O À pala de Walsh publica uma série de textos críticos desenvolvidos no âmbito do RAW: Residências Arché→Work 2025, dedicadas ao cinema de não-ficção e à experimentação, organizadas pela Apordoc (Doclisboa) e pela Cine en Ruta (Festival Márgenes, Madrid), com o apoio do Programa Ibermedia. O texto que se segue é da autoria de Agus Wetzel.

Em 2024, o sociólogo argentino Lucas Rubinich escreveu um livro chamado Contra o Homo Resignatus: Sete ensaios para reinventar a rebeldia política num mundo invadido pelo desencanto. Uma das premissas de que parte este livro é a incerteza gerada pelas transformações regressivas próprias da degradação das instituições no âmbito daquilo que ele denomina de a cultura do capital financeiro. Neste cenário, o trabalho capta alguns elementos relativos ao deteriorar de velhas sensibilidades e ao surgimento de novas, contexto no qual observa processos que geraram novas formas de sofrimento nas diferentes variantes das classes oprimidas, bem como a naturalização optimista dessa nova ordem. Neste cenário, as instituições que outrora serviram como contenção hoje desmoronam, incentivando a luta pela sobrevivência dos melhores — isto é, concretamente, os mais aptos no terreno da cultura do capital financeiro.
Os melhores poderiam conformar esse amplo espectro social onde têm lugar trade marketers, incels, tokenistas, runners, rage baiters, bullys & bros, produzindo uma longa e desmedida lista de formas instáveis, ansiosas e normalizadas de subjetivação contemporânea, que têm o empresário de si mesmo como personagem principal. Estas comunidades económicas (de homo œconomicus) tomam uma das formas primárias dos movimentos arqueológicos, que têm as redes sociais como suporte primordial. Sob esse prisma, múltiplas camadas geológicas da nova humanidade tecnificada encontram um placebo e um lugar para onde ir. Mas se temos um sector da população que encontrou para onde ir no território maníaco das redes sociais, cabe perguntar o que sucede com o outro resto que oferece, à sentença mekasiana, uma continuidade antropológica — esse resto sem nenhum lugar para onde ir.
A imagem é a de uma grande auto-estrada onde duas vias direccionam ideias e posicionamentos para norte ou sul, e onde, de tempos a tempos, ocorre um acidente infeliz próprio do humano. Um cão atravessa a auto-estrada, uma vaca talvez menos, um esquilo porventura. Seja como for, o acidente acontece e essa corrente que flui de um lado para o outro detém-se, dando lugar a outra coisa, uma coisa nova, que corta o fluxo conhecido das acções e impõe uma nova forma — não necessariamente renovada — de continuar.
Penso no acidente e vem-me à mente o processo de Herem que fizeram a Baruch Spinoza, depois do qual foi excomungado de La Haya, ficando selado para sempre como maldito e sem comunidade. Ainda desejante, Spinoza continuou a escrever na sombra, sob o cuidado secreto de um punhado de amigos que correram o risco de o acolher e puderam traficar o seu Tratado teológico-político, publicado anonimamente e com falso local de impressão em 1670. Nota 1: acolher é um risco que tem de ser corrido. Impressiona que alguém julgado da maneira como Spinoza foi venha a definir um dos conceitos mais vitais da filosofia moderna — refiro-me ao conatus: a potência pela qual cada coisa, na medida em que está em si, se esforça por perseverar no seu ser.
Quando penso no filme Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo (2025) de Fábio Rogério e Wesley Pereira de Castro, a via que observo é a que se dirige para o sul — o protagonista e co-director do documentário vive e filma em Sergipe (Brasil) — e a imagem que me surge é a de um acidente geológico que impacta a comunidade do cinema contemporâneo. É um bom acidente, capaz de comover as placas tectónicas por onde navegam amantes de cinema, mercenários de toda a espécie, sádicos e espectadores habituados. Olhando para o lado sul da estrada, Um Minuto interessa-me como acidente porque é um documentário onde colidem um conjunto de questões ligadas às categorias de comunidade, precariedade, capacitismo e capital financeiro. Nesse sentido, o documentário coloca na mesa uma série de problemas centrais aos debates contemporâneos sobre cinema documental e que se relacionam com o lugar reservado ao sofrimento psíquico no terreno do capitalismo de plataformas.
