Reinaldo Ferreira (1897-1935) foi jornalista, romancista, dramaturgo e, também, realizador de cinema (sublinhe-se o também).

A sua primeira relação com o cinema dá-se em 1914 quando, aos dezassete anos, inicia no jornal Capital a primeira secção de cinema da impressa portuguesa (segundo o próprio – o que é sempre de desconfiar). Além da perspectiva jornalística sobre a arte cinematográfica, Ferreira foi igualmente autor do folhetim O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho, que seria adaptado ao cinema em 1918 por Leitão de Barros com o título O Homem dos Olhos Tortos (que por falência da produtora nunca seria terminado e, talvez por narcisismo, Leitão de Barros sempre renegou – os materiais rodados desse filme foram preservados e combinados numa “nova” versão produzida pela Cinemateca Portuguesa).
Anos depois, em Espanha, consegue financiamento, “com o seu conhecido poder de persuasão e de hábil eloquência e sagacidade” (como lembrou Félix Ribeiro), para o primeiro filme por si escrito e realizado, O Groom do Ritz (1923), que terá sido rodado inteiramente em Lisboa mas do qual não se conservou qualquer material fílmico. Pelas descrições, uma cosmopolita história de espiões à imagem do que teria sido o filme de Leitão de Barros caso houvesse sido terminado e do que seria, de certa forma, o seu filme seguinte, O Táxi nº 9297 (1927). Em 1927, com o financiamento de Joaquim Alvez Barbosa, “negociante de solas e cabedais” (como o descreve Jorge Leitão Ramos no seu dicionário), Ferreira forma a empresa Repórter X Film, capitalizando do seu famoso pseudónimo jornalístico. Daqui surgirão quatro títulos: o já referido O Táxi n.º 9297, Rita ou Rito?… (1927), Vigário Sport Club (1927) e Hipnotismo ao Domicílio (1927). Destes, apenas o primeiro título corresponde a uma longa-metragem, sendo os outros três filmes curtos (e dos dois últimos apenas subsistem materiais fílmicos incompletos).
A maior qualidade do cinema de Reinaldo Ferreira encontra-se no modo como o realizador usa o pandemónio do burlesco ou a tensão da história de detectives para colocar tudo em causa e nos levar a questionar todas as convenções.
O seu cinema manifesta, de modo directo, o seu jornalismo, como o explica Felix Ribeiro: “com a decidida tendência que tão marcadamente o caracterizava (…) para as reportagens e os artigos à sensation, pois que sempre fora um mestre incontestado do jornalismo de emoção”. A pergunta que importa colocar, diante de Táxi, é de que modo essa tendência irrisora da sua escrita se manifestou no seu cinema, em particular, de que modo o jornalista-romancista-cineasta encenou narrativas que põem em causa os alicerces da sociedade de então (e de hoje, ainda): como os papéis de género, os papéis de classe e as diferenças de etnia, através de soluções visuais e formais inovadoras (penso nas diferentes significações da mão na sua obra ou o recurso ao encadeado fundido como forma de, literalmente, fundir opostos e diluir diferenças).
Não é portanto coincidência que a maioria dos seus filmes se baseie em peças jornalísticas por si escritas: além do referido O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho, Táxi baseia-se na série de artigos sobre o assassinato da atriz Maria Alves a bordo do táxi do título (que, depois de transformado em filme, Reinaldo transformaria também no homónimo romance) e Rita ou Rito?…, por sua vez, resulta de uma reportagem que se foi desenvolvendo por “vários números do jornal O Primeiro de Janeiro no início de 1927: a história de Rita Ferreira que, vivendo como mulher e funcionária da Estação Telégrafo-Postal de Vagos, seria, afinal, um homem que deixara por onde passara um rasto de donzelas desonradas” (citando, de novo, Leitão Ramos). A investigação sobre a morte de Maria Alves deu grande popularidade ao Repórter X, especialmente por ter sido ele (e não a polícia) a descobrir que o assassino era, afinal, o produtor da artista, o empresário Augusto Gomes, que a terá morto na sequência de um desaguisado (fingindo não saber de nada e instigando publicamente a investigação). Felizmente Reinaldo Ferreira não se demora muito na transcrição pormenorizada deste caso. Pelo contrário, esse é antes um chamariz para o espectador ávido de grotesco e o pano de fundo sob o qual dispõe uma série de personagens improváveis às avessas num casarão suburbano (cheio de portas, corredores, escadas e janelas).

