto), uma parte dos anos do seu trabalho até à apresentação pública — à “falação”, escolheram chamar — da obra‑prima de Camões, em Guimarães, em 2012, num auditório que, lamentável mas sintomaticamente, parece não ter enchido. (Alguns desses conhecidos têm replicado com o actor Roberto Benigni e com a sua “falação” da Divina Comédia, mas escusado será dizer que em Itália, em contrapartida, enchem a praça multidões para ouvir o poema de Dante).

Acontece que aquele feito, que merece, sem dúvida, ser “espalhado por toda a parte” — se não cantado com engenho e arte, ao menos contado com o entusiasmo e a sensibilidade com que no-lo conta Sofia Marques —, não está, ou não está essencialmente, nessa superfície de que se fala aos outros, nisso que espanta à primeira vista. Não desfazendo a empreitada da memorização de oito mil oitocentos e dezasseis versos enquanto tal, como é óbvio — empreitada tão claramente louca, como o próprio reconhece (“Isto é uma loucura…”), que até o neurologista perplexo faz tenção de o reencaminhar para o psiquiatra. É justo que comecemos por espantar-nos, e por espantar os nossos conhecidos, com o relato desta empreitada própria de Guinness.
Mas o feito, o feito mesmo, nada tem que ver com o Guinness, como também é dito expressamente pelo actor. O feito de António Fonseca, como este filme o agarra e no-lo quer mostrar, espantando‑nos com um segundo espanto mais profundo, tem propriamente que ver com a vida: com a vida que, segundo a interpretação do actor, Camões canta nos Lusíadas; a vida — o sofrimento, a coragem, a esperança — que é simples e do coração de qualquer um, e que o actor trabalhou anos a fio para arrancar às belas convoluções daquele poema, à erudição amedrontadora de Camões, para a dar a ouvir justamente como algo simples, do coração de qualquer um.
A importância de um trabalho como o que este filme documenta está também na possibilidade de dar a amar aos outros a própria dificuldade do poema de Camões, a sua estranheza, o aspecto remoto da linguagem, a “pedra dura” da sintaxe.
Suponho que por isso se tenha preferido divulgar a apresentação como uma “falação” dos Lusíadas, não como uma “declamação” ou “recitação”. No verbo “falar”, mais do que em “declamar” ou “recitar”, estão bem presentes os outros, a “forte gente” a quem se fala e com quem se fala — presença essa tão importante para o actor que este decidiu incluí-la na apresentação, chamar outros ao palco para com ele “falarem” o Canto X. Mas não é só isso: além desse aspecto comunicativo ou interpessoal mais marcado, “falar” é simples, é de todos os dias. Uma coisa “falada” é prosaica, natural, por contraste com a estranheza, elaboração, artificialidade (assim sentidas) daquilo que é “declamado”. Se alguém propõe expressamente “falar” Os Lusíadas, e não “declamá-los”, o que entendemos é que propõe algo como uma “coloquialização” do poema.
Não é, porém, exactamente de uma “coloquialização” que se trata no trabalho de António Fonseca — já tentarei explicar porquê, ou em que sentido não o é. Trata-se, antes, de propor uma concretização ou “concreção”, para usar um termo caro ao actor (mas ausente no filme, se não me escapou). Propor “falar” o poema de Camões é propor torná-lo concreto, dar a ouvir (e dar a ouvir marcadamente a outros) o que nele é ainda hoje sobre nós, humanos, e nos pode ainda hoje dizer respeito. “Dou-te um exemplo muito concreto” — assim inicia o actor várias das explicações que seguimos no filme em torno do seu trabalho e em torno do próprio poema.


A proposta, portanto, é a de tornar concretos, para os ouvintes, Os Lusíadas — começando pelo longo trabalho de os memorizar concretos. Há que guardar na memória o poema de um modo que não seja estéril, que seja vivo, que se ligue com a vida. E tal parece passar, para o actor, por trazer o poema à sua vida, por estudá-lo com a sua vida, digamos. Este estudo “com a vida” faz-se, sugere-nos o filme, de duas formas. Uma delas é mais literal (com aquela literalidade da referência do actor à “biologia”, ao aspecto “biológico” deste seu trabalho), e está nas imagens que a realizadora filma de António Fonseca a caminhar, a correr, a nadar, a jogar à bola. O que aí vemos é o actor a estudar o poema com a vida do corpo, quer dizer, a introduzir esse estudo nas suas rotinas físicas como uma outra rotina física, e, assim, a ir trazendo o poema ao corpo, aos pulmões e aos braços e às pernas, ao hábito físico, ao estar vivo no tal “sentido biológico”.
Mas o filme também nos mostra um estudo do poema “com a vida” no sentido de uma introdução orgânica do estudo no dia-a-dia do actor, em paralelo com (ou mesmo invadindo) os seus demais hábitos e empreendimentos — o trabalho de actor, o trabalho de professor, as tarefas domésticas, a natação e a bola, as caminhadas pelo parque e pela praia. Uma introdução tal que, se se lhe perguntar “Quem és tu?”, ou “A que dedicas tu os teus dias, os teus esforços, a tua atenção?”, ou ainda, como se pergunta tão bem em português, “Que fazes tu da vida?”, aquele estudo passa a incluir-se na resposta. Ele, António Fonseca, é alguém que representa, ensina, nada, corre — e que estuda Os Lusíadas. A empreitada de memorizar o poema e de o memorizar concreto para vir a apresentá-lo concreto aos outros vai assim passando a fazer parte da sua vida, da relação do actor com a sua vida.