Enquanto acidente, Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo está a acontecer agora, correndo vários ecrãs em festivais mundiais: já passou pelo 28º Festival de Cinema de Tiradentes, onde ganhou o Prémio Aurora; pelo Curta-se: Festival Ibero-americano de Cinema de Sergipe; e pela 23ª edição do Doclisboa, onde integrou a Competição Internacional.
Ao longo do documentário, com o telemóvel na mão e filmando-se a si próprio, Pereira de Castro — um homossexual, pobre e intelectual do bairro de Aracaju — experimenta situações de elevado grau de convulsão e mal-estar psicológico. A partir de um registo próximo ao de um diário filmado, grava com a câmara do telemóvel o seu dia-a-dia, que decorre entre duches, masturbações, diálogos com animais, leituras e filmes que vê com a sua avó na televisão da sala. É uma atmosfera quente, em que chove sem parar e o pátio se inunda. A água entra na casa incessantemente, como numa vala. No bairro de Sergipe falta água, saneamento e, por vezes, até comida. Neste contexto, o protagonista grita, chora e, por momentos, mostra-se a fugir e a refugiar-se do assédio de alucinações paranóicas em pequenos corredores de cimento e tijolo. Num caderno escreve: “porque é que tenho sempre vontade de me matar?; sinto-me sozinho”. Parece não existir, à sua volta, uma comunidade humana capaz de albergar este sofrimento que vai da solidão aos estados de mania, passando pela tristeza, até concluir em momentos desesperantes de perseguição alucinatória.
A pequena comunidade entre espécies de Pereira de Castro é traçada com o seu amigo sergipano Fábio Rogério — com quem co-realiza e monta o filme —, com a sua mãe Rosane, com tartarugas, galinhas, patos, cães e muitos filmes (Rohmer, Waters, Parente, Nuri Bilge Ceylan, Adirley Queirós…). Os livros também fazem parte desse comum: lê Beckett, Deleuze e passagens da Bíblia Sagrada. No aluvião de estímulos maníacos que conformam as suas ferramentas precárias de sobrevivência, também dedica alguns minutos a procurar homens em aplicações de encontros, onde se descreve como: Depressivo. Virginal. Anti-Bolsonaro. Aficionado por cinema. Religioso. Pornoteórico. Centrípeto. Vegetariano. Amante da literatura. Proto-suicida. Indiscreto. Assim, o documentário decorre entre livros e masturbações que Pereira de Castro regista com o telemóvel — mais distante do pornográfico e mais próximo do erótico, que, por erótico, é também maldito e aparece como uma chave para pensar essas eroticidades precárias como formas de lidar com a desesperação e a ansiedade.
As sombras de um laço social precário surgem mediadas pela sua inscrição num grupo social de formação académica ligada à crítica cinematográfica no Brasil (Wesley é um crítico de cinema reconhecido em todo o país e possui um Mestrado em Comunicação com uma tese sobre cinema brasileiro), que, à primeira vista, não parece ser um refúgio acessível. Este é um dos obstáculos que Rubinich assinala em Contra el Homo Resignatus: “milhares e milhares de operários industriais que realizavam trabalhos similares, que habitavam bairros comuns e conviviam diariamente em grandes barracões, encontravam condições objectivas para se sentir parte de um grupo comum” (p. 47). Não é o que sucede em Um minuto. Aqui, as silhuetas de um laço social precário surgem através da figura da sua mãe Rosane e de alguns poucos amigos — entre eles Fábio Rogério e Marcelo Ikeda (com quem realizou numerosas colaborações no campo audiovisual) —, bem como através de uma mostra de pessoas que se exibem nas aplicações de encontros que o narrador visita em busca de um possível laço sexual-social.
