Curioso que um filme como este, que se pretendia atingir o espectador como uma flecha, ou ser percorrido por este como que numa flecha, tenha tido uma produção tão acidentada e, enfim, como corolário, tenha sido condenado de forma tão cruel ao esquecimento. A ideia inicial pertenceu ao realizador canadiano Sidney J. Furie – já de si um nome a ser redescoberto para lá de obras mais vistas e reconhecidas, tais como The Ipcress File (O Caso Ipcress, 1965) e The Entity (O Ente Misterioso, 1982) -, que queria rodar nas ruas de Nova Iorque um filme repleto de perseguições. Ao modo de “uma perseguição atrás da outra” e predominantemente a pé. Seria uma espécie de versão pedonal de The French Connection (Os Incorruptíveis Contra a Droga, 1971), com um ritmo nonstop e retratando de maneira franca e brutal uma cidade na iminência de uma profunda reconversão social, por força de processos de higienização e gentrificação urbanísticas que tornariam Nova Iorque, em larga medida, um poiso para gente rica. Night of the Juggler (A Noite do Falcão, 1980) era para ser isto e, apesar de ter mudado de realizador, de ter tido uma distribuição frouxa que praticamente o invisibilizou, não só podemos verificar ser isso como é muito mais do que apenas isso, tratando-se também de um dos mais furiosamente ternos retratos de Nova Iorque e, ao mesmo tempo, um dos mais viscerais filmes de busca após sequestro. Apetece dizer, logo à cabeça, que mesmo que Furie tenha sido substituído por um realizador, mais ligado à televisão, como Robert Butler, não foi por isso que a intensidade desse retrato se perdeu. Na realidade, apetece-me alegar que a “travagem”, absorvida que foi pela própria narrativa do filme, talvez lhe tenha sido benéfica.

Após ter filmado uma Nova Iorque em estúdio em Sheila Levine Is Dead and Living in New York (Uma Rapariga da Província, 1975), Sidney J. Furie terá imaginado um retrato bem realista, produzido on the go, que captasse os ares do tempo, as ansiedades e conflitos que perpassavam a paisagem nova-iorquina. O principal dos flagelos era – espante-se o espectador contemporâneo, porventura “vítima” de um problema semelhante – a pobreza a par de uma iminente exploração imobiliária que beneficiava apenas os ricos. Esta marginalização dos “habitantes originais” é o ponto de partida da história de Night of the Juggler.
O título do filme – e do livro que adapta, da autoria de William P. McGivern, e lançado em 1975, três anos antes da rodagem ter sido iniciada por Furie – é algo enigmático, visto a acção se passar significativamente durante o dia, o que é parte do seu charme, já que tudo acontece às claras e entre o mar de gente que, à época, serpenteava as ruas da Big Apple. Por outro lado, quem é o “juggler” ou o “malabarista” aqui? A interpretação que mais rapidamente me assalta é política: a classe dirigente. É a filha pequena de um homem poderoso a vítima do sequestro, no que poderia ser o começo de um promissor remake de Tengoku to jigoku (Céu e o Inferno, 1963) de Akira Kurosawa – e nada que ver com a tentativa algo canhestra levada a cabo recentemente por Spike Lee. Um “high and low” dando muito mais atenção à razão de ser do sequestrador, um pobre desgraçado a viver nos “bas fonds” da cidade. Todavia, a referência possível e apetecível ao filme de Kurosawa cai por terra logo à partida, pois o criminoso chamado Gus Soltic, interpretado brilhantemente por Cliff Gorman (com a intensidade de um Joaquin Phoenix dos anos 70), não fez bem o seu trabalho de casa, acabando por raptar a miúda errada. Ela não é filha de um poderoso homem de negócios, mas antes de um ex-polícia divorciado, o herói do filme encarnado por James Brolin (sim, pai de Josh Brolin), de nome Sean Boyd, também ele a fazer pela vida nos recantos mais pestíferos da cidade.
Tudo começa em modo de corrida, num jogging descontraído num jardim, o que vai marcar a cadência da acção, só que tudo se “contrai” e intensifica a um nível que apenas conhecíamos de algumas sequências pontuais de perseguição automobilística de espectacular efeito, nomeadamente no referido The French Connection, mas também em The Seven-Ups (O Esquadrão Indomável, 1973) e Bullit (1968). Por causa de um acidente logo na primeira sequência de perseguição on foot, James Brolin viu-se com o pé maltratado e impossibilitado de continuar a rodagem nos termos que haviam sido definidos por Furie. O dignóstico dramático do médico (mais tarde, veio-se a saber que impreciso) e a intenção comunicada a Furie pela produção de que “the show must go on“, mas desta feita com um protagonista em canadianas, levaram à demissão do realizador. Entrou para o seu lugar o menos excitante Butler, ainda que a equipa de produção se mantivesse relativamente intacta – segundo Furie, caso contrário, o projecto não teria quaisquer pernas para andar ou, pondo de outro modo, não teria havido filme sequer.

