I despise stories, as they mislead people
into believing that something has happened.
Béla Tarr
O cinema de Ben Rivers é como uma vela acesa numa tempestade. Em nenhum momento exige que para ela olhemos, ainda que sob a sua luz e o seu calor repousamos. Maioritariamente museológico, vive da trança entre o real e o artificioso, que lhe permite acenar à paragem a partir da qual o cinema – lá volto eu à vela – acende o espectador, sem precisar do peso da duração ou de se desenrolar de forma gradual. A intensidade vem marcada no corpo, permitindo desenvolver uma relação com o filme de forma fragmentada, em pequenos incrementos. O foco também não recai só sobre o que é comunicado. O valor incorporado na imagem é o gesto de exposição, e este é normalmente utópico (pós-civilizacional), feito com pessoas que vivem à margem da sociedade em paisagens geralmente isoladas, ou até mesmo inóspitas. Numa linha horizontal, a minha analogia seguir-se-ia para a propagação da chama, mas como Rivers é um artista visual antes de ser cineasta, a topografia da sua posição cultural continua por traçar. Não há como circunscrever o que se encontra entre o documentário e a ficção, a experiência etnográfica e o filme-viagem. E a obra de Rivers é tudo isto, ao mesmo tempo. Para além disso, os seus filmes permanecem em movimento e nunca assentam. Fazem-se de túneis que não vemos, por onde as suas personagens passam, como quem salta pelo tempo fora, pé ante pé. Uma coisa é certa: há reinvenção a cada passo dado.

E Mare’s Nest (2025) é um passo grande nesta viagem do antropólogo visual que vive de forma itinerante – o seu nomadismo faz parte do seu processo criativo (filmmaking as travel). Co-produzido pelo Batalha Centro de Cinema, onde se estreia agora, depois de ser premiado com o Leopardo Verde no Festival de Locarno em 2025, Mare’s Nest parte da peça teatral “The Word for Snow” de Don DeLillo e apresenta-nos as aventuras de Moon (a magnífica estreante Moon Guo Barker, de 9 anos) que deambula por um mundo fabular e sem dúvida pós-apocalíptico, onde só restam crianças, livres de “reinventar o mundo”, como Rivers tem confirmado em várias entrevistas sobre o filme. Atrás do volante de um carro ou a pé, e por vezes na companhia do amigo tartaruga Jeffrey, Moon não é objecto de Rivers. Rivers procura, através dela, deslocar a noção dominante de representação. Com ela escolhemos partir de forma episódica (e circular?) por portas-portais de um território em ruínas, tocado por humanos há muito tempo mas desde aí abandonado, herdado agora pelas crianças.
Caímos numa dimensão repleta de fragilidades onde a coreografia do movimento destas personagens se oferece à perambulação. A sobrevivência passa pelo acto de brincar, em vez de o brincar existir por causa da sobrevivência. E este brincar, este livre uso do espaço para a reinvenção de universos alternativos, é algo que Rivers tem feito pela sua carreira fora.
Fonte de enorme energia e calor, Mare’s Nest é essa exploração, em 16mm. Nascido d0 desejo de DeLillo em falar da crise climática e do iminente fim do mundo como o conhecemos, a opacidade da peça (e do filme de Rivers) relega o gesto a ser um tratado poético sobre a ansiedade colectiva, numa só voz, enfrentada por todas as crianças a viver no planeta neste momento, conscientes do declínio mas incapazes de iniciar qualquer real mudança. Pensar nos esforços da activista Greta Thunberg perante a aparição de Moon no ecrã não é, de todo, um exagero. Caímos numa dimensão repleta de fragilidades onde a coreografia do movimento destas personagens se oferece à perambulação. A sobrevivência passa pelo acto de brincar, em vez de o brincar existir por causa da sobrevivência. E este brincar, este livre uso do espaço para a reinvenção de universos alternativos, é algo que Rivers tem feito pela sua carreira fora. Mare’s Nest exactifica esse filme dentro do filme. O entusiasmo do acto de fazer cinema: por um lado, a criação física e lúdica (Rivers chega a processar à mão a película dos seus filmes), por outro a dedicação pessoal que parte da deslocação até ao lugar, para na sua matéria mexer. Se existe ideia de progresso – e existe, não há repetição – , esse será o ponto de partida. Moon apercebe-se rapidamente que a única coisa a fazer será abandonar tudo o que já soube ser verdade. Expressa isso, continuando em frente. Tendo em conta a espessura do tempo naquela realidade, apurado por falta de gestão, andar em frente exige um esforço físico e muita imaginação, mas mais do que isso, nada pode fruir sem uma expressiva comunhão com a interioridade dos outros habitantes/sobreviventes. Moon irá ao seu encontro.