Agora: de acordo com o que o actor vai sublinhando, a concretude que Os Lusíadas devem ganhar com este trabalho é desde logo a concretude da narrativa, da história. O objectivo é contar aquela história aos ouvintes, aos espectadores. Mas o actor vai contá-la, é claro, como Camões a contou, vai cantá-la — nos versos de Camões, ponto. E esses versos são, como se sabe, bem difíceis — tornam-nos difíceis os hipérbatos, o vocabulário arcaico, o vocabulário não arcaico mas remoto, a mudança dos tempos verbais, e por aí adiante (além da dificuldade adicional com os símbolos e com todo um código de referências históricas). Não se pode, porém, querer facilitar, aguar o poema, apresentá-lo numa versão simplificada, parafraseada, descarná-lo até sobrar só o osso da história dos Lusíadas; esse osso já pouco teria dos Lusíadas. Nada feito: o texto é difícil, é claro que é difícil, e é claro que não se percebe tudo. “Eu também não percebo tudo”, admite o próprio António Fonseca ao fim de quatro anos a desbravar aqueles versos.
Ora, por um lado, dir-se-ia que não faz mal “não perceber tudo” porque há algo do poema que fica apesar da sua dificuldade, apesar da tal erudição amedrontadora de Camões. “Mesmo que não se perceba nada do que estou a dizer, não faz mal”, diz o actor; o que interessa a quem ouve só pode ser “a sensação”, “a toada e o sentido global” do texto. Esta ideia é sublinhada por um dos aspectos mais felizes do filme: a escolha, para a banda sonora, do Trio para piano de Schubert e das versões mais próximas, mais populares em que a peça vai reaparecendo. Para a poesia pode valer, em certa medida, o que vale para a música: é possível não saber rigorosamente nada de teoria musical e amar, ainda assim, a música de Schubert. Mesmo para o ouvinte leigo, “a toada e o sentido global” de muita música dita “erudita” passam apesar dessa erudição — assim como passam a “toada e o sentido global” da peça de Schubert nas versões, diga-se, menos eruditas que ouvimos neste filme.
Por um lado, portanto, dir-se-ia que o esforço de António Fonseca é garantir que, para os ouvintes, algo passa do poema de Camões apesar da dificuldade daqueles versos. Mas parece-me que o resultado do seu trabalho vai ou pode ir além disto (parece-me a mim, que não assisti à “falação”, que vi apenas os excertos aqui filmados). Quando lidamos com um texto difícil como Os Lusíadas, é preciso assumir essa dificuldade, aprender a mover-se dentro dela e a procurar, mesmo nela — não apesar dela —, a vida que é cantada no poema. A importância de um trabalho como o que este filme documenta está também na possibilidade de dar a amar aos outros a própria dificuldade do poema de Camões, a sua estranheza, o aspecto remoto da linguagem, a “pedra dura” da sintaxe. Está na possibilidade de dar a sentir aos outros que já essa dificuldade é viva, que a vida e o encanto do poema são inseparáveis dela, e que aquelas palavras estranhas, mesmo as que ainda não compreendemos, são exactas, são as palavras certas.

É um pouco, parece-me, como o que o actor diz aos seus alunos no fim da aula de teatro registada neste filme, a propósito de uma cena de Romeu e Julieta. “Ah, mas na realidade não se faz assim, não se diz assim” — objectam os alunos. Querem eles dizer que o texto de Shakespeare, o diálogo, a acção que devem representar não lhes parecem naturais, não são, como se costuma dizer, “realistas”. A esta objecção, tão habitual, o actor-professor responde: “Então inventem uma realidade teatral que pareça realidade”. Isto vale, mutatis mutandis, para o trabalho documentado no filme. Cantar Os Lusíadas, servir-se das palavras difíceis de Camões certamente também não é a forma natural, “realista” de contar a história dos Lusíadas. “Na realidade não se diz assim” — na realidade diz-se coloquialmente; diz-se de forma prosaica, com palavras do costume, com os sintagmas no devido lugar, sem rima, sem estilo, e sobretudo sem a pompa do canto, do dizer a cantar.
O que o actor trabalha para fazer, então — o tal “feito” para que trabalha —, não é “coloquializar” Camões, como dizia acima, mas sim inventar, a partir da alegada não-naturalidade do texto poético e da declamação poética, “uma realidade poética que pareça realidade”: uma forma de “falar” (lá está) Os Lusíadas, uma forma real — que soe real, verdadeira, concreta, viva, nossa — de dizer o poema de Camões. Só é pena, no filme, que não a ouçamos mais!
O filme pode ser visto gratuitamente na plataforma cultural CaixaForum+