No entanto, a tendência para o sensacionalismo (conhecido também por “reinaldismos”), no jornalismo e no cinema, oferecem à filmografia de Reinaldo Ferreira uma qualidade diferenciadora que vem sendo destacada pelos vários historiadores e académicos (se não todos) que escreveram sobre as suas obras. Manuel Cintra Ferreira refere, sobre Rita ou Rito?… “tem um argumento particularmente insólito para o cinema que por cá se fazia, e é um testemunho bastante curioso de costumes nacionais nos ‘anos loucos’”, Bénard da Costa escreve que “os filmes de Reinaldo Ferreira foram saudados como antídoto para o provincianismo dos «Filmes do Porto»” [referindo-se ao “literatismo” das produções Invicta Films], já Fernando Curopos (em Panorama du cinéma portugais) compara a modernidade de Ferreira aos futurismos de Walter Ruttmann e Fernando Pessoa, afirmando-o mesmo como “ovni do cinema mudo”, assim como o faz Paul M. Castro, “Reinaldo Ferreira foi contemporâneo e colega dos escritores da geração futurista” (em Five Cases from 130 Years of Portuguese Detective Fiction, 1870’s-2000’s). Regressado a Cintra Ferreira, há, em Rita ou Rito?…, “um toque de modernismo, se não mesmo de surrealismo”.
O Táxi n.º 9297 constitui a primeira figuração de uma personagem explicitamente homossexual no cinema português.
A par disto, a obra de Reinaldo é por vezes enquadrada na história do cinema português juntamente com a dos realizadores da geração da primeira vanguarda [à cabeça, Manoel de Oliveira, Leitão de Barros, Lopes Ribeiro, Chianca de Garcia e Brum do Canto], é dessa opinião, por exemplo, Bénard da Costa. Esta inserção dos filmes na corrente das vanguardas justifica-se por o cinema de Ferreira representar a sociedade portuguesa dos anos 1920 à luz de um multiculturalismo europeu e norte-americano, tão vivido quanto imaginado [se Ferreira viveu em Madrid e Paris, também é certo que vários das suas histórias de detectives têm personagens norte-americanas (como é o caso do protagonista de O Táxi nº. 9297) e longas descrições de Nova Iorque, cidade e país que Ferreira nunca conheceu pessoalmente].
A diferença que o seu cinema traça prende-se com o referido provincianismo dos filmes da Invincta, por oposição a um cinema que retratava muitas vezes casos do momento na sociedade portuguesa. Cintra Ferreira fala dos costumes progressistas dos loucos anos 1920 que “por cá também se [manifestavam] nalguns comportamentos, e uma certa liberdade de espírito criativo e de moral como algumas memórias e estudos da época nos vêm revelando” e M. Castro afirma mesmo que “Reinaldo Ferreira foi uma das figuras culturais mais marcantes da sua turbulenta época. Era uma altura de revolta e instabilidade, caracterizada por assassinatos famosos, fraudes audaciosas, crimes cruéis e escândalos chocantes (…).” A este respeito convirá lembrar que O Táxi n.º 9297 constitui a primeira figuração de uma personagem explicitamente homossexual no cinema português, o espanhol Don Alfonso (interpretado por Manuel Silva) que além de elogiar lascivamente a farda do tenente Hair (Alves da Costa – o detective americano que protagoniza a convulsa narrativa) é também tóxico-dependente (contendo o filme a primeira imagem, na cinematografia nacional, de uma injecção intravenosa de estupefacientes – em grande médio!). De notar, ainda, que Don Alfonso é inspirado na figura de Luis Fernando de Orleans y Borbón (“el rey de los maricas”), infante da corte espanhola que perdeu o título pelos escândalos que armou por Paris e que “namoraria” com o poeta português António Botto – um dos protagonista da “Literatura de Sodoma” que abalou a “boa moral cristã” que dominava a sociedade portuguesa dos anos 1920 – que o Repórter X bem conhecia (dado o escândalo, ocorrido no ano anterior à rodagem do Táxi, em que Luis Fernando e Botto terão sido capturados ao tentarem passar ilegalmente a fronteira com Espanha, com contrabando e vestidos de mulher).