Depois de Bogancloch (2024), com Rivers a regressar a Aberdeenshire e à companhia do seu amigo Jake Williams, também Mare’s Nest dialoga com outra obra do artista, provando ser o futuro de Ah Liberty! (2008), um pequeno filme que decorre num lugar igualmente remoto e fora do tempo, que se encontra livre de história (da história que se anuncia como história), e vive episodicamente com as crianças e os animais a ocupar o espaço que lhes é dado livremente. E também Ah Liberty!, em cada nova possibilidade de “fazer vida”, caminha em direcção ao que permanece além das palavras. Se Mare’s Nest começa mais afectado, com performances mais calculadas (a sequência de “The Word for Snow” é hipnotizante), o poder da palavra altera-se, e o filme segue em direcção ao silêncio, até ser o próprio formalismo do filme a tomar as rédeas do ritual, oficiando o sonambulismo (e a calma) de que esperávamos.
Finalmente fibroso e fluído numa segunda parte, deixamos de precisar de ouvir as palavras. Não é necessário sequer compreender para no corpo sentirmos o filme. E para isso, basta o cruzamento entre Moon, o seu desejo de criar algo a partir do que lhe foi dado, e toda aquela paisagem rochosa através do tempo. Uma imagem em particular de Moon a subir a montanha, identificável apenas através da sua gabardine impermeável amarela, é incandescente. Há qualquer coisa quase de miniaturista naquele momento, confirmado por uma outra sequência mais tarde onde as crianças e animais se agrupam no que parece ser uma caverna. Repito quando digo que Rivers não usa os seus actores enquanto instrumentos, mas tendo em conta a perspectiva e a profundidade de campo destas sequências, esta é efectivamente a sua “plaything“, o diorama a partir de onde toda a magia brota, e de onde retira tanta alegria: o acto de fazer cinema é, para Rivers, a forma que este tem de se abrir, conhecer e dedicar-se aos outros; em suma, relacionar-se com o mundo de forma íntima.
Mas nada disto é impresso no espectador sem um elemento muito importante que Rivers traz sempre consigo. Para além de uma esperança inesgotável, também Mare’s Nest é pontuado pela mesma delicadeza sorridente que contrasta com uma possível ameaça a sobrevoar aqueles despojos arquitectónicos. Das paisagens rochosas do País de Gales ao labirinto Lithica de Menorca, passando pelo árido deserto Monegros [que também vemos em Sirât (2025); o produtor de ambos filmes é Andrea Queralt], Rivers parte da paisagem para compôr o mundo encenado, e neste caso a necessidade não é só estética: têm de ser lugares onde uma criança consiga brincar e esconder-se, abrigar-se dos elementos, e assegurar a sua agência ao longo do tempo. Entre o esotérico Sirât e o caústico Riddle of Fire (2023), o onírico Mare’s Nest exibe os mecanismos interiores do que se torna a barriga do fim do mundo, de uma realidade impossível de articular, tal como o título nos indica. Nos seus últimos planos, que são como sussurros emocionantes – “I’ve got so many questions, Ain’t got no answers”, alguém canta – está subentendida uma preocupação pelo espectador que procura tão fervorosamente compreender. “O confronto é a melhor forma de cuidar do espectador”, dizia-me Oliver Laxe no passado verão. Mare’s Nest é outra obra que pode, em pedaços apenas e em qualquer formato ou versão, activar o espectador entorpecido. “À conversa” com Moon, Rivers relembra-nos que a escavação é urgente, mas que o que está dentro de nós é suficiente. This is now a world unto itself. Há transcendência no que fica por compreender.
Just let go.

