A realizadora e actriz norueguesa Vibeke Løkkeberg tem filmado sobretudo a família, com especial foco na desigualdade com que os problemas atingem as mulheres e as crianças. Em 1972, o seu primeiro filme, uma média-metragem intitulada Abort, falava disso mesmo e em particular de uma jovem enquanto esperava pela aprovação do pedido para um aborto, uma espécie de Cléo de 5 à 7 (Duas Horas na Vida de uma Mulher, 1962) com o mesmo tipo de dura espera e expectativa. A sua primeira longa-metragem, Åpenbaringen (The Revelation, 1977), talvez o seu melhor filme, mostrava-nos uma mulher de meia idade dominada por uma vida familiar controlada pelo marido, num fino equilíbrio entre a saúde mental, a morte e uma domesticidade doente. O filme causou grande celeuma na sociedade norueguesa, o chamado rumpefeiden, em português o “feudo do rabo”, isto porque Løkkeberg filmava a sua protagonista, a actriz Marie Takvam, nua, sem nenhuma preocupação com boas morais e olhares rectos.

Já nos anos 80, Løperjenten/Kamilla (em Portugal mostrou-se em 83 no Festival da Figueira da Foz com o nome “A traição”) prolongava esta agonia das relações entre casais, mas agora sob o olhar e a perspectiva da jovem Kamilla, nome de uma menina de 7 anos, protagonista do filme e que deu nome ao título internacional do filme. Apesar de ser o seu filme mais conhecido [talvez apenas atrás do mais tardio Tears of Gaza (2010), um documentário de guerra que seguia um conjunto de mulheres e crianças tentando sobreviver ao conflito em Gaza], o filme passou relativamente despercebido, apesar de ter sido selecionado para a Semana da Crítica em Cannes em 83 e ter sido incluído pela UNESCO, já nos anos 90, como uma dos 15 obras mais significativas do cinema norueguês.
O filme de Vibeke Løkkeberg tem um impulso de realismo, a autora procura documentar os bairros trabalhadores da cidade de Bergen, em 1948, portanto logo após o fim da guerra e a expectativa de um regresso à normalidade ante a batuta dos “salvadores” americanos que surgem nos seus barcos distribuindo sorrisos, dólares e pastilhas elásticas. A fotografia de um tempo é-nos dada em primeiro lugar pelo despojamento, cores cruas e o grão na imagem do director de fotografia, Paul René Roestad. Depois, pelo microcosmos de um casal que trabalha numa lavandaria/sapataria: ele, metido num rumor da venda de um barco aos nazis (e portanto com a etiqueta de colaboracionista) e embeiçado por uma loura mais nova, pela qual deixará a mulher; e ela, procurando sobreviver à queda da família, escondendo o dinheiro que o marido havia guardado numa parte da casa, impedindo-a assim de partir para o seu sonho canadiano com a amante.
Se a obra de Vibeke Løkkeberg merece ficar na história do cinema é pelo seu fino retrato e olhar infantis, de crianças diante das lutas emocionais e de um crescimento em turbulência.
Sabemos como o neorrealismo escolheu como entrada para filmar a Europa do pós-guerra o ponto de vista das crianças no seu misto de impotência, honestidade e esperança. Løperjenten comunga um pouco desse ambiente de neorealismo italiano, até de um realismo social britânico, através do límpido e azulíssimo olhar de Nina Knapskog, a Kamilla, filha do casal que assiste a tudo isto, num misto de desnorte e compreensão infantil. O filme de Løkkeberg é forte nesse ponto central a partir do qual constrói, no olhar de Kamilla, num complexo paradoxo, esta ideia de um “espectador emancipado”, mas que não perde tracção de um caos de impressões infantis.
Kamilla toca na seda da roupa da amante do pai, observa pela porta do quarto o pai de machado em punho pronto a destruir a mobília onde está escondido o malfadado dinheiro, brinca aos funerais, limpa cocó de gato da roupa acabada de lavar ou vê as crianças a apedrejar um rato até à morte. Por vezes, esta encenação da miséria existencial paredes meias com o onirismo das crianças tem uma mão algo pesada. Em certas sequências, o uso da música como sublinhado do drama ou o slow motion e o freeze frame na violência (veja-se o final) talvez contradigam o pouco a leveza da observação de Camilla, o seu jogo sem razão com a realidade sem racionalidade. Apesar de se falar em neorrealismo, um filme como Løperjenten também evoca Sommaren med Monika (Mónica e o Desejo, 1953). Mas onde Bergman é irónico a filmar o atravancado das casas e a infelicidade da juventude antes o panorama negro dos adultos, Løkkeberg é mais esquemática na visão masculina que amassa o universo feminino e mesmo em algumas das personagens com menor densidade dramática.
Ainda outro ponto se aproxima a Sommaren med Monika. Como no filme de Bergman, em Kamilla também se projeta uma possibilidade de felicidade, de idílio de uma fuga para algo estável. A família da protagonista tem como duplo uma outra que mora em frente, na qual se projecta um futuro que nos mostra o que possivelmente acontece após a separação do casal. O marido é viciado na bebida e só vem a casa de quando em quando, até que uma vizinha religiosa denuncia a mulher aos serviços sociais por não conseguir tratar dos filhos em condições. Após levaram uma das meninas para o orfanato, Kamilla, pega num gira-discos e em mais uma mala e decide “fugir para o Canadá” com Svein, irmão dessa repariga e seu grande amigo. Uma fuga antes que venham por ele também para o mesmo destino certo. Nessa sequência, a mais bela de todo o filme, Kamilla e Svein procuram entrar a bordo de um barco americano, mas os marinheiros afastam-nos dessa ideia e atirando-lhes pastilhas elásticas. Vão depois para o bosque, o futuro é deles: mascam as pastilhas, umas são afinal balões que os homens colocam nas pilinhas, ele toma banho e a câmara de Løkkeberg irá filmar o corpo molhado da criança, a inocente descoberta da sexualidade, à qual se segue uma “dormida a dois”, com lençóis de folhas e a música do gira discos. Entre a dor das separações, dos pais, dos irmãos, nesse sonho de amor, as crianças buscam e encontram conforto umas nas outras, projetando um futuro de felicidade. Algo que o filme rapidamente irá despedaçar.

O maior sucesso de Løperjenten teve talvez uma razão: trata-se de um filme melodramático, onde a tristeza das personagens suplanta o retrato de uma sociedade e seus modos num tempo muito particular. Contudo, se este filme de Vibeke Løkkeberg merece ficar na história do cinema é pelo seu fino retrato e olhar infantis, de crianças diante das lutas emocionais e de um crescimento em turbulência.
