Todo o tempo vai ser sempre tomado por uma dose considerável de arrogância. Sempre sabemos mais do que quem veio antes, nossa percepção está pronta para driblar quaisquer que sejam as mistificações do passado. Ler histórias do cinema do passado é sempre também observar este exercício constante de recusa das limitações das historiografias que vieram antes, enquanto se observam as preferências e miopias do próprio autor. Se somos honestos sabemos que o nosso próprio ponto de vista está contaminado por suas idiossincrasias, algumas bem particulares, outras que envolvem o seu tempo (nem que seja pelo viés da recusa).

Daí nasce um dos clichês críticos que menos gosto, a confiança na tal sabedoria do tempo. Confesso que tenho um fascínio enorme pela flutuação de reputações, o que creio diz muito sobre o quanto me interesso por crítica de cinema em si. “Este filme vai envelhecer bem” é uma frase que sempre me enche de enfado, pouco mais do que a certeza do autor de que as preferências dele vão prevalecer daqui a vinte, trinta anos. Da minha parte, nem sei se tenho bom gosto, quanto mais algum gosto certo. Gosto quando percebo que alguns interesses pessoais estão em sintonia com o momento, já que torna mais fácil vê-los e tenho satisfação de partilhar certos filmes queridos com outros, mas também sei o quanto isso é tênue e depende do gosto de alguns formadores de opinião e interesses comerciais de algumas empresas e espaços.
Escrevo há tempo suficiente para saber que muito raramente o tal formador de opinião posso até ser eu. Ano passado, uma sala aqui de São Paulo fez uma retrospectiva de Valerio Zurlini e duas pessoas vieram me dizer que assistiram Cronaca Familiare (Dois Irmãos, Dois Destinos, 1962) porque eu coloquei o filme na minha lista para a Sight and Sound. Fico contente que alguém resolva ver um filme que amo por minha causa, meu gosto pelos filmes de Zurlini em geral e este em particular me foi passado pelo Carlos Reichenbach, que amava o cineasta italiano acima de qualquer outro, e é bom saber que anos depois deixo uma pequena contribuição também.
O digital facilita a circulação dos filmes, foi vital para descentralização de certos cânones, mas ele também ajuda a apagar um pouco as especificidades da cultura cinematográfica local.
Tem uma cópia 35mm do filme aqui e sinto muito que ela não seja programada mais. Mudanças do tempo: no pré-digital, essas disponibilidades ajudavam a marcar as peculiaridades canônicas locais, o simples elemento material da cópia facilmente disponível às vezes ajudava a reforçar a importância de certos filmes para a cena cinéfila local. Acho que quase ninguém considera The Baron of Arizona (O Barão do Arizona, 1950) um dos melhores filmes de Samuel Fuller, mas a Cinemateca Brasileira tinha uma cópia que ela tirava do arquivo de tempo em tempo e é o Fuller que vi mais vezes no cinema. Da mesma forma que sabia bem quais filmes de Ozu ou Bresson tinham chances de serem programados por aqui. A vida do programador hoje é bem mais fácil (e barata), nem sempre a do espectador que às vezes precisa praticar a loteria da cópia exibida. O digital facilita a circulação dos filmes, foi vital para descentralização de certos cânones, mas ele também ajuda a apagar um pouco dessas especificidades da cultura cinematográfica local. De qualquer forma, eles deveriam programar aquela cópia em 35mm mais, uma das minhas opiniões de velho turrão é que programadores devem sempre saber as películas que existem localmente e colocá-las para circular.

