Num universo, Evelyn (a incrível Michelle Yeoh) é uma imigrante chinesa nos Estados Unidos, dona de uma lavandaria. O pai (James Hong), com quem tem uma relação complicada, acabou de chegar da China. Tem uma filha chamada Joy (Stephanie Hsu) e é casada com Waymond (Ke Huy Quan*), mas considera-o um coração mole, incapaz de fazer as coisas como deve ser.
Noutro universo, Evelyn nunca chegou a ir para os Estados Unidos com Waymond e acabou por conhecer uma mestre de artes marciais que lhe ensinou tudo o que sabe. Essa mestria torna-a numa estrela de cinema com uma carreira que pisca o olho à da própria Michelle Yeoh.
Noutro universo ainda, Evelyn é uma cientista genial que descobriu uma forma de navegar pela multitude de universos que existem, explorando vidas paralelas onde diferentes, e por vezes diminutas, escolhas contribuíram para o desenvolvimento de vidas vastamente diferentes.

Everything Everywhere All At Once (Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo, 2022) é um filme escrito e realizado pelo duo Daniels (Dan Kwan e Daniel Scheinert), conhecidos pela sua invenção e criatividade, não fossem eles os responsáveis por objects d’art insanos como o videoclip Turn Down for What ou filmes como Swiss Army Man (2016). É também um filme que não é fácil descrever por ser tão maximalista, mas no fundo, é sobre uma família. Mas é ainda um filme sobre como uma singela reunião nas finanças acaba com uma missão para salvar todo o multiverso, movendo-se através de vários universos paralelos e explorando as vidas que Evelyn não chegou a viver. A missão heróica implica derrotar a figura niilista Jobu Tupaki, uma vilã de imenso poder (e infinitas roupagens). A ajudá-la estará a presença intermitente de Alpha Waymond, um homólogo de Waymond de outro universo. Como força de oposição, há ainda Jamie Lee Curtis, como agente do IRS multifacetada e não tão assustadora como parece.
é um filme que obedece ao princípio de everything but the kitchen sink, excepto que aqui a kitchen sink também é atirada ao barulho.
Se conhecem o trabalho anterior dos Daniels, a invenção e criatividade de que falei não serão surpresa. Ainda a trabalhar o reino do cinema independente, conseguem espremer muito sumo de pouca fruta, criando dinamismo através dos ângulos de câmara que escolhem, através da forma como constroem a montagem e através dos efeitos especiais (e práticos) que desenvolvem quase em modo DIY**. Esta capacidade de superar as circunstâncias logísticas de forma transformacional leva a que, embora o filme decorra em múltiplos universos atravessando espaço e tempo, passemos a maior parte do tempo em dois locais apenas, embora não se sinta o peso desse facto. O resultado é um filme que não só parece ter custado o quádruplo, como parece ter a energia e grandiosidade de um blockbuster.
Estas facetas (a imaginação dos Daniels, a sua abordagem maximalista e o conceito do multiverso) leva a que haja muita informação para digerir — também diegética, mas sobretudo visual — é um filme que obedece ao princípio de everything but the kitchen sink, excepto que aqui a kitchen sink também é atirada ao barulho. Mas o que poderia ser, à primeira vista, uma coleção pouco criteriosa de momentos absurdos mas divertidos, acaba por ser exactamente o contrário. Claro que os Daniels se divertem com cenários hilariantes que só poderiam vir das suas cabeças (um mundo em que toda a gente tem dedos em forma de salsichas, por exemplo), mas nada é colocado no ecrã ao acaso. Mesmo os detalhes absurdos, sobretudo os detalhes absurdos, têm uma função: cada novo universo tem algo de iluminador para o desenvolvimento das personagens, especialmente Evelyn.
Estes infinitos universos e infinitas Evelyns, todos repletos de referências cinematográficas [a The Matrix (1999), a Fa yeung nin wah (Disponível Para Amar, 2000), à Pixar] acabam por se destilar na crise de vida desta mulher, motivada por decepções e pela desintegração dos seus relacionamentos. O multiverso — uma metáfora para muitas coisas, desde ADHD, à forma como consumimos e usamos a Internet — acaba por ser uma ferramenta para Evelyn lidar com arrependimentos. O que poderíamos ter sido, se as coisas se tivessem passado de outra forma? Ou que coisas se manteriam iguais, por existir algo cósmico que assim o dita?
O que começa por ser uma aventura cheia de acção e ideias idiossincráticas, acaba por revelar-se uma contemplação tão sincera quanto absurda. Num mundo de infinitos universos, o grande problema é tudo deixar de ter sentido. Nada importa quando tudo pode parecer tão inconsequente. Até que, de súbito, passar uns minutos com duas pedras pode fazer-nos transbordar de emoção de uma maneira completamente imprevisível.

“Todos os filmes são sobre pais e filhos”, uma citação do meu pai que tenho comprovado ao longo dos anos. Este não fica aquém e a relação central do filme é entre Evelyn e Joy. Uma relação imperfeita e complicada que espelha todas as relações imperfeitas e complicadas que existem entre pais e filhos. Num mundo de vidas infinitas, é sarar esta dinâmica partida que salva o mundo.
No seu âmago, é uma história sobre três gerações de uma família imigrante, os seus problemas de comunicação e a maneira como as dinâmicas se vão perpetuando até que o ciclo se quebra. Mas é mais do que isso também. É sobre depressão e niilismo, e a dificuldade em encontrar significado no mundo em que se vive. É sobre sentir que o mundo seria melhor se houvesse mais expressão de generosidade entre toda a gente. É sobre mudar de perspectiva.
Aproveitando a liberdade oferecida pela ideia do multiverso, os Daniels apresentam-nos ideias, estilos visuais e cenas de acção a um ritmo frenético. No centro está Yeoh. Everything Everywhere All At Once olha para o nosso mundo cheio de estímulos e informação e aceita que talvez nada faça sentido, no cômputo geral. Talvez não sejamos mais do seres minúsculos a viver a sua vida insignificante na vastidão de um universo indiferente. Mas face a isso, por que não criar o nosso próprio sentido e propósito? Por que não oferecer antes toda a benevolência que nos for possível? Talvez seja uma mensagem simplista, talvez o filme seja cansativo ou talvez se reduza simplesmente a querer dar-nos um abraço. Mas é um bom abraço.
*Ke Huy Quan, o Short Round de Indiana Jones and the Temple of Doom (Indiana Jones e o Templo Perdido, 1984) e Data de The Goonies (Os Goonies, 1985), deixou, durante anos, de conseguir papéis e acabou por se virar para o trabalho por detrás da câmara. Este é o primeiro papel desde que decidiu regressar à representação.
** Ao longo de dois anos, o CGI deste filme foi criado por um grupo de amigos dos próprios realizadores nos seus computadores, no programa After Effects.