Marcelo Ikeda, crítico brasileiro a quem o filme é dedicado, afirma que Um minuto não pode ser pensado fora das políticas de urbanização e de acesso à educação no Brasil a partir do governo de Lula, que deram às populações das periferias a possibilidade de entrarem na universidade e viverem do pensamento, da arte e da cultura. No entanto — diz Ikeda — estas políticas reflectem outros problemas subjacentes ao mero acesso e que se relacionam com os efeitos dessa educação pretendidamente igualitária e ilusoriamente acessível. Ok, todos acedemos sob o reino progressista, a educação chega aos sectores mais recônditos da sociedade, mas… e depois? O que acontece quando não se pertence a um grupo social privilegiado, quando se é de uma minoria sexo-genérica, quando se tem uma incapacidade, ou quando se é pobre? Um minuto permite-nos assim reflectir sobre algo fundamental: os padecimentos psíquicos têm cor, classe social, género, raça, sexo.
Há um momento do filme em que Pereira de Castro recebe pelo correio um exemplar de um livro de história da crítica cinematográfica que reúne uma série de artigos, entre os quais um de sua autoria. Ele filma o livro com o telemóvel, atira-o para cima da cama e continua a fazer outra coisa. Noutro momento, filma-se a si próprio enquanto faz uma apresentação para se candidatar a um emprego que nada tem a ver com a sua formação enquanto crítico. Dessa forma, o filme torna visível o que assinala Mikkel Krause Frantzen (2019): que por detrás deste crescimento exponencial das depressões e dos sintomas de pânico e ansiedade, se esconde uma questão de economia política onde não há alternativa à precarização, à despossessão, à corrosão da vida. Assim, o documentário põe em cena uma série de problemas materiais que sendo urgentes, e precisamente por o serem, tornam-se invisíveis e escassamente discutidos mesmo nas esferas mais progressistas. Fran Castignani escreve: “A depressão transformou-se noutra pandemia silenciosa, da qual ninguém quer ouvir nem falar.” E isso, no campo do cinema, traz uma série de perguntas que, no melhor dos cenários, não resultarão em aproximações que possam ser facilmente explicadas pela expressão própria da tradição gauchesca: “desencilhar até que amanheça”. Acontece que tarda muito a amanhecer, e a necessidade de sobrevivência converte-se no objectivo primordial. Perante este beco sem saída, surgem as perguntas: Como pode o cinema contemporâneo acolher este tipo de documentários? O cinema está preparado para ouvir este filme? Como olhamos de frente o sofrimento alheio sem patologizar, estabilizar ou sustentar doutrinas de hiperdiagnóstico carimbadas com o selo do normocentrismo social? Pode o cinema recriar sentidos do comum enquanto cada vez mais sujeitos escolhem não pensar no presente nem no futuro?

A partir de selfies e filmagens que registam as condições materiais da sua existência, Pereira de Castro constrói uma narrativa que traz à cena experiências contundentes de dor psíquica crónica. As selfies e o auto-espectáculo surgem como métodos que, por um lado, viabilizam a realização do filme e, por outro, marcam uma narrativa que é também sintoma de época — dessa narrativa colectiva única que nos foi imposta no império da autodeterminação das redes sociais. Estas imagens, sem montagem, poderiam pertencer ao universo das stories do Instagram, dado que se tratam de breves lapsos que se cortam abruptamente para passar à coisa seguinte. Neste ponto, creio que a proposta de montagem é lúcida: mantém uma duração não tão extensa e um ritmo maníaco, característico do universo das stories onde, ao fazer scroll, podemos passar em segundos de um anúncio de hambúrguer a um portal de ajuda humanitária. Aqui também as imagens, por operação de montagem, apresentam-se transparentes, sem fissuras nem asperezas. Só que aqui, no território do cinema, a coisa não se resolve com partilhas ou com um “gosto”. Nota 2: a dor psíquica não se pode pós-produzir.