Uma das formas mais recorrentes em que este conflito revisionista com o tempo costuma se dar é um desejo de estabelecer como certos nomes supostamente estão sempre fora de moda. Aquelas figuras de sempre do cânone do cinema mundial oficial consolidadas em algum momento ali entre meados dos anos 60 e 70 (Fellini, Bergman, Kurosawa, Truffaut), acho que desde que sou velho o suficiente para prestar atenção nessas coisas encontro ou alguém apontando como um desses nomes já não é tão considerado assim, ou oposto, um lamento de que jovens críticos não dão atenção suficiente para certo mestre do passado. Há um paradoxo inevitável e uma distorção que nasce dele, já que Truffaut pertence a tanta gente, vai ser sempre mais interessante se aprofundar no seu amigo Jacques Rivette e é fácil dali se ficar com impressão de que esta é a regra. Quando saímos dos guetos cinéfilos isto tende a se diluir. Lembro-me que na semana que tudo fechou aqui em São Paulo, em 2020, eu iria começar a ministrar um curso de três aulas sobre Fellini que pertencia a uma grande retrospectiva do centenário dele. Quatro meses depois, os organizadores me procuraram se eu daria as aulas online e os três encontros tiveram a lotação máxima que o zoom permitia. Fellini pode nunca estar na moda, mas segue popularíssimo.
Claro que estas tensões temporais têm às vezes um forte componente político. Desde que Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles (1975), da Chantal Akerman, apareceu em primeiro lugar na pesquisa decenal da revista inglesa Sight and Sound, em 2022, é fácil encontrar as reclamações a respeito geralmente de críticos veteranos muito apegados ao cânone. Outro dia mesmo li um brasileiro veteraníssimo reclamando que “certamente mudaram os votantes”, não que ele esteja de todo errado, a revista aumentou os votantes de cerca de 200 em 2002 para 800 em 2012 e 1600 em 2022 e imagino que buscou um perfil mais diversos nos contribuintes. Escolhas políticas sem dúvidas e atenção dada ao cinema de Akerman certamente passa pelo desejo de descentralizar olhares de cinema recorrente na última década, a despeito da resistência que ela mesma tinha para com discussões do tipo. As reclamações do gênero, porém sempre vem acompanhadas de uma condescendência “acho Jeanne Dielman respeitável, mas…” e uma crença de que existe algo completamente artificial neste processo. Usando a própria revista inglesa sempre útil para cartografar as subidas e descidas de reputação, o filme apareceu pela primeira vez na lista segunda vez que estava elegível em 1992 no empate de 93.º, saltou em 2002 para o 63º, e em 2012 para 34º, quem eu conheço que leva essas coisas muito a sério tinha certeza de que ele apareceria em algum lugar no Top 10 em 2022.

O contexto no qual os filmes de Akerman são vistos certamente mudou ao longo deste tempo. Lembro-me de um amigo trabalhando num festival brasileiro no começo dos anos 2000, frustrado porque sugeriu que o festival tentasse encaixar De l’autre côté (2002) e ouviu que eles já tinham um filme sobre imigração programado. Quando a cineasta recebeu uma retrospectiva em São Paulo e Rio em 2009, era a primeira que vários dos filmes tinham exibições oficiais no Brasil. Ao longo dos anos 2000, a acessibilidade dos filmes de Akerman mudou, em parte por conta de file sharing, em parte resultado de lançamentos em home video e retrospectivas, as condições materiais com que seus filmes circulavam se tornou outra. Quando eu era adolescente, nos anos 1990, era fácil ler a respeito dos filmes dela, mas quase impossível assisti-los.
Esta mudança também altera como eles são vistos. Akerman era listada como uma realizadora experimental, seus filmes supostamente distantes e rarefeitos. É algo que ignora muito da carga emotiva, a presença recorrente da primeira pessoa e a sedução estética que esses filmes têm. Os primeiros filmes de Akerman que eu acabei assistindo, Golden Eighties (1986) e Un divan à New York (Um Divã em Nova Iorque, 1996), eram experimentos com gêneros populares que não podiam ser mais distantes do aquilo sobre o qual havia lido. É assim tão surpreendente que quando esses filmes passaram a ser mais vistos tenham sido retirados do gueto do “experimental”? Jeanne Dielman não é Hitchcock, mas está bem longe de ser um filme realista onde nada acontece. É um filme que existe bem dentro de uma tradição de cinema autoral europeu dos anos 70 (e vale dizer cinema francófono pós-Nouvelle Vague da época). Este deslocamento em como se vê, muda sentidos e expectativas e não me surpreende que ele seja tão bem tido por muita gente que o descobriu nos últimos vinte e poucos anos.
Não tenho ideia do que vai estar em voga daqui a uns vinte anos, e pessoalmente me preocupo um bocado tanto com uma amnésia histórica quanto como acesso à história do cinema parece cada vez mais filtrado por alguns poucos espaços e corporações. Mas, ao mesmo tempo, me parece vital uma certa desconfiança do olhar autocentrado da cinefilia. Estes mesmos senãos que me atormentam me parecem tornar essencial uma relação de amor e ódio com a ideia de cânone.