A paragem aqui teve um efeito curioso e, olhando com a distância de quase cinquenta anos, agora que Night of the Juggler foi restaurado e relançado em Blu-ray numa edição extraordinária pela magnífica editora Radiance, apetece mesmo dizer que Furie se pode ter precipitado. O facto da personagem de Brolin se ver obrigada a “parar” na própria história, incapaz de correr e perseguir o criminoso como fizera até dado momento (um verdadeiro “urso” imparável atravessando as ruas de Nova Iorque com uma presença que se viu pouco em filmes de acção americanos, mesmo nos mais secos que foram realizados à época) penso que acaba por ter um efeito positivo na gestão da história. Por um lado, mostra Boyd como um corpo não tão impossivelmente viril como se sugerira, quer dizer, como um corpo até certo ponto “humano, demasiado humano”. Por outro lado, mas também relacionado com isso, o corpo frágil precisa agora de “outras pernas” postas em movimento no sentido de facilitar a busca, e é aí que entra outra qualidade inegável do filme: o seu extraordinário coro de personagens. Todas elas com um autêntico “feel” nova-iorquino, atiradas para a acção para, em conjunto, gerarem uma espécie de efeito de “open world“, em que todo um ecossistema se deixa afectar por esse sequestro equívoco e pela missão de um pai extremoso, nutrindo um amor maior do que a vida pela filha.
Resta-nos hoje deixar-nos levar pela viagem a este tempo, a esta cidade, a esta maneira de fazer cinema, com corpos em movimento tomando riscos de verdade. Efeitos especiais que são só osso e coração.
Uma importante força do filme é que o amor desse pai pela filha não é para ser visto e entendido como tão extraordinário quanto isso. Se o corpo – o do actor e da personagem – acaba por quebrar durante a perseguição ao criminoso “with a cause“, o coração lateja intensamente, sofregamente, ansiando pelo tão desejado reencontro. Mas fá-lo, corpo e coração, de maneira identificável e altamente empática: afinal, Boyd é somente um pai que ama a sua filha pré-adolescente como tantos outros pais amam as suas filhas. Primeiro, no entanto, é preciso localizar a criança numa selva urbana repleta de perigos e disputas “tribais” [recorde-se que este filme é praticamente contemporâneo da distopia urbana de Walter Hill desenrolada em Nova Iorque, The Warriors (Os Selvagens da Noite, 1979)]. Esta ânsia em chegar lá e recuperar o bem mais precioso de todos, esse “tanto” inegociável que representa uma filha para o seu pai, é a meu ver potenciada por aquela “interrupção” que na rodagem e, depois, no filme levou à dramática retirada de cena do realizador. O desespero de Boyd passa a ser, a partir daquele momento, um assunto que pode deixar de estar associado àquela situação, temporal e espacialmente situável, e passa a implicar, em potência, toda a cidade. A paragem transforma a busca do pai num assunto que diz respeito, e que potencialmente envolverá, a cidade no seu todo.

Com isso, Boyd e Gus encontram-se, nas suas demandas, pois também aqui o vilão tem as suas razões para fazer o que faz, mesmo que seja reprovável e de uma vilania sem nome. Butler retrata de uma maneira assaz particular esta relação entre um homem desesperado, que se sente “sem voz” enquanto assiste à rápida degradação do bairro onde vive, e a rapariga que rapta por engano. Tem qualquer coisa de versão moderna de Frankenstein (1931), mas a monstruosidade de Gus nunca é negligenciada como “não-humana” por Butler/Furie. O filme procura compreendê-lo na sua revolta e encontra na amizade muito particular, e algo indefinível, entre raptor e raptada um lugar para se perceber a complexidade inerente às acções do meliante. Talvez o verdadeiro e mais profundo desenraizamento tenha menos que ver com uma realidade de betão em ruínas do que com afectos em falta. Pondo de outro modo, porventura os escombros do bairro onde Gus vive, e que acabam por propulsionar a sua acção criminosa, escondam um isolamento que é tão físico quanto emocional. Não é possível viver como um ser humano quando se é tratado, enfim, como um rato – animal bem nova-iorquino, que é assunto numa cena inaugural envolvendo o polícia desiludido interpretado por Brolin.
Se a complexidade deste filme de acção bem gritty e intenso, à la Nova Hollywood, radica microcosmicamente nas relações entre as personagens, na procura do pai pelo “amor da sua vida”, que é a filha – ainda que pelo caminho deflagre uma potencial paixoneta pela bela Maria (Julie Carmen) – há também um olhar “macro” assistindo esta narrativa emocional ou afectiva. E tem que ver com Nova Iorque, uma cidade empestada pelo crime, pela desintegração social e por… ratos. Mas, surpreendementemente ou não, Night of the Juggler é uma das mais belas cartas de amor alguma vez escritas em celulóide à cidade que nunca dorme. E o final, de uma desarmante singeleza, ilustra bem esta ideia: pai e filha reencontrados “reentram” no espírito da cidade, partilhando mais um momento feliz num stand de cachorros quentes. Como a ex-mulher de Boyd nota a certa altura: ele de modo quase secreto ama tudo isto, até o que é pestífero na cidade. “Até o que é” ou “sobretudo o que é”? Furie e Butler filmaram, com a crueza franca de um documentário, um clássico esquecido da Nova Hollywood. Resta-nos hoje deixar-nos levar pela viagem a este tempo, a esta cidade, a esta maneira de fazer cinema, com corpos em movimento tomando riscos de verdade. Efeitos especiais que são só osso e coração.