O resultado são imagens honestas e contundentes. O cinema mostra-se sem grandes artifícios e com muito poucos remédios. Um minuto, nesse sentido, reabre uma série de rachaduras simbólicas ainda não reparadas e que são o cavalo de batalha dos dispositivos neoliberais de construção da subjetividade contemporânea no realismo capitalista. Uma construção da qual, apesar de tudo, aterradoramente, fazemos parte, criando ilhas de legitimação expandida, nas quais entram alguns poucos e de onde tantos ficam excluídos — porque sob o selo da normalização se autoriza uma forma domesticada de estar no mundo, de caminhar, de mover-nos e de expressar-nos através da civilização das palavras e da moderação. Afastar-se do rictus normalizado paga-se com exclusões, omissões e hipocrisias passíveis de cancelamento que têm como fim isolar sujeitos e repetir, em pequena escala, a maquinaria opressiva. Essa, diz Christian Ferrer, “é a utopia de toda a polícia secreta: que o trabalho sujo seja feito com a inestimável ajuda da população — lançada à cruzada do momento.” Mais estranho ainda: trata-se de um jogo no qual todos preferem ser vigilantes e ninguém ladrão.
A partir de Um minuto, as dores mentais deram ao cinema um manual de honestidade e de rebeldia política refugiada na intimidade, criando linguagens que resistem às catapultas da indústria e oferecendo formas de habitar a sala de cinema através de olhares reticentes e atrasados, que trazem a estes espaços sentimentos de mal-estar, euforia, desconfiança, erotismo, encanto e desencanto — tudo junto e ao mesmo tempo. Neste interior, ingressa-se em busca de reconhecimento e isso, em termos hegelianos, constitui um drama. O documentário habita, portanto, intermeios incómodos entre o desejo de reconhecimento do sujeito (fundamental para Hegel) e o desejo de desaparecimento. A partir de murmúrios distorcidos, perseverando no seu ser, Pereira de Castro e Fábio Rogério introduzem um gesto de mínimo desalinhamento — uma aposta e uma acção humana potencialmente transformadora que, de algum modo, reinventa formas de ir contra esse homo resignatus, isto é, contra a resignação como única via possível na cultura alargada do capital. Sobre esse terreno, escreve Rubinich: “trabalha a acção política que não se conforma com o mundo em que se vive e chama a imaginar outros.”
Os impulsos vitais e as formas que a perseverança assume enquanto conatus no quotidiano de Pereira de Castro comovem-nos, ao mesmo tempo que nos deixam — felizmente — indefesos. No campo do cinema torna-se evidente que, para completar a insuficiente pergunta pela vida, ou ao menos para não a esvaziar de sentido, é também necessária a pergunta radical pela morte — em termos simbólicos (como pulsão e gozo tanático) e em termos materiais; sobretudo se considerarmos narrativas provenientes do que chamamos terceiro mundo. São perguntas que o cinema terá de colocar a si próprio sem necessariamente lhes dar resposta — talvez deixando florescer a pergunta sem a resolver ansiosamente, anulá-la ou cancelá-la facilmente. Cabe imaginar como é possível activar, no terreno do cinema, exercícios de apoio mútuo e hospitalidade política que dignifiquem os cuidados na cultura do capital financeiro, fazendo do cinema um lugar de justo asilo para este tipo de documentários. Tratam-se de imagens que nos falam da disposição para entrecerrar um pouco os olhos e dar lugar às sombras e silhuetas da nossa íntima escuridão. Saímos da sala de cinema sem respostas, indefesos e com um drama necessário debaixo do braço.
Agus Wetzel