Esta abertura aos tremores da sociedade, importada da sua escrita, revela-se também noutra forma de importação, desta feita cinematográfica, do cinema de género: por um lado as histórias de detectives, por outro o burlesco. Curopos explica que O Táxi é um “filme noir que não deixa de evocar as experiências do género realizadas no outro lado do atlântico” e M. Castro, referindo-se ao homónimo romance, explica que “[A mistura em O Táxi n.º 9297] é típica das ficções de detectives portuguesas, na medida em que se constroem a partir de uma amálgama de modelos estrangeiros e são quase sempre um mix híbrido de diferentes influências e sub-géneros.”.
Neste sentido, repare-se como em O Táxi n.º 9297 Reinaldo Ferreira cria diversas imagens (através do grande plano, na maior parte das vezes) em que a mão não possui um referente corporal. Fá-lo como mecanismo de suspense narrativo: vê-se uma mão empunhando o revólver que assassina uma das personagens mas não se sabe a quem pertence essa mão, ou outra roubando um ítem de valor, havendo mesmo uma cena em que, sob o manto da escuridão, os personagens poisam as mãos sobre uma mesa para que aquele que roubou o medalhão precioso o possa devolver sem que a sua identidade seja revelada – plano copista da famosa cena da sessão espírita de Dr Mabuse, der Spieler (O Doutor Mabuse, 1922) de Fritz Lang [fotograma em baixo].
A estratégia em Rita ou Rito?… é em tudo semelhante, com a diferença que aí não se procura adensar a narrativa detectivesca mas sim desenvolver o chorrilho de enganos da comédia burlesca (também há aí mãos perdidas – nesse caso, literalmente – que não se sabe bem a quem pertencem). A aproximação ao burlesco faz-se por via dos gags fundados na figura do travesti. Cintra Ferreira defende que “O tema do travestismo não trazia nada de novo. O burlesco americano estava cheio de exemplos do género, sendo um dos mais famosos o A Woman [1915] de Charles Chaplin. A curiosidade de Rita ou Rito?… é trazê-lo à baila para o cinema português”, Leitão Ramos também fala em “comédia burlesca” e igualmente Matos-Cruz coloca o filme “na linha de Charlot”. Dos fragmentos conservados de Hipnotismo ao Domicílio salienta-se o protagonista como uma réplica portuguesa de o rapaz dos óculos de Harold Lloyd (o semelhante chapéu de palha, os semelhantes óculos redondos de massa, a semelhante brancura e expressão inocente) e existem também, em Rita ou Rito?…, alguns momentos que parecem perfeitas mimesis do estilo de Buster Keaton (uma comédia de portas que baralha a arquitectura do espaço onde decorre a acção) e outros que antecipam o famoso gag do espelho de Duck Soup (1933) protagonizado pelos irmãos Marx.

Como o pôs a artista plástica e performer, Susana Mendes Silva, na folha de sala que escreveu para a sua instalação dedicada ao trabalho e à figura do Repórter X, intitulada simplesmente X: “as imagens, recolhidas de filmes realizados por Reinaldo Ferreira (…) dirigem a nossa atenção para termos significativos, e testemunham a contemporaneidade e vanguarda da [sua] obra (…): a figura do travesti (…), e o duplo (…). Figuras que encarnam a margem e que desafiam noções simplistas de binariedade como homem/mulher, verdade/ficção, original/cópia, interpelando, deste modo, a crise destas categorias.” Aqui, encontra-se sumariado, de forma particularmente precisa, aquela que é a qualidade mais forte do cinema de Reinaldo Ferreira, a saber: os modos como o pandemónio do burlesco ou a tensão da história de detectives coloca tudo em causa e leva-nos a questionar todas as convenções, a favor de um desmascaramento paulatino e exaustivo de todas as figuras e papéis sociais de uma época, ela própria em profundo rebuliço. A sua obra é um marco histórico fundamental e um importante manancial analítico sobre os costumes da sociedade portuguesa antes da implantação do Estado Novo.
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O Táxi n. 9297 estará disponível para visionamento no sítio da Cinemateca Portuguesa, no âmbito da programação em linha “Gestos e Fragmentos”, entre os dias 22 e 28 de Maio. O autor deste texto foi convidado pela Cinemateca Portuguesa, aquando do lançamento dos filmes completos de Reinaldo Ferreira em DVD, a produzir um vídeo-ensaio, Os Motivos de Reinaldo (2018), sobre a obra do realizador cuja primeira versão está disponível como extra da referida edição [e uma segunda versão está disponível no sítio da MUBI, no âmbito de uma parceria com o festival espanhol Filmadrid onde o vídeo foi exibido].
